Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae

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São Paulo, SP, Brazil
O Blog do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae é um dos veículos de comunicação em que circulam informações, produção de conhecimento, experiências clínicas e de pesquisa de seus diferentes membros. A interlocução com o público, dentro e fora do Departamento, é uma maneira de disseminar a troca no campo da Psicanálise e possibilitar a ampliação do alcance das reflexões em pauta. Fazem parte da equipe do Blog: Adriana Elisabeth Dias, Ana Carolina Vasarhelyi de Paula Santos, Fernanda Borges, Gisela Haddad e Renata Calife Fortes.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

II Colóquio Internacional de Grupos

O Blog do Departamento  convida a todos a participar do II Colóquio Internacional de Grupos,  que será realizado em São Paulo de 18 a 20 de abril de 2018 na Universidade Mackenzie. O evento organizado em conjunto com diversas instituições, está aberto para a chamada de trabalhos. Saiba mais:

Figuras da diferença e o dispositivo psicanalítico de grupo

O mundo globalizado/atual caracteriza-se por uma intensificação das transformações culturais, sociais, econômicas, tecnológicas, geopolíticas entre outras. Paradoxalmente, expressa diferentes formas de enrijecimento, especialmente das relações sociais, em conexão com a ameaça representada pelo encontro com o estrangeiro. Isso tem tido como efeito a manifestação de excessiva intolerância; a tentativa de apagamento das diferenças, de um lado, ou transformações criativas e enriquecedoras nas diferentes culturas, de outro. Temos assistido uma polarização dos discursos sociais e políticos no nível nacional e mundial. As redes sociais virtuais têm facilitado o encontro de opiniões convergentes e o ataque virulento ao que é percebido como diferente.

Sabemos, todavia, que a diferença está no coração do psiquismo e das trocas intersubjetivas. O pensamento sobre a diferença percorre a obra psicanalítica e tem conduzido a um exigente trabalho de reflexão sobre os valores da diferença na constituição da realidade psíquica. A problemática do narcisismo e da alteridade abrange dimensões fundamentais da questão que se declina ainda por outras vias. Sublinhamos as diferenças entre o humano e o não humano, entre os sexos, e gerações e entre culturas, conjunto de diferenças cujos valores dariam acesso à estruturação psíquica.

Como se articulam estas questões do macrocontexto social e a problemática da diferença em psicanálise em nosso trabalho com grupos, casais, famílias e instituições? Certamente os efeitos do contexto social atravessam nossas práticas, mas também as solicitam para o constante trabalho da cultura, tão demandado neste momento de nossa civilização. Além do mais, que vias se abrem, no contexto atual, para enriquecer nossa compreensão da diferença no campo da psicanálise? Diferença como problemática teórica para a psicanálise, mas também em termos da pluralidade de perspectivas teóricas e práticas do nosso campo, como exemplificado pelos próprios dispositivos de grupo e teorias que os subsidiam.

Tendo como base essas questões, propomos um Colóquio Internacional – que permita ampliar a reflexão sobre o estatuto da diferença e suas manifestações nos vínculos e implicações para os dispositivos psicanalíticos de grupo.
Este evento faz parte de uma rede de trocas estabelecida entre universidades a partir do pioneirismo da Université Lumière Lyon 2 e que hoje congrega importantes instituições europeias e latino americanas. A rede “grupos e vínculos intersubjetivos” busca consolidar um espaço científico, político e institucional no qual os temas sobre grupos e instituições possam ser retomados e legitimados dentro do pensamento psicanalítico.



quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Lançamento do livro A Culinária do Rio de Janeiro: da Colônia à Atualidade de Flávio Ferraz


No dia 8 de dezembro último, o Blog do Departamento esteve na Livraria Martins Fontes para o lançamento do livro A Culinária do Rio de Janeiro: da Colônia à Atualidade de Flávio Ferraz, membro de nosso Departamento. O leitor poderá se deliciar com as 500 receitas culinárias cuidadosamente selecionadas. Para além delas, o livro é resultado de uma exaustiva e abrangente pesquisa e conta, por meio de escritos e fotografias primorosas, a história dos clássicos da cozinha fluminense. As receitas são precedidas de um texto introdutório, assinado pelo próprio autor, que apresenta um estudo antropológico sobre a formação da culinária do Rio e as diversas etapas de seu desenvolvimento. Há também um prefácio assinado pela socióloga Rosa Belluzzo, pesquisadora da alimentação no Brasil.

Publicado pela Editora Metalivros, por meio da lei de incentivo cultural da Prefeitura do Rio de Janeiro, a obra traz receitas tradicionais, quase todas de domínio público, sendo que o levantamento e a escrita destas receitas e suas histórias é resultado de um trabalho de pesquisa de dez anos.

A editora, que atua no mercado de livros ilustrados desde 1985 – associada à Editora Martins Fontes - convidou o artista gráfico Victor Burton para conduzir o design da publicação e a pesquisa iconográfica. A fotografia ficou a cargo do jovem fotógrafo João Victor Burton, que percorreu a capital e o interior do Estado do Rio de Janeiro documentando bares, botecos, restaurantes, pratos, doces e coquetéis. O resultado é muito saboroso. Muitos colegas do Departamento de Psicanálise prestigiaram a festa do lançamento. 














domingo, 3 de dezembro de 2017

A psicanalista Maria Cristina Petry, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, compartilhou com a equipe do blog uma entrevista que deu sobre a "cura gay", homossexualidades, transexualidades e prostituição. Confira!

SOBRE A CURA GAY, HOMOSSEXUALIDADES, TRANSEXUALIDADES E PROSTITUIÇÃO: ENTREVISTA PARA FINS ACADÊMICOS


Virginia Carvalho e Stephanye Gomes Albino (estudantes de Jornalismo da Uninove)
Entrevista com Maria Cristina Petry


Ao pensarmos na decisão do juiz, voltada para as pessoas que não aceitam a própria sexualidade, entramos em embate com a questão da sociedade não aceitá-las num primeiro momento e, por consequência, tais pessoas não se aceitam. Como ajudar essas pessoas sem colocar a homossexualidade como uma doença?


