Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae

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O Blog acredita que a troca de conhecimentos e experiências entre pessoas de um coletivo pode contribuir para seu crescimento e desenvolvimento. Esperamos colaborar com esta troca, assim como revelar as particularidades e as riquezas das pessoas que compõe o Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientae. Fazem parte da Equipe do Blog: Adriana Dias, Bianca Giusti, Fernanda Borges, Gisela Haddad e Peu Robles,

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Homenagem a Victor Guerra

À convite do Blog do Departamento Eloisa T. de Lacerda faz uma linda homenagem ao psicanalista uruguaio Victor Guerra, que nos deixou em junho de 2017.

Homenagem a Victor Guerra

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada,
aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

                                                        Carlos Drummond de Andrade



No dia 27 de junho de 2017, uma terça-feira, o psicanalista uruguaio Victor Guerra nos deixou! E é assim, com essa falta ainda se fazendo ausência, que falo, em primeiro lugar, do sofrimento da amiga! Sofre também a psicanalista. Sofre duplamente sua companheira, a psicanalista Carla  Metzner. E muitos amigos uruguaios, franceses e brasileiros, com essa perda tão prematura, marcada ainda no reconhecimento da importante contribuição de Victor Guerra à psicanálise.

Quando estive em seu consultório (junto a uma equipe interdisciplinar que tive a oportunidade de conhecer ainda no Brasil), pude perceber a enorme quantidade de livros de arte que habitavam seu espaço clínico, tão grande quanto a quantidade de livros mais diretamente ligados à psicanálise. Digo isso porque a arte permeia todo o seu trabalho, os textos literários não são algo a “analisar”, eles dialogam com a clínica, com a teoria, escutando-se uns nos outros e dando lugar a uma troca real de saberes. Por isso a referência ao nosso poeta maior, Carlos Drummond de Andrade, na epígrafe desta homenagem que lhe faço agora.

O sofrimento está em mim, uma psicanalista que muitas vezes escutava nas palavras de Victor Guerra a teoria que subjaz à prática clínica a que me dedico. Falo de uma interlocução que se manteve ao longo de dez anos, e que tanto enriqueceu o trabalho que continua, tanto na clínica quanto no trabalho psíquico de cada um de nós, em nosso luto. Fica-nos o consolo da  possibilidade de poder falar dele e de seu legado tão contemporâneo homenageando-o através de alguns poetas e escritores.

Com sua criatividade nos manejos da clínica, com sua consistência teórica e sua enorme generosidade, Victor se manteve sempre disponível, comigo e com toda a nossa equipe de parcerias, para trocas sobre esses fazeres que se reúnem sob o nome de Clínica da Constituição do Laço. É com essa capacidade de “dis-pôr-se à escuta que acolhe” o que exponho como uma compreensão de que o psicanalista tem que poder se permitir tocar no corpo do bebê, não “só” com a intenção de organizá-lo em sua funcionalidade nascente, como também com a intenção de – ao posturá-lo frente a frente com o corpo e o rosto da psicanalista – emprestar à mãe o quantum de infiltração libidinal que movimenta a cena clínica nesse atendimento conjunto, quando esta não pode ainda pulsionalizar seu filho/a, nesse tempo de extrema urgência do psiquismo nascente do bebê.

Enquanto ouvia com atenção nossos relatos transdisciplinares - de toda a equipe que podia participar, em tempo real - desse trabalho simultâneo com corpo e psiquismo, Victor nomeou co-construção esse trabalho. Uma construção com, uma construção conjunta, a partir das interações – mesmo que ainda muito precoces – do bebê com seu cuidador primeiro, geralmente sua mãe. Esses pais, avós ou cuidadores de abrigo que, por motivos os mais diversos, buscam ajuda, escuta e atenção a esses cuidados na clínica.

Victor dizia que um trabalho sobre as terapias psicanalíticas com os bebês, as crianças muito pequenas e seus pais, vai muito além daquilo que eu chamava de recursos possíveis, uma vez que recurso pode ser entendido somente como um amparo, um refúgio, e mesmo uma receita, uma saída. Por isso, em nossas trocas, precisamos explicitar a trajetória de nosso pensamento clínico, os relatos das formas de condução, e nos dispormos também a escutá-lo: Eló, voce mostra con muita calidade e cuidado o processo analitico possibel con uma crianza e uma mae con muitas dificultades. Gosto muito de la forma como voce comenzo a captar los “pequenos pedazos de unidades revestidas de sentido” , el amanecer del lenguaje en relacion al desejo, como una forma de nacimento a la vida psíquica.  Sim, Victor! É mais que um “recurso”, é um “trabalho analítico”, e é também ele que, com a arte, pode assimilar sua falta em ausência.

Victor nos falava sempre, e com ênfase, da importância que devemos dar à sensorialidade do bebê e da criança pequena nas nossas cenas clínicas conjuntas com eles e seus pais. Nesse discernimento, o silêncio fazia muito sentido para ele, e isso era compartilhado por muitos de nós. Era também assim, com muita atenção, que falava de densos e importantes conceitos da psicanálise, deixando-se atravessar pela arte dos poetas, escritores, cineastas e equipes de curta metragem e permitindo-nos captar o “sublime” do humano, mesmo que em sua feição mais “lamentável”, que tão bem ele nos oferecia nas palavras do poeta Octávio Paz.

Fez o filme “Indicadores de Intersubjetividad”: 1ª parte.  0-12 m: “Del encuentro de miradas al placer de jugar juntos” e 2ª parte. 6-12 m  “Del desplazamiento en el espacio al placer de jugar juntos”,  descortinou conceitos como “infiltração libidinal”, “objeto tutor” – como se construye y se sostiene desde la intersubjetividad y el papel de los objetos tutores (que es una idea personal) como sosten de la continuidad y no como defensa de la angustia de separacion – dentre alguns outros e com eles nos possibilitou algumas “leituras da clínica” quando podemos nos deixar tomar por uma atenção flutuante perceptiva (como dizem Cesar e Sarah Botella) para adentrarmos os primórdios da vida psíquica em tempo real dos pais com seu bebê. E era precisamente sua sensibilidade e abertura ao novo que dava lugar e tempo a discussões clínicas, quando ele ou um de nós trazia um fragmento clínico em nossas rodas de conversa.

Idealizador da Declaração de Cartagena, já não pôde comparecer ao Congresso da FEPAL para apresentá-la, preocupado que estava com a “situação atual” de tantas crianças rotuladas de Transtorno do Espectro Autista. Sua tese de doutorado: O Ritmo e os Indicadores da Intersubjetividade e o proceso de Subjetivação do Bebê sobre o ritmo e a lei materna, embora ainda não publicada - assim como sua extensa obra - já nos veio sendo apresentada em muitos de seus textos generosamente compartilhados conosco mesmo antes de suas publicações.

