Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae

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São Paulo, SP, Brazil
O Blog acredita que a troca de conhecimentos e experiências entre pessoas de um coletivo pode contribuir para seu crescimento e desenvolvimento. Esperamos colaborar com esta troca, assim como revelar as particularidades e as riquezas das pessoas que compõe o Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientae. Fazem parte da Equipe do Blog: Gisela Haddad, Fernanda Borges, Iandara Uchôa, Peu Robles, Adriana Dias e Luiza Sigulem

domingo, 1 de janeiro de 2017

O texto mais lido de 2016 no nosso blog: Pais para que? de Vera Iaconelli



PAIS PRA QUE? 

O termo “pais” encerra uma ambiguidade em português, podendo se referir tanto aos homens na função parental, quanto ao casal parental. Neste sentido, a pergunta do título, visa os dois sentidos, mãe/pai e pais, uma vez que um reflete diretamente no outro. 
Desde o século XV, com os problemas sociais decorrentes do descaso generalizado a que estavam submetidos bebês e crianças, que se busca uma forma de se dar conta desta população. Não havendo contracepção eficaz, o aborto colocava em risco, muito mais do que hoje, a vida da mulher e obviamente as gravidezes não respondiam necessariamente ao desejo dos pais. A massa de bebês e crianças, mortas, abandonadas e entregues aos cuidados de mães mercenárias vai se tornando um problema social que aflige a todos e onera o estado. Saídas como criá-los para se tornarem militares ou ocuparem as colônias vão esbarrando na necessidade de que os cuidados iniciais sejam suficientes para que estas crianças cheguem a idade adulta minimamente saudáveis.  Mas como sabemos, os cuidados que demandam bebês e crianças até chegaram a adquirir alguma autonomia são de tal magnitude que logo ficou claro quão oneroso seria para o estado se incumbir de tal tarefa. Feitas as contas, percebe-se que arregimentar a mulher nesta tarefa a partir do apelo da amamentação, quem melhor para cuidar do bebê do que aquele capaz de alimentá-la naturalmente?, é a solução com melhor relação custo benefícioi. A partir daí um alonga campanha encampada por cientistas, artistas e religiosos e que demoraria séculos para surtir seus efeitos de adesão das mulheres vai provando por “a+b que a mulher é a cuidadora insubstituível do bebê e da criança. Dentre suas incumbências estão a saúde física, psíquica, religiosa, intelectual e moral de cada criança. A cada uma destas responsabilidades impostas corresponde um profissional obsequioso de orientá-la e avaliá-la em seu fazer junto a criança (médico, psicólogo, padre, professor...). A contrapartida desta incumbência é um certo reconhecimento social nesta função. Uma mãe dedicada é uma boa mulher, piedosa, psiquicamente sã e moralmente louvável. O pai é o provedor e aquele que deixa espaço na agenda para que ela seja mais mãe do que mulher. Deixa tanto espaço que por vezes prefere buscar os préstimos de outras mulheres no que tange à sexualidade, que passa a estar maculada pelo imperativo reprodutor quanto se trata da esposa. 
Pano rápido e nos vemos no século XXI, época em que a amamentação não pode ser diretamente associada à sobrevivência dos bebês, a contracepção teve grandes avanços e o provedor se divide igualmente entre homens e mulheres. Caberia perguntar quem se incumbe do bebê hoje? Ainda, exclusivamente as mulheres. E quando não, trata-se do pai-arremedo, aquele que quando é bom pai é “quase” uma mãe, ou um “pãe”. 
A psicanálise também não deixa de ler a ausência da mãe como um prejuízo incontornável para o bebê e a ausência do pai como um clássico “declínio do patriarcado”. Saudosismos seculares à parte, cabe perguntar afinal, “pais pra que?”  
A constituição do sujeito implica que o recém-nascido receba do outro um desejo não anônimo para “chamar de seu”, que seja alvo de imensa dedicação e investimento narcísico, vulgarmente conhecido por amor; que herde um lugar no registro simbólico a partir de sua nomeação e que receba incansáveis cuidados e proteção ao longo de muitos anos. Tarefa incansável e árdua que implica em um entorno que sustente quem a realiza. O mesmo entorno que nos séculos precedentes vem cobrando as mulheres de realizá-la por sua conta e risco, usando o famoso “toma que o filho é seu”, e que nossa época passa a questionar. Se as condições de criação de sujeitos implicam em: desejo não anônimo, dedicação, amor, lugar simbólico, nomeação, cuidados e proteção, porque seria restrita às mulheres?  
Afinal, não é para isso que servem os pais?  
E ao Estado, que não se furta a fazer ingerências sobre o corpo feminino, arbitrando sobre contracepção, aborto e parto, batendo na tecla no feto-cidadão, também não caberia dar verdadeira consequência a esta posição assumindo integralmente os cidadãos nascidos sem estatus de filho que as gravidezes indesejadas impõem aos pais, mas acima de tudo à mulher? 
Muitas são as questões que se abrem em nossa época a partir das novas configurações parentais. A psicanálise não pode se furtar a enfrentá-las de forma aberta e reflexiva, assumindo sua vocação de estar “a altura de seu tempo”, como nos dizia Lacan, inspirado na direção ética proposta por Freud.  