Em primeiro lugar, esclarecendo a toda a sociedade que a homossexualidade não é uma doença. A prática clínica nos mostra isto. Freud, em 1935, já afirmava que não considerava a homossexualidade uma doença e que não confiava numa possível reversão da mesma. Em 1990, a Organização Mundial da Saúde retirou a homossexualidade da lista de doenças e o Conselho Federal de Psicologia já a havia retirado da lista de transtornos mentais em 1985, assim como, no mesmo ano, o Conselho Federal de Medicina desclassificou a homossexualidade de ser um “desvio e transtorno mental”. Já a Associação Americana de Psicologia o havia feito desde 1975 e a Associação Americana de Psiquiatria, desde 1973.


O fato da sociedade não saber lidar com as diferenças, sequer poder respeitá-las, manifestando seus preconceitos através de atitudes como intolerância, discriminação, bullying e exclusão social acabam por provocar - ou simplesmente agravam - o sofrimento e conflitos dessas pessoas, cuja vivência não corresponde a uma heteronormatividade estabelecida no âmbito social, histórico, cultural, político, religioso.


Consequentemente, são os sentimentos de menos valia, inadequação, depressão e as tentativas de suicídio, assim como as internações compulsórias de adolescentes e a medicalização desnecessária, entre outros, que fazem com que pessoas homossexuais nos procurem em consultórios para que possam ter um espaço de escuta e acolhimento.


Conforme dito em meu artigo Ainda sobre as manifestações de repúdio à chamada “cura gay”, publicado em 25/10/2017 no Blog do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae: “Nós, profissionais da saúde, sempre nos propusemos a atender casos de homossexualidades pelos efeitos de sofrimento que isto pode causar no Sujeito, na medida em que ele nos procura espontaneamente; porém não se trata de reverter a homossexualidade, mas sim de tratar as angústias que podem advir de problemáticas geradas, acima de tudo, por conta do preconceito e intolerância sofridos por estas pessoas, cujas identidades de gênero e/ou orientação sexual elas mesmas têm de aprender a lidar.”.


É, portanto, oferecendo esse espaço de escuta e acolhimento, sem discriminação, onde o que é considerado é o Sujeito constituído na sua singularidade, digno de respeito e de direitos como qualquer cidadão. Ao oferecer um atendimento em que possa, a partir da empatia, ser estabelecida uma relação transferencial, é que nós, profissionais da saúde, podemos propiciar possibilidades de elaboração psíquica das suas angústias e ajudar essas pessoas a lidarem com seus conflitos e dor, de maneira a poderem assumir o seu desejo e a escolherem um caminho de vida a percorrer que lhes faça sentido.


Acreditam que essas terapias de reversão sexual podem causar danos psicológicos irreversíveis aos que foram submetidos a ela?


As terapias ditas de reversão sexual são refutadas segundo a orientação do Conselho Federal de Psicologia, expressa em sua Resolução de Nº 01/1999 que proíbe “qualquer ação que favoreça a patologização de comportamentos ou práticas homoeróticas” e veta “eventos e serviços que proponham tratamento e cura das homossexualidades”. Esta é a resolução que está sendo questionada na justiça por algumas pessoas que ainda consideram a homossexualidade como uma doença.


Entendemos que a homossexualidade não é uma doença, tampouco uma escolha opcional - ninguém escolhe sofrer ataques advindos de preconceitos arraigados na sociedade - trata-se de uma característica que não deve ser considerada patológica. Portanto, não há que se propor tal terapia.


Se essas terapias questionáveis existem, pode-se imaginar no mínimo o acréscimo de sentimentos de culpa aos já sofridos e reforçados sentimentos de inadequação, e a sexualidade, ao ser entendida como algo a ser condenado e reprimido, traz consequências maléficas aos sujeitos.


Atualmente, parte da comunidade LGBT luta contra a despatologização de pessoas transexuais: como essa iniciativa do juiz interfere na luta?


A questão sobre patologização versus despatologização das transexualidades tem sido bastante contraditória entre a própria comunidade LGBTs. Isto porque é justamente o fato de ser classificada como doença que pessoas trans, desde que se encaixem numa concepção fixa de gênero, podem obter todo o tratamento de readequação sexual gratuito pela rede pública. No entanto, parte da comunidade é contrária por entender que todos devem ter os mesmos direitos garantidos, fora da concepção de doença.


Considerando que sua pergunta aponta para o fato de que parte da comunidade LGBT luta contra a despatologização de pessoas transexuais, neste caso, especificamente, a decisão do juiz não interfere na luta. Isto porque me parece que estas pessoas citadas desejam manter o status quo, vez que provavelmente estão se beneficiando dos aparelhos de Estado onde, através de atendimentos multiprofissionais, conforme diagnóstico médico estabelecido para as pessoas trans no DSM-5 - Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais - atualmente não mais como transtorno de identidade de gênero e transgênero mas, ainda sim, como Disforia de Gênero, podem ter atestados os seus direitos e a sua condição favorável às chamadas cirurgias de ressignificação sexual, ou seja, cirurgia genital irreversível e tratamentos hormonais pelo SUS - Sistema Único de Saúde - além de possibilidades de acesso jurídico para mudança de sexo e gênero em suas Certidões de nascimento, como também a retificação do nome de batismo pelo nome social adotado.


Importante salientar que os transexuais não devem ser confundidos com os homossexuais, porque sexualidade não é a mesma coisa que identidade de gênero. Lembrando ainda que, em Psicanálise, falamos em identificações.