Victor esteve sempre entre nós nos Encontros Nacionais e Internacionais da ABEBÊ – Associação Brasileira de Estudos sobre o Bebê, e foi assim que o conheci. Ele já “andava” lá por Porto Alegre junto com alguns dos membros fundadores da ABEBÊ como Regina Orth de Aragão e Salvador Célia. Também tem um longo trabalho relacionado à primeira infância desenvolvido no espaço da Creche, de sustentação aos cuidadores e atendimento de pais e crianças. Agora, após ter nos deixado, ainda continua entre nós. Penso que irá nos fazer lembrar de poetas ou de filmes quando pensarmos em algum conceito metapsicológico ao nos depararmos com nossas situações clínicas de cada dia…

                                                                         Sou homem: duro pouco
                                                                         e é enorme a noite.
                                                                        Mas olho para cima:
                                                                        as estrelas escrevem.
                                                                       Sem entender compreendo:
                                                                       Também sou escritura
                                                                       e neste mesmo instante
                                                                      alguém me soletra.
                                                                     Irmandade, Octávio Paz

Victor Guerra – psicólogo e psicanalista, membro da A.P.U  (Associação psicanalítica do Uruguai), membro e correspondente da ABEBÊ  (Associação Brasileira de Estudos sobre o Bebê).

Eloisa T. de Lacerda é fonoaudióloga e psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise e do Departamento Psicanálise com Crianças do Sedes Sapientiae, membro fundador e da atual diretoria da ABEBÊ  (Associação Brasileira de Estudos sobre o Bebê).

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Evento sobre Psicanálise Contemporânea - "A Geração Pós-Lacan e a Clínica do Negativo"

Realizado pelo Departamento de Psicanálise e organizado por Christiana Freire, Gisele Senne de Moraes e Natalia Gola, aconteceu no último dia 19 de agosto no Sedes Sapientiae, o evento sobre Psicanálise Contemporânea.



À convite da organização, o Blog do Departamento produziu um texto em que comenta de forma resumida a fala dos palestrantes.



Em sua primeira parte, o evento contou com os psicanalistas Fernando Urribarri e Renato Mezan  falando sobre o “A Geração pós- Lacan”.

Com o intuito de historiar a psicanálise em geral e a psicanálise francesa em particular, o psicanalista argentino Fernando Urribarri iniciou sua fala comentando que nós, psicanalistas sul americanos, estaríamos em uma posição privilegiada ao reconhecer a unidade do movimento pós-lacaniano e seus muitos e brilhantes psicanalistas que contribuíram de forma importante para a psicanálise contemporânea. Um convite a nos apropriarmos deste legado, longe das paixões alienantes ou das militâncias. Cita a importância do Sedes Sapintiae como sede de uma psicanálise freudiana e pluralista.
Na história da psicanálise contemporânea – particularmente nos anos sessenta - seria preciso reconhecer o valor de Lacan, o mais brilhante, criativo e sedutor dos psicanalistas de sua época (e seu projeto de retorno a Freud), e por isso uma referência para se analisar as contribuições de seus conterrâneos ainda que fosse “com Lacan”, “contra Lacan” ou “além de Lacan”. Conrad Stein, Andre Green, Gui Rosolato, Serge Leclair, Jean Laplanche, Jean-Bertrand Pontalis, Joyce MacDougall, Didier Anzier, Piera Aulagnier, Cornelius Castoriades, Julia Kristeva são alguns deste “dream team” francês, que após terem tido a oportunidade de conhecer e debater as ideias de Lacan criam a partir dos anos setenta, uma consistente, fecunda e criativa rede de ex-lacanianos em que espaços novos como as revistas de psicanálise ou debates entre autores permitem a circulação de seus textos e ideias.

Ainda que estas revistas e trocas se extingam nos anos noventa, Urribarri nos lembra de que este legado produziu uma possibilidade de se pensar a psicanálise contemporânea e cabe às gerações seguintes decantar esta nova matriz, levando em conta o contexto histórico e seus novos paradigmas e o fato de que a verdade última é da clínica psicanalítica, quem decide sobre a funcionalidade dos conceitos.

Como exímio historiador da psicanálise, Renato Mezan recupera o prefácio que escreveu para o livro de Entrevistas da Percurso (800 páginas, 35 entrevistas) em que um time de importantes psicanalistas, muitos deles franceses, revelam a multiplicidade de linhas teóricas, criações e rupturas dos institutos de formação, e de certa forma historiam os principais fatos do movimento psicanalítico, suas crises e disputas, mas principalmente o intercâmbio entre as heranças dos grandes mestres a partir de Freud, em um diálogo fecundo entre seus discípulos, dissidentes e divulgadores, traçando um panorama fascinante da psicanálise nos últimos sessenta anos.
Cita que para organizar os autores, foi utilizado um critério por grupos de pertença: anos 50, 60, e 70, mas lembra do fato de que esta fértil produção da psicanálise, que também produziu uma comunidade de referências, transferências, rivalidades e solidariedades, precisava ser pensada levando em conta o período do pós-guerra. Recupera os anos 20-30 e autores como Fenichel, Reich, Karen Horn, Sachs, Melanie Klein que falaram em nome próprio e vaticina sobre a possibilidade de haver uma espiral, um ciclo em que na história da psicanálise acontece uma ruptura a cada 30 anos, nascendo daí uma nova e produtiva leva de autores.



Na segunda parte do evento, Fernando Urribari e Decio Gurfunkel dividiram a mesa para falar sobre “A clínica do negativo”.

Urribarri afirmou que a psicanálise contemporânea se caracteriza por um novo objeto de pesquisa (o par analítico), pela complexidade do trabalho psíquico do analista que passa a ser marcado pela heterogeneidade, e pela assunção na clínica de um novo objetivo de tratamento, o de transformar o manifesto em pré-consciente.
Se na psicanálise freudiana o paciente paradigmático é o neurótico, na psicanálise pós-freudiana o psicótico, na psicanálise contemporânea são os pacientes difíceis, o que leva as pesquisas em psicanálise se voltar para os limites do analisável. A questão se o paciente é ou não analisável é, de certo modo, reformulada, e a analisabilidade passa a ser uma questão singular de cada par analítico – analista/analisando. O objeto de pesquisa psicanalítica passa a ser a terceiridade, o campo que se constitui na análise entre o paciente e o analista, ou, se preferirmos, o espaço potencial criado pela dupla analítica a partir do enquadre analítico no qual os movimentos de simbolização se tornam possíveis.

A atenção se volta para o enquadre analítico cuja função básica passa a ser a de representação e o objetivo da análise passa a ser acompanhar o movimento de representação sob as condições deste enquadre. O enquadre, portanto, passa a ser aquilo que garante a simbolização.

São os pacientes como o antianalisando de Joyce Macdougall ou aqueles que sofrem de angústias da série em branco (psicose branca, luto em branco) descritos por Green que produzem essas mudanças no campo da pesquisa psicanalítica e na técnica.

Do ponto de vista técnico, a escuta e o trabalho psíquico do analista se tornam bem mais complexos e o trabalho representativo se dará a partir do eixo da transferência e da contratransferência. A escuta se dá de forma heterogênea (como veremos abaixo) e a contratransferência se coloca como um novo território, o território imaginativo, que exige um complexo trabalho de perlaboração do analista que poderá levar à intervenção analítica. Um trabalho apoiado na ideia de enquadre interno do analista e que envolve um processo terciário do analista. De maneira mais sistemática, podemos dizer que as mudanças na técnica se organizam em torno de 5 eixos:

    1) Escutar e entender o paciente (escutar o discurso manifesto em si, o processo secundário). Urribari brinca: se o paciente diz que ele estacionou o carro na porta a primeira coisa que temos que fazer é escutar e entender que ele estacionou o carro na porta!