[1] Para mais informações sobre este capítulo da história dos cuidados com a prole humana ocidental recomenda-se os já clássicos: 
ARIÈS, P. História social da criança e da família. 2. ed. Rio de Janeiro: LTC, 2006.
BADINTER, E. Um amor conquistado: o mito do amor maternoRio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.
DONZELOT, J. A polícia das famílias. 2. ed. Rio de Janeiro: Graal, 1986. 




Vera Iaconelli é mestre e doutora em psicologia pela Universidade de São Paulo. Coordenadora do Instituto Gerar de Psicologia Perinatal, onde realiza curso de formação, desenvolve pesquisa em psicologia perinatal e coordena a clínica social para gestantes e mães de bebês. membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae. Atua como psicanalista em clínica particular.

sábado, 17 de dezembro de 2016

A Clínica do Sedes Sapientiae existe há 68 anos. Saiba um pouco sobre este excelente trabalho de equipe no texto de Cláudia Monti

Clínica Psicológica do Instituto Sedes Sapientiae
Uma parte de sua história


Na recepção a novos pacientes, em um grupo composto por pais e mães de 7 crianças, 5 trazem como motivo de sua vinda o fato de que seus filhos não estão correspondendo às expectativas da instituição escolar que freqüentam: seja em relação à aprendizagem formal, que não vem ocorrendo no momento e da forma esperados, seja em relação ao modo de estar no espaço escolar. Em geral, a fala que se repete é a de que “não param quietos, não se concentram, não atendem aos pedidos que lhes são feitos. Só querem brincar”. Muitas destas crianças, aos 6 ou 7 anos de idade, já chegam à Clínica com diagnósticos prévios fechados e medicadas.


O modo como escutamos e conduzimos esses primeiros encontros revela nosso compromisso ético-político: além da história singular de cada um, nos propomos pensar o sujeito criança inserido e afetado por seu contexto sócio cultural, incluindo na compreensão e manejo clínicos as relações entre as diversas instituições que compõem a trama da constituição subjetiva, ainda em curso no período da infância. Dessa forma, pais, família mais extensa, escola, cidade e cultura hegemônica que dita expectativas e modos de ser são incluídos em nossa escuta.


Já de início o dispositivo sustenta outro de nossos referenciais: a aposta na potência dos atendimentos grupais e seu manejo, que, transversalizando os saberes, contribui para implicar aquele que nos procura com um pedido de ajuda.


Apesar de concebida atualmente como sujeito de direitos, a criança tem espaço cada vez mais reduzido na atual trama sócio cultural. Como considerar o não saber de si, a incompletude constitutiva nesse contexto de exigência de resultados e de medicalização da infância e da vida? Essas são algumas das questões que nos fazemos ao elaborar um projeto terapêutico de atenção construído para cada paciente da Clínica.


O prosseguimento do trabalho já iniciado no Grupo de Recepção pode se dar nos Grupos Terapêuticos, nos Atendimentos Familiares ou Individuais conduzidos pelos Terapeutas Contratados; pelos Terapeutas Voluntários dos 11 Projetos que se articulam em torno de questões específicas ou pelos Aprimorandos provenientes dos vários cursos do Instituto e alocados em uma das 8 Equipes Clínicas*. Há também atendimentos realizados pelos chamados Voluntários, que já finalizaram o período de 2 anos de aprimoramento e permanecem na Clínica realizando atendimentos individuais e grupais e um Cadastro de Terapeutas que compõem a rede externa de atenção e que conhecem o modo de funcionamento da Clínica. Estes recebem pacientes que finalizaram o percurso na Clínica Institucional.


A discussão clínica e o acompanhamento dos atendimentos ocorre no diálogo entre prática e teoria, o que possibilita um conhecimento vivo, criativo, que reconhece e considera a assimetria e diversidade do percurso formativo de cada um. As Equipes Clínicas são também local de referência da história clínica e do percurso institucional de cada paciente atendido na Clínica.


Os princípios e diretrizes que nos servem de bússola, mas que se aprimoram e se modificam na constante avaliação de nosso fazer clínico que não separa gestão de atenção, estão descritos no Projeto Clínico- Ético-Político. Concretização das proposições gestadas em um vibrante movimento que ocorreu no Instituto Sedes nos anos 1990, quando a então Diretoria convocou os vários Cursos e Departamentos do Instituto a repensar a estrutura da Clínica. Movimento coletivo que, ao aliar as contribuições dos vários profissionais que trabalharam na Clínica às proposições dos diversos grupos de trabalho, resultou na elaboração de projetos que trouxeram significativas mudanças no modo de funcionamento desta e, após um período de funcionamento e avaliação, possibilitou a elaboração e implantação do projeto atual.


Mas a Clínica tem longa história - é a primeira Clínica Psicológica do Brasil e sua trajetória está intimamente ligada à implantação e regulamentação da Psicologia em nosso país. Fundada em 1948 por Madre Cristina, a Clínica e os cursos livres de especialização mantiveram-se ligados ao Instituto Sedes após a reestruturação governamental em torno de Faculdades e Universidades.