O que tenho percebido mais recentemente são algumas pessoas trans que, conforme dizem, não sentem a necessidade de realizar uma transição completa, porém fazem questão de ter reconhecido o direito a um nome social por elas escolhido e o direito de serem respeitadas em suas singularidades destoantes de uma cisnormatividade estabelecida. A partir daí, podemos pensar em como garantir os direitos reivindicados sem que, para isto, pessoas trans precisem continuar a ser diagnosticadas patologicamente. O Conselho Federal de Psicologia lançou em 22/05/2015 o site Despatologização das Identidades Trans como parte integrante da campanha de luta contra a homofobia, produzido pela Comissão de Direitos Humanos, mostrando que, apesar das conquistas alcançadas nos últimos anos, a população trans ainda tem seus direitos condicionados a um diagnóstico patologizador. Portanto, é preciso levar adiante estas questões, envolvendo também as demais áreas do conhecimento.


Qual a sua posição quanto aos profissionais que alegam existir uma forma de reverter a orientação sexual de uma pessoa e que exercem tratamentos sobre isto?


Penso que lhes faltam leituras, conhecimento e experiência sobre o assunto. Ou ainda, que possuem uma visão deturpada, atravessada por questões de valores pessoais.


Como questões como a cura gay podem refletir diretamente na mente de pessoas homofóbicas?


Como já disse, acirrando comportamentos preconceituosos, de intolerância, exclusão, discriminação, marginalização do convívio social, enfim, cada vez mais havendo um aumento de segregação e violência contra os homossexuais e pessoas transgêneros, na medida em que são consideradas pessoas doentes, o que é um engodo.


Como estar exposta à violência diária na prostituição afeta o psicológico de uma garota de programa, principalmente trans?


É importante ressaltar que as questões vivenciadas por garotas cis são diferentes das vivenciadas por garotas trans. Contudo, qualquer pessoa que esteja exposta à violência diária terá, em seu psiquismo, marcas profundas dessa violência. Embora cada um tenha seu modo de interpretar as situações vividas e cada ser tenha as suas características e maneiras de lidar com os acontecimentos, o que observamos é que a maioria tende a se portar e a reagir com a mesma agressividade a que foi submetida, fazendo deste comportamento um meio de defesa frente a possíveis novas formas de agressão.


Quais são os perfis de mulheres cis e mulheres trans que procuram esse meio de sustento?


Existem diversos motivos para que uma mulher, independente da sua identificação sexual, seja ela cis ou trans, procure na prostituição o seu meio de sustento, seja para a sua própria subsistência, da família, de um filho ou ainda de um vício. Embora não tenha na minha prática clínica pessoas oriundas de tal vivência, entendo em linhas gerais que os perfis podem ser os mais variados possíveis, desde o de uma pessoa mais tímida com tendência à submissão até o das mais seguras e independentes; desde o das meninas em tenra idade que são aliciadas sob falsas promessas de sonhos a serem realizados, passando por aquelas que se tornam escravas sexuais, que foram violentadas por pessoas oriundas do próprio ambiente doméstico e familiar. Também temos as que dependem de uma certa proteção dos seus agenciadores/cafetões - cuja relação é abusiva e baseada na agressão, seja ela física ou psicológica - e as que encaram com mais objetividade e autonomia esta atividade profissional, podendo até obter prazer, tanto com os diversos programas acertados quanto com as próprias relações em si. Enfim, devido à complexidade de cada ser e do que seria abordar nesta entrevista cada perfil em particular, deixo em aberto esta questão.


O que leva homens a procurarem se satisfazer com mulheres trans para logo em seguida assassiná-las, como é visto em muitos casos?


Cada caso é um caso, no entanto, e também analisando de maneira genérica, podemos pensar sobre a hipótese de que parece existir uma identificação possível destes homens com as mulheres trans - na medida em que se ama no outro aspectos que se encontram em si mesmo; desejo narcísico, inconsciente. E então, levados que foram a realizar uma fantasia inicial, no seu término, num ato de insensatez, matam - na ilusão de poderem incorporar os aspectos desejados do outro, senão pelo que são mas por aquilo que representam: mulheres fálicas, irresistíveis, capazes de seduzir e despertar no outro um desejo conscientemente negado por conta de preconceitos. Ou ainda, o que se sabe de mais comum é que esses homens, na medida em que rejeitam em si alguns aspectos encontrados nelas, passam a querer apagar qualquer rastro deste desejo que lhes provocou e seduziu e assim o fazem, matando literalmente estes corpos.


O Brasil é o país que mais mata travesti no mundo e o que mais consome pornografia LGBT, o que isso implica psicologicamente falando?


Implica em falar a respeito do desejo, do quanto a pulsão sexual mobiliza os seres independente do sexo, gênero ou identificação. Implica em tentar entender que, em dado momento, certas pessoas, ao se perceberem à mercê de tão recalcado desejo, passam a negar e a sentir ódio por aquele outro ser, tão desprezado por elas, que é capaz de despertar as suas mais poderosas fantasias e sensações.

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Psicanálise e Racismo no Brasil – Duas Histórias

Dia 20 de novembro foi feriado da Consciência Negra e, por isso, Ana Carolina Vásárhelyi de Paula Santos, psicanalista, membro do Departamento e integrante da equipe deste Blog, preparou um post para relembrar a história de duas psicanalistas negras importantes – Virginia Leone Bicudo e Neusa Santos Souza – e nos lembrar daqueles que atualmente trabalham com o tema do negro e do racismo. Importante conferir!



Psicanálise e Racismo no Brasil – Duas Histórias

                                                                             Ana Carolina Vásárhelyi de Paula Santos


O dia da consciência negra, celebrado dia 20 de novembro, recoloca fortemente a questão de que se faz necessário lembrarmos da história, além do líder Zumbi dos Palmares, de tantos outros negros que contribuíram para a construção da história do Brasil e que por razões não tão obscuras ficam esquecidos.

Nossa intenção aqui é a de relembrar, simplesmente. Recontar uma história, trazer a experiência vivida por alguns desses personagens, como forma de enfrentamento do racismo. Porque o que não pode ter nome, não pode ser dito. O que fica invisível é eventualmente esquecido, como se não tivesse acontecido. É contra esse esquecimento que nosso texto aponta.