    2) Imaginarizar: movimento de ligação no qual o analista imaginariza o que está acontecendo a partir do discurso do paciente.
    
     3) Associar: corresponde ao movimento de desligamento do processo secundário do paciente no qual o analista associa e escuta seu próprio movimento de associação

   4) Arquivar: o analista funciona como arquivista do pré-consciente da história transferencial

     5) Intervir: o analista propõe com muita prudência o que talvez seja o trabalho com a contratransferência.

Finalmente, essas mudanças redefinem o objetivo da clínica psicanalítica contemporânea, que passa a ser não mais o de tornar consciente o inconsciente, mas sim fazer dizível e pensável aquilo que está manifesto ou, em outras palavras, permitir a construção do pré-consciente do paciente.

Décio Gurfinkel trouxe para discussão o tema do negativo na clínica, articulando as questões do sono branco e as depressões.

Retomando as pesquisas de relações de objeto através da história da psicanálise, ressalta o foco dado pela psicanálise contemporânea ao elo de ligação entre self e objeto para além da discussão sobre o problema do self e do objeto. Sendo assim, as questões de ligação e desligamento passam a interessar. Esse tipo de pesquisa fertiliza o pensamento clínico de Green, que vai colocar o trabalho de simbolização em primeiro plano, definindo-o como um trabalho resultante de um movimento dinâmico de disjunção e conjunção de representações.

Podemos aproximar o trabalho do negativo dos movimentos disjuntivos, de separação ou diferenciação que se apresentam de três maneiras: um negativo universal, como no recalque primário, uma negativação desse momento inicial, próprio da concepção do aparelho psíquico; o negativo patológico onde não há possibilidade de conjunção, ou de síntese, como na dúvida da neurose obsessiva; uma negatividade mais radical dos casos limite, onde há uma impossibilidade de trabalho na reunião dos elementos cindidos.

A simbolização envolve um movimento dialético de:
1 - afirmação,
2 - negação,
3 - síntese, criação do terceiro.

Esse modelo de simbolização tem a ver com o processo de criação de objetos ou de construção, nessa síntese que serve de reunião dos elementos divididos. O trabalho de simbolização é apresentado como um movimento dinâmico de divisão de seus elementos originais, e sua posterior conjunção ou ligação, criando um terceiro elemento.

Décio propõe pensar as articulações entre sono branco (sono sem sonhos) e as depressões. Para isso recoloca as questões próprias do sono/sonho, como numa reciclagem da teoria dos sonhos na clínica e acrescenta que talvez na atualidade não seja mais possível falarmos de uma teoria do sonho sem uma teoria do sono.

Embora na Interpretação dos sonhos Freud fale do desejo de dormir, da luta da vida psíquica que, por um lado busca se manifestar e de outro busca o adormecimento, produzindo a dinâmica do sono/sonho ou a luta entre o apagamento e a busca de emergência, o sono é um tema B. Mas no sono, o eu da vigília deve ser colocado de fora para que outra forma de expressão psíquica possa acontecer, experiência que é fundamental para a criatividade humana.

O colapso do sonhar seria uma negatividade radical, quando a falta de simbolização toma conta da cena.

Décio pergunta: Existem pessoas que não sonham? Para Freud, a ausência de sonho é efeito do recalcamento. Mas será sempre assim?

Aponta para a ligação entre a falta de sonho e adoecimento psíquico, na esteira de Marty que levanta a ligação entre a falta de sono e adoecimento somático. Este, por sua vez, levanta a hipótese de uma falha do funcionamento onírico como uma falha do funcionamento pré-consciente. Fala das produções de sonhos operatórios, sonhos crus, e como estes nos informam sobre algo que se passa na clínica. Não são sonhos de desejo, como aparecem nas clínicas das neuroses.

Nesses casos, estimular, recuperar, reconstituir a experiência onírica faz parte do trabalho clínico. Propõe que o sono/sonho não deva ser olhado apenas pelo seu conteúdo, e sim como experiência de uma função psíquica.


Equipe do Blog: Adriana Elizabeth Dias, Ana Carolina Varsarhelyi de Paula Santos, Fernanda Borges, Gisela Haddad.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Crônica de Daniela Danesi

Hoje é dia de crônica no Blog! Que o texto de nossa colunista Daniela Danesi, nascido de sua experiência clínica, política e teórica seja uma boa companhia a todos. Uma crônica que ilustra o que os movimentos de abertura às singularidades, às minorias e às diferenças têm produzido, para o bem e para o mal.

Esta pequena crônica nasceu de várias ressonâncias:
- das trocas fecundas realizadas no Grupo de trabalho e pesquisa do Departamento de Psicanálise “Generidades: Identidades, Gêneros e Desejo”.
- do assombro ao acompanhar tanto os movimentos de abertura na sociedade brasileira- com as políticas afirmativas que buscam dar voz às minorias - quanto à imensa violência com a qual uma parcela da sociedade responde buscando um retrocesso.
- da construção conjunta dos processos de simbolização que nascem do encontro analítico e que permitem, a cada um de nós, continuar criando o seu jeito possível de existir.

O Arco-íris de luto
Pensa no fim-de-semana. Lembra-se do evento grandioso, agora já consagrado como uma das maiores Paradas LGBTQ do mundo.
Como todo ano estava lá, mas desta vez havia escolhido saboreá-la, inicialmente, do alto. Queria ter uma visão de cima, queria olhar a extensão multicolor das pessoas que, em clima de festa, desfilavam pela avenida.
De repente, emocionou-se... Finalmente entendeu aquilo que sempre criticara: chamar esse evento de “dia do orgulho LGBTQ”. Sempre havia pensado: “Por que orgulho? Apenas somos o que somos, o que cada um deseja ser. Simples assim!”.
Lágrimas correm pelo seu rosto. Entende que o orgulho que está sentindo agora é a contrapartida das inúmeras cenas de humilhação que vivera na infância e adolescência, ao ouvir frases de escárnio ou reprovação, ao ver refletido no espelho do olhar do outro a sua suposta inadequação.
As sensações de alegria retornam...
Lembra-se de ter cantado e dançado no meio da multidão, enroladx na bandeira do arco-íris, juntando-se a tantxs que não querem ser classificadxs, definidxs, enquadradxs em um código do DSM.
Apenas cantaram e dançaram para que naquele dia de alegria, tantos outros pudessem se juntar e para que todo dia mais e mais ninguém precise se esconder.
Relembra, com orgulho, das conversas escutadas em que soube que várias empresas, naquele mesmo dia, haviam lançado um programa de incentivo para que a população trans pudesse ter acesso a postos de trabalho no mundo corporativo. Um pensamento irônico se impõe: “claro, nenhuma é brasileira!”.
De repente a angústia toma conta...as lágrimas mudam de tom, já não carregam a vivacidade do amarelo, laranja, vermelho, verde...mas o preto circunspecto da dor e do luto.
A notícia, recém-chegada na mensagem de whatsapp, de que o irmão de uma amiga havia sido encontrado morto, com sinais de espancamento paralisa a sua alegria.
Relembra que era um irmão adotivo, acolhido na adolescência pela família da amiga após ter sido expulso de casa ao se assumir homossexual. Tantos anos depois um novo e definitivo linchamento!
Pensa, com emoção, nesses tantos Brasiis que habitamos e se pergunta quando a bandeira do arco-íris poderá tremular, por aqui, sem uma faixa preta a atravessá-la?