Fruto de muitos anos de construção de um fazer clínico politicamente implicado na busca da transformação não só do sujeito a ser atendido, mas da realidade social que o constitui, o fazer clínico na Clínica segue possibilitando movimentos contínuos de transformação que nos convidam a todos: pacientes, terapeutas, professores, supervisores, enfim, todos  aqueles que buscam e têm afinidade de pensamento com as práticas e princípios de nosso Departamento e deste Instituto.

*Para mais detalhes, acessar o link: http://sedes.org.br/site/clinica-psicologica/


Cláudia Justi Monti Schönberger - Dezembro / 2016
Psicóloga, Psicanalista, Membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, Coordenadora de Equipe Clínica e uma das Coordenadoras do Projeto de Atenção à Infância e Membro da Equipe Gestora 2014-2016 da Clínica do Instituto Sedes Sapientiae.



segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Os poliálogos nas sociedades de matizes

Texto de Alcimar Alves de Souza Lima


                               Foto: Peu Robles

Por ocasião das manifestações nas ruas no ano de 2013, escrevi o artigo “Das sociedades de massas às sociedades de matizes”. Neste texto abordei um acontecimento ímpar, que era uma nova auto-organização do social a qual estava sendo pulsada naquele momento.

Esta nova forma consistia em que a população estava podendo se auto-organizar nas redes sociais a respeito de suas insatisfações políticas. Num segundo momento deste processo, o que estava acontecendo no universo virtual realizava-se nas ruas. Verdadeiras nuvens de pessoas ocupavam as esferas públicas aparentemente sem nenhuma proposta concreta no sentido político/social. Apesar dos disparadores todos os conteúdos manifestos em cartazes, que surgiam num primeiro momento,pareciam confusos e desconexos,mas, os elementos latentes viriam a surgir em outras manifestações e seriam elaborados a posteriori.

Este processo não cessou mais...

Acredito que tudo isso foi possível e está sendo possível por duas razões: o avanço tecnológico no campo das comunicações e como a população foi se apoderando destas novas produções tecnológicas.

Uso o termo APODERANDO porque ele é fundamental para compreendermos a passagem de época que estamos vivendo neste momento histórico.

A forma de se fazer e de se produzir política nunca mais será como outrora. A própria ética, ou melhor, a produção de uma nova ética nas sociedades contemporâneas, não se dará porque o homem está ficando mais humanizado e que caminha sempre em direção ao progresso, isto é um mito. Muito pelo contrário. O homem tem atração pela barbárie, e isto observamos a todo momento nos atentados terroristas produzidos por associações ou lobos solitários, que não sabemos bem o que são: loucos, sociopatas, narcisistas, exibicionistas ou qualquer outra designação que possa surgir.

No momento, julho de 2016, vivemos as incertezas a respeito dos atentados terroristas em Nice, que no início parecia ser do tipo lobo solitário, mas as recentes reportagens nos mostram que outros participantes também poderiam estar presentes no dito atentado.

No golpe e contra golpe da Turquia as redes sociais também tiveram o seu protagonismo.

Destaquei como nestes atentados, golpes ou manifestações de rua estão presentes novas formas de atuação política. Uma nova forma de auto-organização hipercomplexa está pulsando no social produzindo acontecimentos que sem a utilização do CIBERESPAÇAO seriam impossíveis.

Assim sendo, esses novos dispositivos que os avanços tecnológicos tornaram possíveis, estão produzindo a inclusão em nosso cotidiano de uma forma muito intensa de circulação da informação em tempo real.

Hoje transitamos por ele diuturnamente. Isto está produzindo a possibilidade de pensarmos novas expressões éticas.  A ética da tolerância entre diferentes povos e culturas precisa ser repensada, pois está contida na palavra tolerância uma arrogância que precisa ser superada por uma convivência maior entre pessoas e povos. Na tolerância fica implícito um distanciamento entre os sujeitos e o outro a ser tolerado. Acredito que precisamos de uma ética da CONVIVÊNCIA, a qual possa produzir uma maior intimidade, uma convivência com o outro enquanto diferença, auteridade e produzir maior aceitação do outro.

Para atingirmos o cerne destas questões os paradoxos, as aporias entre os povos, entre os grupos e as populações necessitam de muitos contatos de diversas ordens: físicas, emocionais, subjetivas,  ou seja, a troca nos mais diversos tipos de convivência são fundamentais e nisto a EDUCAÇÃO ocupa um lugar preponderante e o CIBERESPAÇO com certeza deverá sempre ser incluído, pois ele também é um espaço importante de pertinência na contemporaneidade.

Este momento histórico está produzindo conseqüências nunca antes imaginadas. O Homem não mudou muito os seus valores, a barbárie está diante de nós, porém, estas novas tecnologias na área da comunicação estão permitindo que os rastros das condutas humanas fiquem registrados e produzam provas que antes seriam impossíveis de serem captadas. Hoje, antigos acordos políticos feitos a portas fechadas estão com os dias contados. Toda sorte de gravações e filmagens feitas dentro ou à margem da lei estão vindo à tona e produzem conseqüências que podem ou não ter consistências e isto é uma questão ética importante a ser debatida nos dias de hoje.