Uma curiosidade que nos ocorre: em grego, a palavra usada para designar o conceito de verdade é alétheia, que significa “não-esquecimento” (a=não; lethe=esquecimento). Com isso podemos dizer que aquilo que é esquecido pode equivaler a algo não verdadeiro. Como, por exemplo, quando Rui Barbosa mandou queimar todos os documentos que comprovavam a  escravatura, em ato de comemoração de dois anos de abolição (13 de maio de 1891). Organizou uma grande fogueira no centro do Rio de Janeiro e todo registro desta parte da história do Brasil foi apagado, como se assim tivesse apagado a história.

Mas pior que dor, é dor sem nome. Aquela da qual ninguém fala. E assim carregamos marcas encravadas na pele, como se elas não existissem, ao modo de nosso racismo à brasileira. Aquele que existe, mas é como se não existisse.

Pois bem, para falarmos de racismo, teremos que falar de história. Em nossa pequena seara da psicanálise, percebemos uma repetição dessa operação de denegação. Por isso queremos lembrar aqui de duas grandes mulheres que contribuíram para a construção da psicanalise nacional, e que são pouco conhecidas pela maioria das pessoas.


Virginia Leone Bicudo (1910-2003)

Socióloga, psicanalista.
Filha de pai negro e mãe branca
Virgínia foi a primeira de muitas coisas:
Primeira mulher a fazer análise no Brasil
Primeira psicanalista não-médica
Pioneira na introdução da psicanálise no Brasil
Uma das primeiras professoras negras. Lecionou na USP, na Santa Casa e na Escola de Sociologia e Política de São Paulo
Foi membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e fundadora da Sociedade de Psicanálise de Brasília.

Virgínia foi muito bem sucedida em sua área. Marcar uma supervisão com ela poderia demorar até quatro anos. Além de psicanalista competente, contribuiu para a divulgação da psicanálise para o público leigo através de um programa no rádio e de uma coluna semanal no jornal.

Mas seu grande mérito foi ser a primeira pessoa a debater o racismo academicamente no Brasil, através de sua dissertação de mestrado, “Estudos de Atitudes de Pretos e Mulatos “ (1945), pela Escola Livre de Sociologia e Política. Primeiro estudo  sobre as relações raciais no Brasil. Foi a primeira pessoa a falar em discriminação racial no Brasil, evidenciando que raça é uma categoria social , não biológica. Denunciou a discriminação e destacou que o silêncio sobre o assunto é um fator impeditivo no desenvolvimento da consciência sobre o racismo.

As questões da discriminação eram comumente atribuídas às classes sociais. Naquela época, mais ainda que hoje, não se falava em preconceito racial. O preconceito era considerado uma questão decorrente das diferenças de classe. Ora, o Brasil era reconhecidamente um país não racista, um paraíso racial. A constatação do preconceito de cor, apontado por Virgínia, foi de grande ousadia na época.


Neusa Santos Souza ( 1958-2008 )

Médica e Psicanalista lacaniana.
Baiana. Negra.
Autora da obra que mais marcou a militância do movimento negro no Brasil, o livro “Tornar-se negro ou as vicissitudes da identidade do negro em ascensão social” (1983).

No livro, a autora mostra como tornar-se negro pode ser doloroso. Aponta para as questões do corpo e para os efeitos do preconceito no corpo negro que acaba se tornando sintoma dessa doença invisível, o racismo. A rejeição vivida e introjetada resulta na baixa auto estima em relação aos próprios traços identitários raciais. Pergunta se seria possível mesmo valorizar o nariz, o cabelo e o tipo de corpo submetido ao imposto ideal branco.

O livro é prefaciado por Jurandir Freire Costa, que escreve:

“Este livro procura romper a precariedade de estudos sobre a vida emocional dos negros. Diante da flácida omissão com que a teoria psicanalítica tem tratado esse assunto, a autora apresenta reflexões profundas e inquietantes sobre o custo emocional da sujeição, da negação da própria cultura e do próprio corpo. O negro que se empenha na conquista de ascensão social paga o preço do massacre de sua identidade, tomando o branco como modelo de identificação.”

Ou seja, o negro deve sofrer até processo de branqueamento. Neusa entrevista diversas pessoas que relatam já terem ouvido de seus pais ou avós o conselho de se casarem com um branco para “melhorar a raça”. Por exemplo tantas mulheres que alisam seus cabelos ou que de outras maneiras se ocupam em apagar seus traços originários. Vemos que a aparência se torna um adversário, e se cria uma relação persecutória com o corpo.

Sem apresentar nenhum precedente de depressão, ou qualquer indício de perturbação de qualquer ordem, num sábado, dia 20 de dezembro de 2008, com cerca de 60 anos, Neusa desistiu de viver e se jogou do alto de um edifício em Laranjeiras no Rio de Janeiro. Deixou num bilhete o pedido de desculpas para as pessoas próximas. Não era casada, não tinha filhos. “Neusa, a suicidada da sociedade” nos ocorre uma paráfrase do título do livro que Artaud dedicou a Van Gogh¹.

No dia 13 de maio de 2018 comemoraremos 130 anos de abolição. Esperamos contribuir para que a reflexão, o diálogo, o respeito e principalmente a escuta transforme de forma concreta a história de tantos anos de humilhações, injustiças e violência contra o povo negro.