Daniela Danesi é psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, professora do curso Clínica Psicanalítica Conflito e Sintoma e membro do Grupo de trabalho e pesquisa “Generidades: Identidades, Gêneros e Desejo”.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Resenha do Livro - Sociedade, Cultura e Psicanálise de Renato Mezan

A convite do Blog, Renato Mezan -  membro do Departamento de Psicanálise do Sedes Sapientiae – faz um pequeno resumo de seu último livro Sociedade, Cultura , Psicanálise que será lançado no dia 30 de agosto a partir das 19 horas na Livraria da Vila – Fradique



Sociedade, Cultura, Psicanálise.

“Este livro é dedicado àqueles dos meus colegas que não acreditam na possibilidade de uma Psicanálise aplicada”: assim André Green inicia La Déliaison (O Desligamento), coletânea na qual enfeixa algumas de suas mais agudas leituras de textos literários.

O desprezo por esta prática centenária – inaugurada por Freud em pessoa, que lhe atribuía importância suficiente para reservar a escritos desse tipo a revista Imago – origina-se numa série de suposições a meu ver errôneas. A primeira é que os conceitos e esquemas interpretativos da Psicanálise se prestariam mal à elucidação de fenômenos de ordem diversa daquela para a qual foram criados, a saber os que têm lugar no trabalho clínico stricto sensu. Por isso – segundo motivo – tal uso abusivo das noções analíticas nada acrescentaria à compreensão desses fenômenos, limitando-se a encontrar neles os mesmos elementos que teriam informado a leitura (por exemplo, “descobrindo” que tal personagem tem um Édipo mal resolvido, ou que um crime hediondo resulta de impulsos sádicos não sublimados).

Sofrendo de “tautologite” insanável quanto ao conteúdo, no quesito “instrumentos de leitura” a contribuição da Psicanálise aplicada para o desenvolvimento da própria disciplina seria também igual a zero: nada de proveitoso para a compreensão – e muito menos para a ampliação – do seu próprio campo resultaria de tão inútil empreitada. Em suma: cada macaco no seu galho, e vaias para o que se aventurasse na famosa loja de louças.

O problema com estas três afirmações é que não correspondem à verdade, e é o que procuram demonstrar os textos reunidos no presente volume.  Quer se trate de questões da vida social (Parte I), de obras da cultura (Parte II), de assuntos mais tipicamente psicanalíticos (Parte III), ou da leitura de escritos de colegas (Parte IV), procuram respeitar uma série de princípios e de métodos que visam a tornar convincentes os estudos de Psicanálise Aplicada. Eles começam por contextualizar o tema, continuam com o estudo de algumas características que o individualizam entre outros da mesma classe, e só então se aventuram a sugerir hipóteses de cunho psicanalítico.

A contextualização depende da natureza do assunto: no mais das vezes, é histórica (a epopéia do Gueto de Varsóvia, os artigos sobre a tolerância, sobre o amor e o erotismo, o ambiente em que convivi com Scarlett Marton no Departamento de Filosofia da USP, entre outros), mas pode ser igualmente conceitual (a noção de “romântico”, o que torna “policial” uma novela, etc.), estética (o preto e branco num filme de Visconti, a descrição da inveja por Clarice Lispector), ou mesmo propriamente psicanalítica (o que entendemos por “sexualidade” ou “prazer”, exemplos clínicos e referências teóricas nos livros comentados). Uma vez situado o tema nesse gradiente, vou em busca do que o singulariza: os elementos formais a meu ver relevantes são então destacados, e a partir deles vão surgindo as indagações para as quais busco resposta.

Neste percurso, sirvo-me de uma ideia que atravessa todo o volume, e apesar da variedade de tópicos lhe confere certa unidade: há no ser humano aspectos que podemos considerar universais, ou seja, independentes de época e lugar, e outros que dependem de circunstâncias históricas, sociais e culturais. Fazem parte do primeiro grupo as pulsões elementares (sexualidade e agressividade), as angústias fundamentais (de morte, invasão, despedaçamento, perseguição, dissolução, castração...), e o elenco de defesas contra umas e outras; pertencem ao segundo elementos ligados ao ego, ao superego e aos ideais, que o indivíduo absorve por identificação a modelos vigentes no meio em que lhe toca viver (normas, costumes, crenças, valores éticos e estéticos, e assim por diante).

Exemplos dessa forma de proceder encontram-se entre outros nos capítulos sobre o livro de David Levisky Um Monge no Divã, no qual ele se interroga sobre a pertinência de estender o conceito de adolescência para além da sociedade moderna, no que discute os impasses do multiculturalismo (“Nasrah e seus irmãos”), ou no que aborda o prazer que sentimos ao ler romances de mistério: na verdade, é ela que permite o trânsito entre a singularidade das produções humanas examinadas no livro e o que a Psicanálise tem a dizer sobre o funcionamento psíquico da nossa espécie.

A ponte entre cada tema em particular e o arsenal teórico herdado de Freud e dos seus sucessores reside no tipo de problema que aquele permite formular, o que por sua vez convoca para sua solução determinados conceitos analíticos. Assim, o incesto entre irmãos sugerido em Vaghe Stelle dell’Orsa... exige abordar questões diferentes daquelas para as quais apontam o fundamentalismo religioso ou o papel da imagem em certas formas do erotismo.

Talvez o leitor se pergunte por que quis incluir neste volume doze textos sobre obras escritas por outros autores: resenhas e prefácios, como se sabe, não são considerados pelas agências federais como produções válidas para avaliar o trabalho de professores universitários. Segundo elas, não estariam no mesmo plano que os que tratam de temas mais diretamente ligados à sua área do saber, e no fundo não pertenceriam à espécie scriptum scientificum. Como se pode imaginar, essa posição me parece equivocada.

A ciência – qualquer ciência, mas sobretudo as humanas – é uma atividade social, e não somente o fruto dos estudos de um indivíduo isolado. Toda investigação se apóia no que outros produziram e produzem, dialoga com o já estabelecido, às vezes o questiona, outras o aprofunda, ou abre novas perspectivas. Conhecer – e dar a conhecer – o trabalho dos colegas é assim parte integrante da atividade intelectual, e exige tanto esforço quanto pesquisar qualquer outro assunto; talvez até mais, porque para dizer algo pertinente nesse campo é necessário entrar no “mundo” de outra pessoa, procurar compreender o que quis realizar, e avaliar até que ponto o conseguiu.