Um novo metabolismo dos conteúdos debatidos no social está aparecendo com grande força e vitalidade. As redes sociais, todas elas, incluindo o WhatsApp, que, no momento, no Brasil, está com mais de 100 milhões de participantes, estão catalisando esse universo de mudanças.

Este processo metabólico das redes sociais esta digestão com infinitos ingredientes está produzindo o que chamei em outro texto, escrito em julho de 2013, “Sociedades de matizes: os poliálogos”, uma nova forma de expressão do social que foge completamente a lógica linear de comunicação de massas.

O poliálogo consiste em você colocar uma proposição em uma rede social, uma mensagem, ela é enviada para uma rede de “amigos”, ou somente para um deles. Porém, milhares poderão responder a sua mensagem e o que caracteriza o poliálogo é que todos podem se comunicar entre si. Você, que produziu a mensagem, perde totalmente o controle e o alcance do processo, pois rompe com a linearidade e exponencializa a informação. Chamo de poliálogo a expressão deste rico processo contemporâneo.

As redes de rádio, televisão, a mídia escrita com seus jornais e revistas estão sofrendo uma crise sem precedentes com o aparecimento dos poliálogos nas redes sociais.

Atualmente todos podem participar e interagir em tempo real com uma enorme rede interconectada globalmente por mais que as outras mídias tentem uma interação com suas audiências estas não têm o alcance das redes sociais que são descentradas. Nas outras mídias, sempre há uma central controladora que limita os poliálogos.

No citado texto de 2013, referia-me aos monólogos e diálogos nas produções midiáticas e ao alcance limitado de suas expressões sem o uso do ciberespaço.

O ciberespaço chegou através das redes sociais e estas se exprimem através de poliálogos que são as locomotivas que estão articulando virtualmente as pessoa se colocando-as nas ruas sem um centro organizador ou um líder carismático único e preponderante.

Na política elas estão produzindo mudanças nunca antes imaginadas e o aspecto mais importante a ressaltar é que os políticos tradicionais, acostumados aos conchavos, acordões e aos segredos que os possibilitavam manter os seus poderes não estão até o momento sabendo lidar com os poliálogos.

Com os poliálogos, as distinções de esquerda e direita ficam abaladas, pois uma multiplicidade de assuntos pulsam com uma velocidade imensa nas redes sociais e concomitantemente novas auto-organizações são pulsadas e atualizadas e estas sempre são imprevisíveis, o que aumenta muito a aleatoriedade dos processos.

Estas novas expressões não lineares que se expressam através dos poliálogos fazem com que se trinquem e se quebrem as antigas organizações políticas.

O poliálogo se auto- organizando nas redes sociais gera inúmeras conseqüências, e, dentre elas, a possibilidade de novas éticas serem pulsadas aprendidas e apreendidas em seus movimentos na circulação da informação. Somos todos nós, os matizes, no movimento de participação deste processo de interação no ciberespaço.

Outro aspecto importante é que não existem garantias do que está sendo pulsado e produzido nas redes, esta aleatoriedade do processo faz com que a insegurança dos políticos, e de todos nós, aumente muito e nossa sensibilidade deve ser muito mais desenvolvida do que anteriormente. Muitas incerteza se situações caóticas entram em jogo.

As intensidades destrutivas também ficam muito evidenciadas o que faz com que as atividades terroristas, por exemplo, também possam ser potencializadas pelas redes.

O que sabemos até o momento é que uma nova era está surgindo, não habitamos mais as sociedades das massas orquestradas por líderes carismáticos, e sim as sociedades de matizes, em que todos participam e que o grande espanto é que não sabemos qual paisagem será formada na somatória desses matizes.


Alcimar Alves de Souza Lima - Psicanalista e psiquiatra, Membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae. Autor dos livros: Pulsões: Uma orquestração psicanalítica entre o corpo e o objeto – Ed. Vozes – 1996, Acontecimento e linguagem – ensaios de psicanálise e complexidade – Casa do Psicólogo - 2012, Casa das coisas – J.A. Cursino Editores e Escola como desejo e movimento – Cortez Editora –2015 em parceria com Esméria Rovai.

Os poliálogos nas sociedades de matizes

Texto de Alcimar Alves de Souza Lima



Por ocasião das manifestações nas ruas no ano de 2013, escrevi o artigo “Das sociedades de massas às sociedades de matizes”. Neste texto abordei um acontecimento ímpar, que era uma nova auto-organização do social a qual estava sendo pulsada naquele momento.

Esta nova forma consistia em que a população estava podendo se auto-organizar nas redes sociais a respeito de suas insatisfações políticas. Num segundo momento deste processo, o que estava acontecendo no universo virtual realizava-se nas ruas. Verdadeiras nuvens de pessoas ocupavam as esferas públicas aparentemente sem nenhuma proposta concreta no sentido político/social. Apesar dos disparadores todos os conteúdos manifestos em cartazes, que surgiam num primeiro momento,pareciam confusos e desconexos,mas, os elementos latentes viriam a surgir em outras manifestações e seriam elaborados a posteriori.