Autores que contribuíram  e os que ainda atuam para o enfrentamento do racismo:

Frantz Fanon ( 1925- 1961)
Lélia Gonzalez ( 1935- 1994)
Isildinha Baptista Nogueira
Maria Lucia da Silva
Jose Thiago Reis Filho
Eliane Costa



Para ler mais:

SOUZA, Neusa dos Santos. Tornar-se negro: As Vicissitudes da Identidade do Negro Brasileiro em Ascensão Social. Rio de Janeiro: Graal, 1983.
COSTA, Haroldo. Fala, crioulo: o que é ser negro no Brasil: Record, 2009
FANON, Frantz. Pele negra e Máscaras Brancas: EDUFBA, 2008
ABRÃO, Jorge Luiz Ferreira. Virginia Bicudo, a trajetória de uma psicanalista : Arte e Ciência, 2010
KON, Noemi Moritz (org.). O racismo e o Negro no Brasil: Questões para a Psicanálise: Perspectiva, 2017



Ana Carolina Vásárhelyi de Paula Santos: filósofa, psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientae e da Clínica Pública de Psicanálise Canteiro Aberto Vila Itororó



Notas:
- ¹Nome do livro de Artaud: Van Gogh, o Suicidado da Sociedade
-Imagem de Virginia Leone Bicudo retirada do endereço: http://4.bp.blogspot.com/-4bxWti20XCc/VQS7hABVsBI/AAAAAAAACFU/vStnKR3Wmww/s1600/Virginia.jpg (acesso em 24/11/2017)
- Imagem capa do livro: google


segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Sobre o evento "O Departamento vai ao Cinema: Era o Hotel Cambridge", realizado em 21/10/17, confira hoje o texto de nossa colunista Maria Laurinda Ribeiro de Souza.

Era o Hotel Cambridge – um convite à Ocupação das ruas

Assisti a Era o Hotel Cambridge durante o evento promovido pelo Departamento de Psicanálise, no Espaço Itaú de Cinema, em 21.10.2017. Depois do filme, uma roda de conversa com mediação de Pedro Mascarenhas e Heidi Tabacof.  Além do público, a presença de Eliane Caffé (diretora do longa), Carla Caffé (diretora de arte), Carmen Silva (coordenadora do Movimento Sem Teto do Centro e figura marcante no filme), Julian Fuks (escritor e residente artístico da Ocupação), Soraia Bento (Coletivo escutando a cidade).
Pedro iniciou a conversa perguntando ao público sobre as impressões e ressonâncias provocadas pelo filme. Surgiram respostas, perguntas, comentários, silêncios. As falas apontaram para  a intensidade das cenas, para a diversidade de culturas coabitando o mesmo espaço, para o sentido dessas ocupações, a impossibilidade de fronteiras entre a realidade e a ficção, o lugar da poesia, da literatura... Julian contou um pouco de sua entrada nesse “hotel”, sua implicação com o vivido durante o tempo de convivência e a necessidade de um afastamento para poder escrever. Eliana e Alessandra Sapoznik (Coletivo escutando a cidade) marcaram, ao contrário, a impossibilidade de se afastarem. Um apelo veio em forma de convite à hospitalidade: é preciso que outros se impliquem, se solidarizem com os Movimentos Sociais e possam participar com seus conhecimentos e aptidões.  Fátima Vicente respondeu oferecendo o atendimento para crianças da Ocupação. O próprio evento já era uma resposta solidária do Departamento ao se abrir para outros espaços e convocar-nos para conhecer mais de perto a realidade dessa luta.
Para além da evidência imediata desse apelo – o atendimento à necessidades prementes –,  é sobre outro aspecto que quero demarcá-lo. Ele se liga à fala de Carmen Silva quando conta um pouco de sua história: a chegada à São Paulo, a expectativa de encontrar um lugar onde a vida lhe fosse mais favorável. Sua desilusão e desamparo. Uma narrativa onde se vislumbram as necessidades não atendidas e a solidão numa cidade inóspita e pouco receptiva. Mas há uma virada significativa em sua vida quando ela descobre e passa a fazer parte dos Movimentos que reivindicam moradia. Sua participação no filme, liderando as assembleias e as formas de ocupação, convocando para a conversa com a juíza e criando estratégias de resistência, organizando a “festa” da próxima ocupação, para que o despejo anunciado não os deixe sem teto novamente: “corra, corra, entre em sua casa, a casa é sua”, é a imagem de uma potência reconquistada. Aqui o que me impressiona, mais uma vez, é o valor do coletivo, do comum. E é a isso que o apelo anunciado nos convoca: a que retomemos os coletivos, o trânsito pelos espaços da cidade, a quebra dos isolamentos paranóides, a participação nas causas que reivindicam o bem comum, os direitos humanos fundamentais – saúde, educação, moradia, trabalho, liberdade de expressão.
Assisti ao filme uma segunda vez. De  novo me inquieto com as primeiras imagens: os prédios vazios, abandonados, pichados. Agora, elas estão contaminadas pela lembrança do final do longa – que havia provocado em mim o silêncio traumático – a reação violenta do Batalhão de Choque da Polícia Militar e a semelhança com cenas da rua vividas na época da ditadura civil-militar –, é como se o vazio dessas imagens me remetesse, novamente, ao risco de transitar pela cidade. Mas a narrativa sobre o sentido da Ocupação e as histórias que vão sendo construídas naquele coletivo tão diversificado modificam meu olhar e meus afetos.  Ao final do filme, um outro impacto: presto atenção na passagem dos créditos e me surpreendo: quanta gente participou desta produção! Ele próprio é um coletivo!  E, de fato, é assim que ele foi apresentado logo no início: um filme construído a partir de coletivos: os estudantes de arquitetura da Escola da Cidade, a Frente pela Luta por Moradia, o grupo de refugiados. Eliane afirmou que os não-atores co-escreveram o roteiro e que sem eles o filme não poderia ser feito.
Esses que fazem dos prédios vazios sua casa não o fazem porque são “invasores” ou “vagabundos que não querem trabalhar”. As ocupações não são invasões! São formas de luta, são resistências, potências de vida que não se deixam matar pela perversidade de um sistema que prega o empreendedorismo, que elimina direitos sociais, que propõe reformas trabalhistas e previdenciárias indignas e injustas.
É para essa realidade, escancarada nas ocupações, nos 14 milhões sem trabalho, no “genocídio” de crianças e adolescentes (em sua maioria pobres, pretos e da periferia) que é preciso insistir no olhar.  Quando este se volta para a censura nas exposições artísticas, para a proibição do reconhecimento das diversidades de gênero, para a conquista possível de mais propinas a fim de manter a impunidade pelos crimes cometidos e aprovar medidas que aumentam o desamparo da maior parte da população brasileira, é porque já passamos da hora de OCUPAR as ruas. O silêncio e a não-ação mortificam a alma.