Por isso, toda leitura é também um diálogo com o autor do texto, e por isso emprego ambos os termos como título da Parte IV do presente livro. Além disso, como os autores aqui comentados pertencem ao mesmo território – o da Psicanálise brasileira atual – o estudo dos seus escritos, se tomado em conjunto, revela algo do que se passa nele. Com efeito, diversos tópicos são focalizados em mais de um dos livros que escolhi discutir, seja na Parte IV, seja nos demais textos: são questões que vêm se impondo nos debates profissionais, e que naturalmente suscitam a atenção de muitos colegas.

Renato Mezan é psicanalista, doutor em filosofia, e professor titular na pós-graduação em psicologia clínica na PUC-SP. É autor entre outros livros, de Freud, pensador da cultura (2006), Interfaces da psicanálise (2002) e Tempo de muda (1998).                                                                

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Lançamento do livro: “O racismo e o negro: questões para a psicanálise”



O Blog do Departamento tem o prazer de informar sobre o evento de lançamento do livro “O racismo e o negro: questões para a psicanálise” que se realizará no dia 16 de setembro de 2017, às 10:00 horas, no Auditório do Instituto Sedes Sapientiae, sito à rua Ministro Godoi, 1484 SP e contará com a participação de Eliane Silva Costa, professora da Universidade Federal de Roraima e militante do movimento negro, e Caterina Koltai, psicanalista e professora da PUC-SP.

Muitos dos textos contidos no livro fizeram parte de um importante  evento sobre a questão racial realizado em 2012, em três etapas, pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae

Como parte do debate desta questão importante e atual, o Blog publica a seguir uma entrevista de Maria Lucia da Silva, uma das organizadoras do livro e participante do evento, realizada em 2010 para a o livro Mulheres Fazendo Pazes (Associação Mulheres pela Paz) uma das fundadoras do Instituto AMMA – Psique e Negritude.

As caras da violência                                                                  
Maria Lúcia da Silva, a Lucinha, não transita pelos movimentos feminista e negro em brancas nuvens. Muito ao contrário. Ela é o tipo de pessoa que faz e reflete. Reflete e faz. Psicoterapeuta, especialista em mediação e trabalhos em grupos, com recortes de raça e gênero. É uma das fundadoras do Instituto AMMA – Psique e Negritude, ONG que trabalha o racismo sob a lupa psicossocial. A ênfase desse trabalho são os efeitos psicossociais do racismo. As passagens em itálico são da Lucinha.

Nos últimos anos, essa filha de Jordelina, Antônio e Oxóssi tem coordenado, Brasil adentro, oficinas que tratam de um tema nevrálgico e fundamental – a violência das instituições. O bom de conversar com quem trilha um caminho aplicado é que aprendemos a ver com mais profundidade e aumentamos nossa capacidade de fazer associações. Lucinha Silva, depois de anos de estudos e de práticas, fala com acurada propriedade acerca da violência dos outros e da nossa: O que está em jogo na violência é a dominação. Pessoas ou instituições lançam mão da violência, como ferramenta, para subordinar, enquadrar e dominar aqueles e aquelas que fogem do figurino. Ou seja, os diferentes. Dependendo da sociedade e do contexto, o diferente pode ser o negro, a mulher, o velho, o imigrante. Ou um conjunto de segmentos.

Ela dá exemplos: Na violência de gênero, o dominador determina qual o lugar – que ele decidiu – que a mulher deve permanecer. Cabe a ela cuidar mais dos filhos do que ele. Cabe a ela ganhar menos dinheiro do que ele. Na violência racial, o branco insiste em apontar onde o negro deve estar. Tudo bem se o negro for o porteiro, ou a empregada doméstica. Mas o negro ser o diretor da empresa ou a patroa nem pensar.

O raciocínio se correlata a como os adultos tentam dominar as crianças, prendendo-as no que eles consideram como universo infantil. Também quando os mais jovens se relacionam com os velhos, tratando-os como superados ou mesmo inúteis. Mas Lucinha alerta: Há velhos que veem os jovens como imaturos ou irresponsáveis. O importante é refletirmos nos porquês das relações – de gênero, de raça, de geração, de classe – descambarem para situações e percepções violentas.

Ela avisa que não adianta procurar um único culpado pela violência: Não existe um vilão, é mais uma legião de fatores. Entre eles, há sim um dragão. Ele não solta fogo pelas ventas e atende pelo nome de imaginário social. O imaginário social tem força concreta sobre as nossas ações e reações. Ele traz no seu DNA uma incrível capacidade de reproduzir estereótipos. Entre os estereótipos mais comuns: as inferioridades dos negros e das mulheres quando comparados aos homens brancos. O imaginário social não é algo construído lá atrás e estático. Ele é renovado cotidianamente pela linguagem, pela cultura da rua, pelos conteúdos da mídia.

Ela tem razão. Nós somos o que escolhemos ser, mas também o que decidiram por nós. O indivíduo é configurado pela comunidade; a comunidade é configurada pelos indivíduos. Um alimenta o outro: Se a gente quiser de fato transformar o que existe, precisamos retrabalhar os conteúdos. Olhar bem de perto palavras e imagens, sem restrição de área. Os profissionais necessitam retrabalhar os conteúdos da publicidade, do jornalismo, das telenovelas, dos discursos políticos. A linguagem não apenas representa, ela engendra nossa visão de mundo. Mundo que não é estanque. É sistêmico. De pouco adianta uma professora falar da contribuição da população negra em sala de aula, se os livros didáticos, usados pela turma, tratarem as pessoas negras como secundárias.

Ela lembra que com as mulheres acontece algo parecido: Do mesmo jeito, não adianta alardear a presença das mulheres em todos os espaços públicos, se as publicações comerciais, os programas de TV continuam retratando-as como coadjuvantes das ações dos homens. Elas aparecem como a secretária, a assessora, a aeromoça, a torcedora, a grande amiga.

O que a psicóloga Lucinha tem certeza é do poder do inconsciente sobre nossa ações diárias: Muitas vezes, empregamos a violência do preconceito e da discriminação de forma não racional. Pergunte a um racista por que ele é racista. Ele ou negará, ou não explicará. O mesmo fenômeno se dará com os machistas, homofóbicos etc. O desprezo pelo diferente nasce de uma profunda falta de autoconhecimento. Podemos acrescentar que também apoia-se na ignorância e no medo.

Nascida na paulista Mirassol (467 km da capital), Lucinha veio com três anos para São Paulo. Na capital paulista traçou sua vida. No ano de 1988, ela e um grupo de amigas e ativistas fundaram o Geledés – Instituto da Mulher Negra. ONG que é referência para o movimento negro. Depois de muito aprendizado e algumas discordâncias, Lucinha deixou o Geledés, mas não o ativismo: A gente deixa uma embarcação, mas não desiste da viagem. Fui atrás de uma compreensão sociopsicológica das discriminações e de seus efeitos sobre os discriminados.

Nesse caminho, coordenou, ao lado de Jussara Dias, várias oficinas e publicações de relevância. Entre elas, Psique e Negritude – Os Efeitos Psicossociais do Racismo, editada pela Imprensa Oficial, em 2008. Sua pesquisa nunca foi só teórica. Por ser uma mulher negra, vivencia na pele escura os dardos do preconceito: Faz uns cinco anos, morava em um prédio no centro de São Paulo. Havia uma vizinha branca que se negava a entrar no elevador quando me via dentro dele. Acho que ela preferia subir de escada.