Este processo não cessou mais...

Acredito que tudo isso foi possível e está sendo possível por duas razões: o avanço tecnológico no campo das comunicações e como a população foi se apoderando destas novas produções tecnológicas.

Uso o termo APODERANDO porque ele é fundamental para compreendermos a passagem de época que estamos vivendo neste momento histórico.

A forma de se fazer e de se produzir política nunca mais será como outrora. A própria ética, ou melhor, a produção de uma nova ética nas sociedades contemporâneas, não se dará porque o homem está ficando mais humanizado e que caminha sempre em direção ao progresso, isto é um mito. Muito pelo contrário. O homem tem atração pela barbárie, e isto observamos a todo momento nos atentados terroristas produzidos por associações ou lobos solitários, que não sabemos bem o que são: loucos, sociopatas, narcisistas, exibicionistas ou qualquer outra designação que possa surgir.

No momento, julho de 2016, vivemos as incertezas a respeito dos atentados terroristas em Nice, que no início parecia ser do tipo lobo solitário, mas as recentes reportagens nos mostram que outros participantes também poderiam estar presentes no dito atentado.

No golpe e contra golpe da Turquia as redes sociais também tiveram o seu protagonismo.

Destaquei como nestes atentados, golpes ou manifestações de rua estão presentes novas formas de atuação política. Uma nova forma de auto-organização hipercomplexa está pulsando no social produzindo acontecimentos que sem a utilização do CIBERESPAÇAO seriam impossíveis.

Assim sendo, esses novos dispositivos que os avanços tecnológicos tornaram possíveis, estão produzindo a inclusão em nosso cotidiano de uma forma muito intensa de circulação da informação em tempo real.

Hoje transitamos por ele diuturnamente. Isto está produzindo a possibilidade de pensarmos novas expressões éticas.  A ética da tolerância entre diferentes povos e culturas precisa ser repensada, pois está contida na palavra tolerância uma arrogância que precisa ser superada por uma convivência maior entre pessoas e povos. Na tolerância fica implícito um distanciamento entre os sujeitos e o outro a ser tolerado. Acredito que precisamos de uma ética da CONVIVÊNCIA, a qual possa produzir uma maior intimidade, uma convivência com o outro enquanto diferença, auteridade e produzir maior aceitação do outro.

Para atingirmos o cerne destas questões os paradoxos, as aporias entre os povos, entre os grupos e as populações necessitam de muitos contatos de diversas ordens: físicas, emocionais, subjetivas,  ou seja, a troca nos mais diversos tipos de convivência são fundamentais e nisto a EDUCAÇÃO ocupa um lugar preponderante e o CIBERESPAÇO com certeza deverá sempre ser incluído, pois ele também é um espaço importante de pertinência na contemporaneidade.

Este momento histórico está produzindo conseqüências nunca antes imaginadas. O Homem não mudou muito os seus valores, a barbárie está diante de nós, porém, estas novas tecnologias na área da comunicação estão permitindo que os rastros das condutas humanas fiquem registrados e produzam provas que antes seriam impossíveis de serem captadas. Hoje, antigos acordos políticos feitos a portas fechadas estão com os dias contados. Toda sorte de gravações e filmagens feitas dentro ou à margem da lei estão vindo à tona e produzem conseqüências que podem ou não ter consistências e isto é uma questão ética importante a ser debatida nos dias de hoje.

Um novo metabolismo dos conteúdos debatidos no social está aparecendo com grande força e vitalidade. As redes sociais, todas elas, incluindo o WhatsApp, que, no momento, no Brasil, está com mais de 100 milhões de participantes, estão catalisando esse universo de mudanças.

Este processo metabólico das redes sociais esta digestão com infinitos ingredientes está produzindo o que chamei em outro texto, escrito em julho de 2013, “Sociedades de matizes: os poliálogos”, uma nova forma de expressão do social que foge completamente a lógica linear de comunicação de massas.

O poliálogo consiste em você colocar uma proposição em uma rede social, uma mensagem, ela é enviada para uma rede de “amigos”, ou somente para um deles. Porém, milhares poderão responder a sua mensagem e o que caracteriza o poliálogo é que todos podem se comunicar entre si. Você, que produziu a mensagem, perde totalmente o controle e o alcance do processo, pois rompe com a linearidade e exponencializa a informação. Chamo de poliálogo a expressão deste rico processo contemporâneo.

As redes de rádio, televisão, a mídia escrita com seus jornais e revistas estão sofrendo uma crise sem precedentes com o aparecimento dos poliálogos nas redes sociais.

Atualmente todos podem participar e interagir em tempo real com uma enorme rede interconectada globalmente por mais que as outras mídias tentem uma interação com suas audiências estas não têm o alcance das redes sociais que são descentradas. Nas outras mídias, sempre há uma central controladora que limita os poliálogos.

No citado texto de 2013, referia-me aos monólogos e diálogos nas produções midiáticas e ao alcance limitado de suas expressões sem o uso do ciberespaço.