Maria Laurinda Ribeiro de Souza é psicanalista e membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae.



quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Experiência do psicanalista Ricardo Gomides, com o texto "O outro em nós. Analisando o cotidiano através do acompanhamento terapêutico".

Dando continuidade aos textos sobre Acompanhamento Terapêutico, confira agora no blog a experiência do psicanalista Ricardo Gomides, com o texto "O outro em nós. Analisando o cotidiano através do acompanhamento terapêutico".

A imersão na cultura gera efeitos surpreendentes. Com o tempo, podemos ser contagiados por gostos alheios, modos de agir estranhos a nossos hábitos e, não raro, até emitimos juízos com os quais não concordaríamos posteriormente. Os afetos investidos em amigos, colegas de trabalho ou familiares trazem a reboque possibilidades de identificações com outros valores, tornando a vida psíquica um trânsito singular de opiniões e posturas que passamos de um a outro como moeda destinada ao reconhecimento mútuo ou pertencimento grupal. Sem grande crítica, às vezes mantemo-nos na rede de trocas repetindo enunciados que se passam por nossos apenas enquanto os encaminhamos ao outro tal como nos chegou.
Quando os afetos tornam-se agudos e surgem polarizações maciças, penso que tal rede adquire uma viscosidade pregnante, fazendo circular posições que, em tempos brandos, jamais teriam lugar. Acredito que vivemos tempos assim, sem grande afastamento crítico e com certa imaturidade para lidar com a diferença divulgada profusamente nas mídias sociais. É possível aderirmos aos humores extremos levados por laivos identificatórios que marcam nossa permanência grupal por imersão. Se esta permanência é mantida por longo tempo, tal identificação inicialmente fraca pode gerar os efeitos de uma significativa transformação psíquica, tornando a presença do outro um traço de caráter permanente em nós, tal como sugerido por Freud (1923) em O Eu e o Id.  
Ainda que esse trânsito em meio à cultura seja sempre fluido, no mais das vezes não atentamos para os efeitos desta presença sobre nós. O exercício da crítica não é uma prática cotidiana e mesmo no espaço privilegiado da análise, por exemplo, geralmente temos assuntos mais urgentes para tratar do que esta influência. Dores da alma doem demais, urgem demais, redundantes como são.
Penso que um jeito de talvez nos atentarmos para esta presença seja pedir auxílio a um estrangeiro. Alguém de outra localidade, outro tempo, quase alheio ao nosso mundo para que, assim, possamos saber do nós onde não nos sabemos. A semelhança não é gratuita: penso em um analista da cultura, disponível para trabalhar no dia-a-dia. Alguém capaz de escutar o cotidiano com a justa medida de imersão e distância simultâneas.
Como os tempos culturais hoje ressoam a agressividade, incompreensão, intolerância, funcionalidade extrema, preconceito e indiferença, a tarefa é das mais urgentes – tão urgentes quanto tratar daquelas outras dores, aquelas que, por apego à subjetividade, custamos a creditar suas origens também ao mundo que nos cerca. E onde encontrar um analista assim disponível, para nos escutar e curar em ato, na ordem do dia, bem quando a cultura nos tomar e nos fizer outros, alheios à nossa crítica? Como recorrer a esta escuta quando tal imersão fizer de nós algo pior do que conseguimos sozinhos?
Bem, o melhor que encontrei tem nome e às vezes me atende quando dele vou cuidar: o louco. É fazendo acompanhamento terapêutico (AT), esta clínica realizada no cotidiano, que tenho encontrado um analisador dos melhores. Junto aos meus pacientes, trago-os um pouco para cá, retirando-os muitas vezes da distância abissal que se encontram deste nosso mundo. O cárcere silencioso de uma posição de nulidade familiar tem seus efeitos. A história incontável de um filho que nunca nasceu, porque o pai teria ordenado um aborto, reverbera tolhendo os passos, ainda sob a guarda deste mesmo pai. Escutar estas histórias, encontrando no mundo guarida para elas é tarefa de acompanhantes terapêuticos. Estes agentes clínicos que cuidam dando ouvidos e corpo às falas, posto que é em movimento, pela cidade, que criamos saídas para o claustro objetivo-subjetivo. Neste exemplo, o pai, aquele que mora em casa e no delírio, torna-se menor, menos investido, na medida inversa de quanto maior se fizer o mundo compartilhado por acompanhante, paciente e a cidade ao redor.
Acredito que uma das mais valiosas contrapartidas obtidas no AT é ingressarmos em um mundo sob ligeira suspensão enquanto trabalhamos. Não há como ser de outra forma, pois, se histórias de desterro ganham voz e companhia em meio ao social, desprotegidos de qualquer setting, a realidade mesma se alterará à nossa volta, sob o impacto da voz alquebrada que acolhemos. Os pacientes saem de abismos e coabitam este mundo. Eu, sob tal transferência, também sou retirado um pouco desta nossa terra – terra de trilhos, nos quais corremos ágeis, apressados, exaustos e míopes.