Continuando com o tema da violência, Lucinha atenta que ela não é exclusivamente física: A violência tem dimensões psicológica, econômica, política, intelectual. Sempre mantendo no seu cerne o objetivo de eliminar o outro, seja simbólica ou fisicamente.

Dar tiro e pancada é violência. Desqualificar e excluir também. Ela dá um exemplo que passa despercebido para muita gente boa, a supervalorização do diploma universitário sobre os saberes informais. No Brasil, país de doutores, quem tem diploma acaba desqualificando quem não o tem: Muitas vezes, uma negra velha de 72 anos dá de 10 a 0 em um universitário, ela alfineta – e completa: Sabedoria de vida é currículo que todos têm, mas, na ditadura das titulações, muitos saberes são deixados à margem. Ora, toda a sociedade perde com isso.

Assim como fica atrás dos panos a violência entre iguais. A ativista do movimento negro e feminista de quatro costados tem uma visão crítica acerca do que sucede, com frequência, nas ONGs, nos partidos, nos grupos: A violência é um estado fluido. Cada pessoa carrega a sua verdade, que tem a ver com suas escolhas políticas e com suas crenças. Dentro de grupos, mesmo com objetivos comuns, alguém pode discordar. Aí é um deus nos acuda. De repente, aquele ou aquela que discordou será desautorizado e fica pronto para ser excluído.

A saída, segundo ela, é tentar desconstruir as relações violentas. Para isso, ajuda compreender como se dá a violência institucional – essa exercida pelas instituições. O Estado é violento, porque existe para cuidar de todos, mas atende de forma desigual aos segmentos sociais: Na prática, sabemos que existe uma justiça para os pobres e outra para os ricos. O acesso aos bens comuns não é igual para todos etc.

Mas é importante ressaltar que tudo começa na família, e não poderia ser diferente. A família é o lugar no qual experimentamos as primeiras experiências, entre elas, a violência: Como um espaço institucional, a família espelha o que o país e a cultura estão gerindo. Enredada no mundo, a instituição família ressente-se da violência externa e, ao mesmo tempo, provoca violência interna. Tudo isso por meio das imagens e conceitos que as gerações vão interiorizando.

Lucinha reflete, dá exemplos: É na família que aprendemos que a mulher tem que se sentar com as pernas fechadas. Aprendemos e ensinamos que as meninas devem cuidar da casa, ser cordatas e harmônicas. Independentemente se terão uma profissão, o lar é responsabilidade delas. Em contrapartida, os meninos aprendem a ser homens. Ser homem significa, entre outros atributos, expressar sua agressividade. Sua vontade.
O imbróglio fermenta quando lembramos que a agressividade é constituinte do humano. Ela está presente em homens e mulheres. Mas as meninas são ensinadas a reprimi-la, e os meninos a expressá-la: Mulheres devem ser boazinhas. Já os homens, depende da situação. O aprendido na família continuará vida afora. Não é exagero dizer que somos, também, o que as instituições fizeram com a gente.

A escola é outro espaço fundamental para nossa formação de violentos: Certamente, não deveria ser assim. A escola, por definição, deveria ser o lugar para a criança se socializar e se desenvolver. Porém, acaba sendo um espaço de violência, na medida em que está dividido entre homens e mulheres, negros e brancos, adultos e crianças.

Lucinha enfatiza: O problema não está na diversidade. O problema está na desigualdade, no não diálogo entre as diferenças. É na escola que a criança negra se defronta com lições de desvalorização racial. Via de regra, aprenderá que vale menos do que os colegas brancos. Isso pode se dar de maneira sutil. A desatenção de uma professora, a falta de estímulo de um professor, o comportamento preconceituoso de um colega, as entrelinhas dos livros didáticos etc. Temos que recordar que crianças são anteninhas. E também que: Os professores são aqueles que possibilitam que a criança projete imagens positivas ou negativas acerca de si mesma. Ora, nem sempre os professores estão sensibilizados ou preparados para lidar com as tensões de uma sociedade dividida, na qual uns se sentem superiores a outros.

Outra instituição violenta, na qual passamos boa parte de nossas vidas, é o trabalho. Mesmo com o inegável avanço das mulheres no mercado, mesmo com sua expressiva presença nos espaços públicos, elas ganham menos do que os homens e são preteridas no topo das hierarquias: Situação similar ocorre com a população negra brasileira. Negros e mulheres são as maiores vítimas da violência no trabalho, traduzida em salários risíveis, menos oportunidades, assédios, descontinuidades de carreiras.

Ela tem algumas ideias de como começar a transformar essa situação. Esse é o tema de suas oficinas de sensibilização para detecção, prevenção e questionamento da violência institucional –  esta que nasce na família, se desenvolve na escola e amadurece no trabalho, sob o olhar permissível do Estado: O grande obstáculo para mudar essa situação está na dificuldade das pessoas admitirem que muitas de suas ações e reações vêm do inconsciente. Também há uma tremenda resistência a admitir os preconceitos. É por isso que ganhamos a fama de ser um país racista sem racistas. Uma sociedade machista sem misóginos, e assim vamos.

Maria Lúcia da Silva dá um recado certeiro: Sempre há soluções. Pois nenhum problema nasce irresoluto. O caminho é longo e árduo. Ele depende do esforço individual e do comprometimento da sociedade. A resolução está nas mãos de cada um e de todos nós. É tudo ao mesmo tempo. Todos estamos em processo de crescimento contínuo. Ninguém está pronto. Mudanças de mentalidade e de comportamento exigem tempo. O importante é começar de alguma maneira.

Para Lucinha, todos esses pensamentos se ligam ao conceito de paz. Ela tem horror à associação entre paz e pombinhas brancas, entre paz e silêncio. Bem ao contrário, para ela, paz é agitação, é caminho: Fico muito preocupada quando falam em tolerância. Tolerar significa aturar, suportar. Ou seja, a tolerância está a um passo da violência. É como se vivesse no limite. Muito mais apropriado é trabalharmos com a palavra respeito. Eu não preciso gostar do diferente, mas tenho que respeitar sua existência. Melhor dito, tenho que respeitar seus direitos que, aliás, devem ser iguais aos meus. Respeitar a diversidade e suas expressões é o grande desafio para os indivíduos e as sociedades no século 21.