O ciberespaço chegou através das redes sociais e estas se exprimem através de poliálogos que são as locomotivas que estão articulando virtualmente as pessoa se colocando-as nas ruas sem um centro organizador ou um líder carismático único e preponderante.

Na política elas estão produzindo mudanças nunca antes imaginadas e o aspecto mais importante a ressaltar é que os políticos tradicionais, acostumados aos conchavos, acordões e aos segredos que os possibilitavam manter os seus poderes não estão até o momento sabendo lidar com os poliálogos.

Com os poliálogos, as distinções de esquerda e direita ficam abaladas, pois uma multiplicidade de assuntos pulsam com uma velocidade imensa nas redes sociais e concomitantemente novas auto-organizações são pulsadas e atualizadas e estas sempre são imprevisíveis, o que aumenta muito a aleatoriedade dos processos.

Estas novas expressões não lineares que se expressam através dos poliálogos fazem com que se trinquem e se quebrem as antigas organizações políticas.

O poliálogo se auto- organizando nas redes sociais gera inúmeras conseqüências, e, dentre elas, a possibilidade de novas éticas serem pulsadas aprendidas e apreendidas em seus movimentos na circulação da informação. Somos todos nós, os matizes, no movimento de participação deste processo de interação no ciberespaço.

Outro aspecto importante é que não existem garantias do que está sendo pulsado e produzido nas redes, esta aleatoriedade do processo faz com que a insegurança dos políticos, e de todos nós, aumente muito e nossa sensibilidade deve ser muito mais desenvolvida do que anteriormente. Muitas incerteza se situações caóticas entram em jogo.

As intensidades destrutivas também ficam muito evidenciadas o que faz com que as atividades terroristas, por exemplo, também possam ser potencializadas pelas redes.

O que sabemos até o momento é que uma nova era está surgindo, não habitamos mais as sociedades das massas orquestradas por líderes carismáticos, e sim as sociedades de matizes, em que todos participam e que o grande espanto é que não sabemos qual paisagem será formada na somatória desses matizes.


Alcimar Alves de Souza Lima - Psicanalista e psiquiatra, Membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae. Autor dos livros: Pulsões: Uma orquestração psicanalítica entre o corpo e o objeto – Ed. Vozes – 1996, Acontecimento e linguagem – ensaios de psicanálise e complexidade – Casa do Psicólogo - 2012, Casa das coisas – J.A. Cursino Editores e Escola como desejo e movimento – Cortez Editora –2015 em parceria com Esméria Rovai.

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

No dia 20 de agosto ocorreu o lançamento do livro “Ditadura Civil-Militar no Brasil - o que a psicanálise tem a dizer”, organizado Arantes, M. Ferraz, F. (São Paulo: Sedes Sapientiae/Editora Escuta, 2016). No evento organizado pelo Departamento de Psicanálise/Instituto Sedes Sapientiae houve um debate sobre o tema do livro com a participação de alguns de seus autores. O Blog, dando continuidade à série “Conversa sobre Psicanálise e Política”, convidou uma das debatedoras para compartilhar conosco um pouco deste debate. Confiram a seguir um recorte do texto apresentado por Marlucia Melo Meirelesa na ocasião.


Nossos pacientes são os mesmos de antigamente?