Certa vez, a analista de quem tenho falado aqui, fez uma interpretação simples e marcante, como convém às boas. Ela, psicótica como só, discorria sobre a perseguição familiar e as más intenções de seus pais para com ela e o filho não nascido. Assunto que eu escutava na padaria, enquanto almoçávamos no bairro dos Jardins.
Lembro-me bem e todos sabem do que estou falando.  As mesas lotadas, a impaciência no ar, o ambiente repleto de funcionários de escritórios ou lojas, aguardando a chance de usar o tíquete-alimentação antes de voltar ao trabalho. Eu e minha paciente, compartilhando o alheamento da psicose, almoçávamos servidos pelo banquete do delírio. A refeição estava ótima.
Eis que ela resolve cumprimentar o cozinheiro. Algo tão bem feito quanto aquele purê de batatas devia ser reconhecido. Neste ponto começa a inversão. Capturado pela cultura, preso à pressa estampada no rosto das pessoas, ligado ainda à corda do relógio que nos transforma em cucos, não pude compreender a proposta de minha analista. Questionei: “Não, não dá. Aqui o cozinheiro não é o chef, é o cozinheiro mesmo, atrás do fogão, mexendo panelas. Estamos em uma padaria na hora do almoço. Não dá para chamar o cozinheiro”.
Ela, impassível às minhas ligações culturais alienantes, insistiu, dizendo ao garçom o que queria. Achei que nada aconteceria e segui minha refeição, mais atento à sua história do que aos movimentos com os quais ela interpretaria aquele fragmento de cultura.
Passados alguns minutos, chega à mesa o cozinheiro vindo de algum lugar nos fundos. Chega com a típica roupa branca-encardida de trabalho. Retira docilmente a proteção dos cabelos, cruza braços e mãos atrás do corpo, dobrando-se de maneira servil. Assustado, pergunta se o tínhamos chamado e se havia algo errado. Temia uma bronca, certamente.  
Calorosa, minha analista toca no braço dele, fazendo-lhe um carinho enquanto dizia: “Não, meu amor, não tem nada errado. Eu só te chamei para te agradecer. Para dizer que a comida está ótima e que você está cuidando muito bem da gente. Muito obrigada pelo carinho que você colocou aqui, tá? Está uma delícia a sua comida”.
O moço ficou sem palavras. Talvez fosse a primeira vez que o tivessem chamado à mesa, especialmente para um elogio tão sincero e direto. Alguém reconheceu no sabor da comida o carinho de um trabalho. Além disso, devolveu-lhe um traço importante de sua ocupação: ele, na cozinha, cuidava de todos nós ali, que havíamos nos deslocado para receber o alimento que ele havia preparado. Com o choque, o moço não conseguia se mover. Apenas depois dela pegar sua mão e dar aqueles dois tapinhas carinhosos e finais é que ele entendeu que podia voltar à cozinha.
Eu, de minha parte, também me dera conta de quão chocante é alguém sair da lógica impermeável da funcionalidade contínua – esta lógica que faz dos espaços de vida extensões de trabalho e consumo que devem funcionar sem interrupções. A organização dos espaços e das relações é marcada pelo distanciamento operacional: eu entro, consumo, pago, vou embora. Sem perceber, minha fala servia à manutenção deste papel operacional. Do outro lado, quem trabalha estaria ali para servir de modo eficiente. O salão deve girar o mais rápido possível. É assim que se dança em um restaurante no horário de expediente. O carinho, o reconhecimento, o vínculo emocional entre pessoas, por mais fortuito que seja o encontro, não deveria ocorrer.
Fiquei envergonhado com a presença da cultura a me suspender pelos ombros, deixando-me seco como a uma camisa estirada no cabide de uma lavanderia, movendo-me impessoalmente nesta ordem fluida e maquinal, como se estivéssemos todos embalados em plástico.  
Eu, um acompanhante terapêutico já experiente, que sei da lógica manicomial que constrói muros em todos os lugares, segregando e silenciando a diferença; eu, crítico a esse respeito, me vi dissolvido no ambiente, tomado pelo vínculo com uma ordem que ultrapassa meu corpo, habita-me inadvertidamente, fazendo-me estranho a mim.
Agradeci à minha analista por desconsiderar os apelos que fiz em nome da ordem funcional. Agradeci por ela me lembrar a importância de deter o curso veloz do tempo para lançar ao outro a mão larga e quente de um reconhecimento. Vi no espanto daquele moço o inusitado de um acontecimento. Imagino o sorriso em seu rosto em qualquer hora do dia, lembrando-se do afago agradecido de uma pessoa. Fantasio os efeitos que um gesto assim pode ter deixado em seus sonhos. Suspeito que algo desta natureza esteja em falta no curso dos dias atuais, quando nos tornamos impassíveis diante do outro, emitindo juízos que atropelam a cordialidade e nos fazem esquecer a comunidade de que todos fazemos parte.
Urge um analista que nos faça lembrar de duas presenças possíveis em nós: a silenciosa e imperativa ordem funcional que nos torna violentos e indiferentes aos demais; a possibilidade sempre aberta de atentarmos para isso, dando corpo à gentileza de que somos capazes, tornando o trato com o outro matéria de reconhecimento mútuo. Quem sabe assim, possamos dar à vida espaços mais afáveis de convivência.