Por Fernanda Pompeu

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Psicodrama Público do Centro Cultural São Paulo

Você já ouviu falar  do Psicodrama Público do Centro Cultural São Paulo?
O Blog do Departamento convidou o psicodramatista, psicanalista e membro do Departamento de Psicanálise Pedro Mascarenhas - um dos coordenadores deste Psicodrama Público- para nos contar um pouco desta história.
Confira a seguir:



Para escrever sobre os Psicodramas Públicos no Centro Cultural São Paulo (CCSP), irei de início, compartilhar algumas perguntas recorrentes acumuladas no percurso destes quatorze anos, entre tentativas de respostas e formulações de novas perguntas:

1- O que significa fazer psicodrama gratuito em um espaço cultural público municipal? Há uma especificidade?
2- O que se entende por espaço cultural público?
3- Em que consiste um trabalho voltado para a cidadania?
4- Entre o psicodramático e o sóciodramático, qual o melhor enquadre para este trabalho? Poderíamos chamar de psico-sociodramático?
5- É melhor trabalharmos com temas predefinidos ou emergentes?
6- Como caracterizar a subjetividade que atravessa este trabalho?
7- Quem são os frequentadores habituais das sessões? Quais são suas motivações? É possível afirmar que os que frequentam assiduamente realizam um processo?
8- O que pode ser considerado psicoterápico nesse trabalho?
9- Como articular o público e o privado?

Sem pretensão de esgotar tais perguntas, tentarei fazer um percurso que passe por algumas destas interrogações.

O psicodrama público do CCSP realiza-se sempre aos sábados, desde agosto de 2003, como um desdobramento do Psicodrama da Ética, realizado no dia 21 de Março de 2001 e coordenado pela psicodramatista Marisa Greeb, ocasião em que foram realizados simultaneamente vários Psicodramas Públicos na cidade de São Paulo.

A partir daí, a convite da Sociedade Amigos do CCSP, Antônio Carlos Cesarino reuniu uma equipe para organizar os Psicodramas Públicos semanalmente.

Na verdade a história do Psicodrama Público é antiga e em seus primórdios era mesmo público, realizado em praças com crianças nos jardins de Augarte entre 1908 e 1911, com prostitutas entre 1913 e 1914 e com refugiados de guerra tiroleses no campo de Mittendorf em 1917, todos em Viena, cerca de cem anos atrás. J.L.Moreno, que nesta época era um estudante ligado aos sionistas vienenses, jamais rompeu com os ideais de sua juventude ao longo de sua vida e obra. Entre apostolado e idealismo, fazia tentativas de vida heroica e marcava sua utopia. Desenvolveu o Teatro da Espontaneidade e, em suas duas obras mais conhecidas - As palavras do pai (1920) e O Teatro da espontaneidade (1923) - registrou seus pensamentos desta época e alguns dos conceitos que posteriormente seriam sistematizados. Para Moreno “o experimento sociométrico acabaria por tornar-se total, não apenas em expansão e extensão, mas também em intensidade, marcando, assim, o início da sociometria política”, o que passou a ser conhecido como a utopia moreniana.

Tal utopia sempre esteve presente em nosso Psicodrama Público e nossa relação com ela é de militância quase religiosa, de paixão, podendo tanto nos inspirar, quanto nos cegar tornando-se um fundamentalismo. Como diferenciar? O trabalho com um grupo aberto contínuo e heterogêneo nos coloca frente a frente com pessoas e sofrimentos diversos. Nosso desafio é abrir um espaço de escuta e criação coletiva de projetos dramáticos singulares, independente de qualquer leitura psicopatológica. Na fala dos participantes, "venho aqui porque o psicodrama do Centro Cultural é como um buraco no muro de Berlim; é poder passar pelo buraco no muro”; “vir ao CCSP é um enorme alívio porque é o único lugar onde podemos tratar questões sem ter um rótulo de doente". No entanto, este trabalho inspirado na utopia moreniana, precisa se desdobrar numa política com P maiúsculo, caso contrário seguimos sendo um barco de motor potente, mas sem direção, consistência e consequências. Pensar sobre uma Política que poderia nos ajudar a seguir a utopia como inspiração, além de uma gestão deste espaço é uma questão controversa, como qualquer Política, mas necessária e obrigatória.

O psicodrama migrou dos psicodramas públicos das ruas para o delimitado espaço dos consultórios, salas de aula e de treinamento atuais. Um movimento de sobrevivência, necessário para o seu desenvolvimento, mas ao preço de diminuir seu impacto revolucionário. Tornou-se mais uma forma de psicoterapia, treinamento ou dispositivo grupal. Em seu texto "Jogo do Esconderijo” (1976) Betty Milan já formulava uma interpretação sobre a evolução da utopia e o processo de "privatização" do psicodrama.
Atualmente há uma ideia prevalente de que tudo precisa ser privatizado, saúde, educação, serviços, etc. sendo privado considerado mais eficiente e o público sujeito a corrupção. Estaria o Estado e a sociedade falidos e sem possibilidade de criação de espaços públicos para o exercício da cidadania? Sabemos o quão complexa é esta questão, atravessada pela ideologia de um mercado neoliberal com seus tentáculos em todas as áreas da vida, inclusive neste espaço do Psicodrama, o que nos exige reflexões e reposicionamentos permanentes.

Para Cesarino o mote inicial do Psicodrama Público seria caminhar na direção da compreensão do que seria cidadania, sem se esquecer de que ela pode ser limitada (ou até descartada) em função da organização da sociedade liberal (ou capitalista). Ou seja, sem nos esquecer de que as relações de mercado neste momento histórico são colocadas acima da cidadania.  O adjetivo público dado ao psicodrama por Moreno denota uma característica de grupo aberto não processual, não numerável, em que se trabalham temas de interesse público. Aqui o público é inseparável do psicodrama. Mas também podemos pensar o público como uma característica dos contextos grupal e social, pelo fato deste psicodrama se realizar numa instituição pública, ser gratuito e necessitar de uma série de entendimentos com a instituição. Neste caso seria um dos tipos de psicodrama. Como nomear os outros tipos? Psicodrama privado? 

Na verdade esta pergunta é para provocar um estranhamento e um convite ao debate. Os saberes estão sempre tendo que se haver com a sua privatização. O que se entende por público?

Embora pareça uma questão básica com respostas óbvias, o significado de público pode ser múltiplo e variável, de acordo com a época cultural e a necessidade de expressão.

Os urbanistas se interessam muito pelo assunto e caracterizam o espaço público de maneira bastante variada: espaço de visibilidade pública; espaço de uso comum e posse coletiva pertencente ao poder público; espaço da possibilidade da ação política; lugar de representação e de expressão coletiva da sociedade. Destas caracterizações gostaria de focar no espaço público como condição da cidade democrática e lugar de intercâmbio de bens, de ideias, de afetos, de fantasias, de projetos, de sonhos. A produção deste espaço de intercâmbio é coletiva e ambígua, feita a partir de disputas, conflitos e articulações com movimentos de privatizações, cheias de idas e vindas. Um espaço conflituoso que nos coloca frente à questão de sua gestão participativa e de sua avaliação.

No espaço Público, assim caracterizado, o encontro com a alteridade deveria ser uma de suas características, talvez a central, a nossa possibilidade de outramento, nas palavras de Marisa Greeb. Para Cesarino o espaço público não é só um espaço de passagem, ele nos pertence e pode ser um espaço de encontro e convivência.

Como avaliamos o espaço do Psicodrama Público no CCSP?
O CCSP é um centro cultural que abriga um Psicodrama Público, ou seja, um espaço de cultura que abre uma possibilidade de construir uma compreensão do sofrimento humano.

Todo dispositivo cultural público tem como função acolher e fomentar  um espaço de resistência. Trata-se de um lugar público onde, além de se oferecer convivência, a vida deve ser potencializada numa vivência estética e transformadora. 