Em diversos lugares do mundo contemporâneo, sofremos com a ruptura da frágil coesão que garante a integração na malha social. Há um ódio consentido, gerador de modalidades de conduta particulares, explicitamente fomentado por uma paixão brutal pela destruição do outro.
No Brasil vivemos, no atual momento, também uma grave crise em nossa recente democracia. Democracia oriunda da luta política empreendida durante todos os 21 anos da ditadura civil-militar. Surpreendentemente, caminhamos na direção contrária de nossas conquistas e esperanças. Um grupo de usurpadores, apoiado por vários segmentos da sociedade civil, vale-se de pretenso e perverso fundamento jurídico para legitimar a violência contra nossas instituições, levando ao retrocesso democrático.
Diante de nossos olhos, a apropriação do verde-amarelo encobre, novamente, o conservadorismo e sua incapacidade histórica de assumir a alteridade, a diversidade e a inclusão. Os novéis autodeclarados patriotas desaguam seu ódio, cativando, fascinando, seduzindo e submetendo parte da sociedade a este discurso retrógrado. Estamos vivendo um período de muita insensatez, com poucas perspectivas a curto prazo.
Não há como esquecer, do ponto de vista político-ideológico, as atitudes de ausência e ambiguidades, nos anos da ditadura, de dirigentes e de muitos membros das Sociedades Psicanalíticas ligadas à IPA – que na época representavam uma hegemonia entre nós –, disfarçando tácito apoio ao regime autoritário[1]. Atualmente, é insustentável a suspensão de juízo, pelos psicanalistas, sobre o que ultrapassa os limites dos consultórios. O contexto social no qual o paciente está inserido não deve ser ignorado.
O processo antidemocrático atual – que está apenas começando – será longo, demorado, sem qualquer prenúncio de saídas simbólicas criativas. Já vimos este filme antes. É a banalização da nossa história recente de lutas, é um brincar com nossa indignação.
Durante a ditadura civil-militar, as Forças Armadas assumiram explicitamente o papel repressor e o exercício da mordaça.
Hoje, esse papel está diluído e não é explicitamente assumido. Aqui e ali, novos atores se outorgam o direito de proibir a palavra de qualquer um, ungindo-se de falsa superioridade e, arrogantemente, exercem sua brutalidade, sua violência, disseminando ameaças de toda ordem, exigindo submissão.
De um lado, vitoriosos eufóricos, exultantes, ambiciosos e desafiadores nos solicitam escuta para seus dramas existenciais. De outro, a apatia, a tristeza da derrota, os descréditos no embate, na vivência das contradições, as dúvidas e constrangimentos sofridos, retomam também o caminho dos consultórios.
Buscam guarida e acolhimento tanto para dúvidas oceânicas quanto para certezas cristalinas, para ideias embaralhadas ou pensamentos estereotipados, eufóricas alegrias ou tristezas extenuantes. Ambos, na esperança de resgate do direito de livre expressão para o escoamento tanto do mal-estar sentido, quanto da suposta vitória conquistada.
O espaço clínico, seja em consultórios ou instituições, é testemunho de uma inadequação entre a representação que herdamos do paciente dito “tradicional” e estes pacientes “rebeldes” que hoje atendemos na prática do ofício de psicanalistas. Podemos, portanto, dizer que não há mais pacientes como os de antigamente[2].
 Se sustentarmos esta nostálgica posição analítica tradicional, ouso dizer que repetiremos, no interior de nossos atendimentos clínicos, a violência praticada lá fora. Estaremos surdos para os relatos atravessados pelos acontecimentos e transformações históricas em que todos estamos envolvidos, analistas e pacientes. Nossos pacientes têm o direito de bradar, falar, concordar, discordar, comentar, insurgir diante da patologia político-social em que se encontram imersos. A sessão analítica pode ser o espaço, a eles oferecido, para legitimar suas dúvidas, reconstruir valores, descrenças e revoltas.
Mesmo sabendo que há intensidades no traumático impossíveis de serem elaboradas, cabe a nós, psicanalistas, em nossas conversas clínicas ao pé do ouvido, reunirmos as condições de colaborar, a partir de nossa experiência e da especificidade de nosso questionamento, para a introdução do intolerável político em nossa clínica. Trata-se de uma condição necessária, de um lugar possível para o exercício histórico, de expansão de cidadania. Não há como deixar escapar o testemunho de uma época, da dialética de um tempo que evoca, no presente, o tempo pretérito e a condensação de outros tantos.
A pessoa que está diante de nós, inegavelmente, é um sujeito inserido em sua história, inscrito e referido às suas formações inconscientes, transformando e sendo transformado pelos valores histórico-individuais, histórico-políticos e socioculturais do mundo em que, passageiramente, habita.


[1] Velloso, M., Meireles, M. A Operatividade da Psicanálise Vivida por Enrique José Pichon-Rivière: São Paulo; Velloso Digital, 2ª ed., 2014, p. 45-64.
[2] Meireles, M. Anomia: Ruptura Civilizatória e Sofrimento Psíquico. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2001.


Marilucia Melo Meireles é psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, mestre em psicologia clínica e doutora em psicologia social pelo IPUSP, autora de livros.
 

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Conversas sobre Psicanálise e Política: Tales Ab'saber fala sobre o psicanalista e a política

A série "Conversas sobre Psicanálise e Política" está de volta! Desta vez a equipe do Blog foi conversar com Tales Ab'saber sobre o tema de nosso debate. O psicanalista retorna a Freud e relembra os modos como este se posicionou frente às questões políticas de seu tempo como a guerra e o nazismo e reflete sobre a posição do analista em relação à política no atual contexto do Brasil. Confiram o vídeo a seguir.



                                                       por Peu Robles e Luiza Sigulem

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Paternidades IV: Pai e filho, por Rodrigo Savazoni

Encerramos o mês de agosto com nosso último post sobre "Paternidades". Vejam o relato da experiência de ser pai de Rodrigo Savazoni que, além de pai, é escritor, realizador multimídia, pesquisador e ativista. 



Pai e filho

Tinha 23 anos e estava de ressaca quando Lia, minha companheira, me despertou com a notícia de que seu teste de gravidez dera positivo. Não quis levantar. Enfiei minha cabeça sob o travesseiro e segui dormindo. Liguei para minha chefe e disse que não iria trabalhar. Voltei para a cama e fui acometido de um surto que durou cerca de 48 horas. Nesses dois dias poderia ter escrito um compêndio de oito tomos sobre a destruição da juventude pela paternidade, tal era meu desespero. Era setembro de 2003, vivíamos em Brasília participando dos primeiros dias do governo Lula e estávamos imersos em uma esperança que hoje nos parece tão distante, mas que à época nos permitia sonhar com um novo futuro. Nenhum de meus amigos era pai. Ninguém da minha idade tinha filhos. Nossas famílias viviam longe. As noites eram de festa. Ter um filho me pareceu um erro de repertório. Tive medo. E fiz a mulher que eu amava – e sigo amando – sofrer. 
Avistei o fim do túnel de meu surto na manhã de sábado, pilotando meu carro, em uma epifania impulsionada pela voz de Caetano a recitar “o tempo é um senhor tão bonito quanto a cara do meu filho...” O inesquecível sol da capital produzia reflexos nas poças de água do asfalto azul evocando uma beleza que eu desconhecia. Uma beleza que partia de dentro de mim. O tempo, bonito, a cara do meu filho. Meu filho. Minha filha. O pai que sou começou a existir naquela hora e fui tomado por uma profunda paz motivada pela certeza de que aquela sensação inédita anunciava apenas o início de uma das missões que justificaria minha existência. Uma percepção que eu compreenderia, anos depois, durante uma viagem xamânica, como constitutiva da “maternidade” que carrego dentro de mim. A maternidade que orienta o pai que sou.
Júlia nasceu em 2004. Está com 12 anos. Francisco em 2006. Completa dez em novembro. Ambos são meus filhos com Lia. Em dezembro passado, fiz uma cirurgia de vasectomia que pôs fim à possibilidade de ter filhos biológicos. Hoje sei que aquele medo inicial, que quase me paralisou, era apenas o prenúncio de muitos que eu viria a sentir. Lembro aquele medo como se fosse o de um atacante diante do pênalti decisivo na final do mais importante campeonato mundial. Um medo gigantesco que precede uma alegria indescritível. Júlia e Chico nasceram de parto normal. Em minhas mãos. Lia absolutamente linda em sua entrega a esse ritual violento e mágico de dar à luz uma criança. A égua, os líquidos espessos, os gritos, a vagina, a cabeça, o potro, o choro dos que nascem e dos que recebem os nascidos. Somos bichos.
Com o nascimento de Júlia, fui acometido por um profundo exercício de revisão de meu papel de filho, algo que ganhou ainda mais profundidade depois que Francisco veio ao mundo – quando passei a ser pai de um menino. Esse processo segue em curso e é objeto de meu diálogo com minha terapeuta. Sei que não fui um filho fácil. Tampouco difícil. Complexo, sem dúvida. De alguma maneira, eu não cabia no mundo que me cercava, e isso não tinha nada a ver com meus pais. Tinha a ver comigo. Mas em algum momento esse descompasso nos afastou. Saí muito cedo de casa, para estudar, rompi com meus amigos do passado, tive filhos e grandes responsabilidades precocemente. Mas o nascimento das crianças me fez iniciar a jornada de regresso aos braços onde posso me esconder em paz. Não ao mesmo lugar da infância, mas a outro que inventamos, a partir do momento que decidi morar na cidade que eles amam. Isso nos reaproximou e tem nos permitido viver nossa travessia de pais e filho em agradável temperatura, com longas caminhadas de diálogo franco ou ao redor de mesa farta e bom vinho. Sem dúvida, esse regresso contribuiu para que eu pudesse ser um melhor filho e pai.
O nascimento de Júlia e Francisco também me permitiu ver Lia – a mulher linda que por obra de Dóris, a deusa da generosidade do mar, escolheu-me para viver ao seu lado - tornar-se mãe. Seria impossível pensar a minha experiência paterna sem conectá-la à sua maternidade. Temos aprendido juntos a criar nossos filhos, nas avaliações quase sempre emocionais que fazemos, nas trocas de referências e expectativas, nos poucos embates (porque nos ouvimos), na assimilação e compreensão com os erros que cometemos. Da forma como a vivencio, a paternidade é um exercício conectado à maternidade de minha companheira, à revisão do que fomos como filhos, e ao que nos convoca a sociedade onde vivemos.
Júlia e Chico estão encerrando suas infâncias. Meus olhos se enchem de lágrimas quando escrevo isso, mas é só o tempo, bonito, transformando a cara dos meus filhos, que afinal só fizeram mudar até aqui. Sei que vão mudar muito mais: seus corpos, seus gostos, suas vontades. Talvez eles, como eu fiz um dia, resolvam mergulhar no desconhecido, mandando notícias esparsas de algum lugar longínquo. Talvez sejam outras as suas fomes. Enquanto ainda somos crianças, aproveito para inventar histórias e cantar canções, e me preparo para estar ao lado deles do jeito que precisarem nas fases futuras que virão. Passados alguns anos daquele surto inicial, o menino medroso tornou-se um homem de 36 anos que confia exclusivamente no amor para mediar sua relação com os filhos. Tornou-se um cara que busca materializar sua paternidade por meio de exemplos positivos – o que não é nada fácil – e diálogo constante, olho no olho, escuta e presença, porque só assim sabe fazer.


Rodrigo Savazoni é escritor, realizador multimídia, pesquisador e ativista. Trabalha neste exato momento na criação do Instituto Procomum, uma organização da sociedade civil voltada para a promoção dos bens comuns, da cultura livre e da inovação cidadã. Acredita que assim ajudará seus filhos a terem um futuro. É autor de quatro livros, entre eles um de poesia: “Poemas a uma Mão” (Azougue)