Ricardo Gomides é psicólogo, psicanalista, acompanhante terapêutico. Doutor em Psicologia e membro-aspirante do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae.




segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Acompanhamento Terapêutico no Envelhecimento: uma clínica política

Nesta semana, o blog publica dois textos sobre o trabalho de Acompanhamento Terapêutico. Confira agora a experiência da psicanalista Camila Morais, com o texto "Acompanhamento Terapêutico no Envelhecimento: Uma Clínica política".




Acompanhamento Terapêutico no Envelhecimento: uma clínica política
                                                                                                                    Camila Morais


O Acompanhamento terapêutico (AT), pratica clínica de origem latino-americana, surgiu no campo da saúde mental a partir da necessidade de produção de novos dispositivos de tratamento visando o enlaçamento da loucura ao contexto social. Esta é uma modalidade de atendimento clínico que ocorre fora do setting tradicional (consultório), tendo a rua, a casa do acompanhado e outros tantos espaços públicos e privados que fazem parte do cotidiano, como erritórios para suas intervenções.
No Brasil, depois do golpe militar de 1964, vivemos sob a ditadura por cerca de 20 anos. Este acontecimento rompeu com um processo de abertura que vinha ocorrendo no campo da saúde mental, quando as comunidades terapêuticas surgiram no país. O fechamento destes espaços fez com que restasse aos profissionais da área, uma única alternativa em momentos de intensificação do sofrimento dos pacientes em crise: a internação nos hospitais psiquiátricos.
No final da década de 70, ocorreu uma forte mobilização dos profissionais da saúde mental e dos familiares de pacientes com transtornos mentais, culminando no movimento da luta antimanicomial, marcado pela defesa dos direitos humanos e do resgate da cidadania. Ligado a esta mobilização, surgiu o movimento de Reforma Psiquiátrica que denunciava os manicômios como instituições de violência e propunha novas formas de tratamento em uma rede de serviços de base territorial e comunitária. O AT surgiu neste contexto colocando a loucura na cidade e subvertendo a lógica asilar do isolamento.
Com cerca de 40 anos de existência, esta prática ampliou seu alcance para outros campos além da saúde mental, entre eles, o campo do envelhecimento. Loucura e velhice tem percursos que se articulam historicamente pela via da exclusão, da marginalização e do silenciamento. Segregação que toma forma, em muitos períodos, por meio da institucionalização em um modelo asilar. Durante os últimos dois séculos, o envelhecimento foi um tema marginal no campo das questões sociais e da saúde mental. O advento da modernidade, consolidado com a revolução industrial e o desenvolvimento do capitalismo, tem como paradigma o valor calcado na produção e geração de riqueza. O velho como aquele que não tem mais capacidade produtiva acaba marginalizado, torna-se objeto da caridade social e sua imagem fica atrelada à ideia de doença, pobreza e ócio.
Estamos passando por um período de transição alavancada pela questão demográfica que encara o envelhecimento como uma preocupação social. A velhice ganha visibilidade, ainda que como um problema a ser resolvido. Surgem outras imagens para a velhice; ideais tais como o da velhice ativa que produzem outras exclusões, mas abrem a possibilidade de um lugar em contraposição ao não lugar anterior.
Em nosso país, as lutas de diversos movimentos sociais obtiveram importantes conquistas, como o sancionamento de políticas públicas direcionadas aos idosos que proporcionam a criação de diferentes dispositivos institucionais, não somente asilares, entre outros direitos fundamentais. O idoso segue resgatando o lugar de cidadão, de ator social em um campo onde ainda estão presentes muitas lógicas de exclusão produzidas historicamente no bojo de um conjunto de valores culturais que atravessam o campo subjetivo de forma singular.
O Acompanhamento Terapêutico no envelhecimento passou a constituir um modo de atuação com contornos mais claros a partir da associação de interessados neste campo e na clínica do envelhecimento em meados de 2006. Desde então, o Núcleo de AT no Envelhecimento da Ger-Ações: Pesquisas e Ações em Gerontologia vem se dedicando a pensar as particularidades da prática do acompanhante terapêutico (at) neste campo, contribuindo com produção teórica, eventos científicos, encontros de transmissão de saberes, espaço de trocas clínicas, entre outros. Neste texto falo em nome deste grupo e do trabalho coletivo que temos construído ao longo destes anos.
Em nossa cultura, a violência da exclusão se apresenta de diversas maneiras no cotidiano: nas relações de cuidado, quando o idoso se submete ao outro temendo o abandono; quando um equipamento de saúde trata o que seria um direito como se fosse um privilégio e discrimina; quando na mesa de jantar da família o idoso não encontra interlocutores, entre tantas outras situações. O acompanhante terapêutico testemunha essas variadas formas de violência da exclusão contra o idoso, as quais, muitas vezes, se manifestam de forma silenciosa.
No campo do AT no envelhecimento, a ética que norteia a nossa clínica está intimamente entrelaçada com a ética da Psicanálise. Nos dispomos a escutar o sujeito na radicalidade da experiência de estar junto, a qual literalmente se dá no lado a lado, possibilitando ao acompanhado a apropriação de si e de sua história. Assim como a Psicanálise, o Acompanhamento Terapêutico surge como uma prática subversiva no campo da saúde mental. Tanto no contexto da loucura, quanto no do envelhecimento, o AT se mostra como um dispositivo que vai contra o instituído e que busca subverter as lógicas de exclusão produzidas e, por vezes, arraigadas no social, por meio de valores culturais que atravessam o campo subjetivo.
Uma dimensão ética fundamental desta clínica política no campo do envelhecimento, é a busca por abrir espaço de existência plena ao sujeito, através da escuta de sua história de vida, desejos, anseios e necessidades. Esta escuta, aliada a uma potência criativa e flexível, abre espaço para ressignificações e possibilita ao acompanhado novos modos de relação. 
Justamente por estes dois aspectos, o de uma prática subversiva e o de um dispositivo que vai contra o instituído, que podemos considerar que o AT carrega a importante dimensão de uma clínica política. O acompanhante terapêutico é a figura articuladora desta relação, no exercício daquilo que é uma de suas marcas, o posicionar-se no entre, ocupando territórios de fronteiras.
Por fim, gostaria de ressaltar que é fundamental que tenhamos um posicionamento crítico a respeito da velhice e do processo de envelhecimento, a partir de uma compreensão sobre como as situações sociais, políticas e econômicas reverberam na produção da subjetividade. Podemos fazer uma clínica de acordo com os princípios do poder dominante ou uma clínica cujo projeto é a sustentação de novas formas de existência e de subjetivação. Nos dias atuais, com a volta de tantos discursos conservadores, higienistas e excludentes, podemos considerar que a clínica que vai contra o instituído, assim como a clínica do AT, se coloca como uma prática de resistência.



Camila Morais: Psicanalista, Terapeuta Ocupacional e Acompanhante Terapêutica. Mestranda em Psicologia Clínica pelo IPUSP. Coordenadora do Curso de Formação em Acompanhamento Terapêutico Cont.AT.o. Membro da Ger-Ações, na qual faz parte do Núcleo de AT e da coordenação do Curso de Psicogerontologia.