O CCSP é um espaço em que as pessoas se sentem à vontade e que permite abrigar diversas formas de expressão cultural contemporâneas. Sua biblioteca é a mais frequentada dos serviços públicos municipais. O público tanto do CCSP quanto do psicodrama é variável e abarca desde moradores da periferia de São Paulo, sem tetos, jovens artistas, grupos com algum tipo de handcap, pacientes de um hospital psiquiátrico próximo, pessoas que transitam pelo local. A estes se juntam, no caso do psicodrama, aos estudantes de psicologia, de psicodrama, sociologia, etc...

A dimensão pública deixa sua marca, seja na construção coletiva e inclusiva para o sofrimento nas diversas situações humanas da vida social e cultural, seja pela possibilidade de não reduzir o sofrimento humano aos códigos de diagnósticos ou aos saberes da ciência médica, psicológica, pedagógica, psicoterápica ou psicanalítica, que podem ser muito úteis, mas não cobrem a amplitude e a diversidade do humano ou como a sociedade se relaciona com o humano. 

O Psicodrama Público, sem ser uma psicoterapia no senso estrito, constrói um dispositivo que permite abordar e dar visibilidade aos sofrimentos humanos através de uma escuta polifônica e transversal. Uma abordagem baseada na construção coletiva e no intercâmbio que acolhe e inclui. Por ser uma prática que produz efeitos transformadores diversos nas pessoas, poder-se-ia dizer que se constitui em uma clínica, embora diferenciada, que se opõe de maneira frontal ao espaço clínico dominado pela lógica manicomial. E isso não acontece por ser um trabalho extramuros do manicômio, nem por atender pessoas egressas destes serviços, embora elas possam frequentar, já que é um espaço aberto. Mas por se utilizar de uma lógica oposta em sua episteme, método e prática, em que não isola ou segrega as pessoas em sofrimento e não se detém no olhar patologizante da experiência humana. E, embora não pertença a uma rede como os serviços públicos de saúde mental, pode-se dizer que faz um trabalho antimanicomial.  A utopia é moreniana, mas a ética e a Política é antimanicomial.
Há treze anos, no início do trabalho de Psicodrama Público no CCSP, a diversidade de direções que eram apresentadas era seu traço marcante; cada diretor exibia suas singularidades diretivas. Hoje esta diversidade permanece, mas aos poucos, questões formuladas pelos usuários e pelos diretores permitiram a construção de um espaço mais democrático e mais Público, no seu sentido amplo, como já abordamos. Assim estamos, em meio a este processo, às vezes ambíguo e nem sempre progressivo. Acolhermos a participação dos usuários na gestão deste processo é, sem dúvida, um desafio bastante pertinente aos tempos atuais. Uma gestão e avaliação participativa dos conflitos inerentes a este trabalho pelos próprios usuários juntos com os diretores talvez seja outro horizonte possível.

O Psicodrama Público recupera a concepção, entre a palavra psicológica, íntima e doméstica - oikos -, drama do eu-tu, e a palavra política, pública e coletiva - polis -, lugar da nossa tragédia.  Foi através da tragédia, no teatro, que, na antiguidade, os gregos articulavam a passagem do mito ao político.
Penso o Psicodrama Público como um dispositivo transformador. A palavra “dispositivo” se origina do grego "oikonomia", gestão do oikos, ou gestão da casa, assim como estamos gestando a nossa casa / grupo / sociedade. Agamben, acrescentando ao pensamento de Foucault novas concepções propõe que dispositivo seja qualquer coisa que tenha a capacidade de capturar, orientar, determinar, interceptar, modelar, controlar e assegurar os gestos, as condutas, as opiniões e os discursos dos seres humanos. O dispositivo atua no processo de subjetivação. Uso o termo dispositivo na direção proposta por Agamben e, mais especificamente, no sentido que Ana Maria Fernández o emprega, referindo-se a artifícios tecnológicos desenhados por nós nas intervenções institucionais e ou comunitárias... pensados como máquinas, que cria condições de possibilidade, que provoca ou põem em visibilidade e eventualmente em condições de enunciabilidade latências grupais, institucionais e ou comunitárias.

A subjetividade contemporânea chama a atenção para o processo de transformação do cidadão em consumidor.

Ter consciência sobre ser um cidadão dentro de um território nacional seria o objetivo a ser alcançado na modernidade industrializada. Na sociedade globalizada, sem fronteiras nacionais, dominada pelo desenvolvimento do capital internacional, o objetivo passa a ser a formação de consumidores cativos. Consumidor seria a posição determinante que trama a natureza do ser humano de nossa época.

Na sociedade de consumo o novo é melhor porque é novo e vivemos  paradoxalmente, sendo obrigados a ser novo e criativo a todo instante. Tudo se espera do objeto a ser consumido e nada do sujeito, transformado que está, nesta sociedade de consumo e espetáculo, a ser somente objeto de consumo ou consumidor. Não existem modificações do objeto pelo sujeito e vice-versa.

Os estados nacionais engendraram práticas cívicas e a consciência do cidadão. O mundo globalizado, supra nacional, engendrou práticas de consumo e de formação de imagem. Não basta consumir tem que parecer que consumiu para um outro que também consome. O consumo requer um espectador também consumidor que testemunhe o Reality show do consumo.

No Psicodrama Público do Centro Cultural uma de nossas questões tem sido a de tentar situar este trabalho não como mais um produto a ser consumido.

Uma questão me chamou a atenção em uma das avaliações realizadas com o grupo de participantes do psicodrama. Ao serem interrogados sobre suas preferências, tomando a distinção entre psicodrama e sociodrama, afirmaram a importância de sua participação efetiva no processo de trabalho, de não se sentirem ausentes ou meros espectadores no próprio processo de realização do trabalho, fosse ele psicodrama ou sociodrama.
Parece que aqui há uma confirmação de que o trabalho público valoriza o processo de fazer junto, deflacionando os consumidores.Um processo de co-existência, co-experiência e co-criação.(Moreno) Estar junto neste processo e poder criar coletivamente alternativas, seja para questões individuais ou vividas como problemas coletivos, criar um lugar, um território. Deixar de ser consumidor, objeto, anônimo. Transformar não-lugares desterritorializados em lugares próprios e singulares de criação.
Em várias ocasiões, tanto como diretor como membro da plateia me senti imerso numa atmosfera mágica e onírica junto ao grupo, sonhando junto. Esta seria para mim uma das características básicas do terapêutico, ou seja, atravessar e se deixar atravessar pelo sonho do outro, criar junto, condições de sonho onde ele não existe. Em outra linguagem, criar trama psíquica, ou o próprio psiquismo.

Ainda na diferenciação entre o público e o privado penso que o sonho é ao mesmo tempo o que há de mais privado e público. Sonhar junto, e depois contá-lo num grupo passa pela própria dobra entre o psico e o sócio.

Pedro Mascarenhas é psiquiatra, psicodramatista pela SOPSP e psicanalista. É membro do Departamento de Psicanálise do Sedes Sapientiae.

Referências bibliográficas: