Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae

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O Blog acredita que a troca de conhecimentos e experiências entre pessoas de um coletivo pode contribuir para seu crescimento e desenvolvimento. Esperamos colaborar com esta troca, assim como revelar as particularidades e as riquezas das pessoas que compõe o Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientae. Fazem parte da Equipe do Blog: Adriana Dias, Bianca Giusti, Fernanda Borges, Gisela Haddad e Peu Robles,

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Psicodrama Público do Centro Cultural São Paulo

Você já ouviu falar  do Psicodrama Público do Centro Cultural São Paulo?
O Blog do Departamento convidou o psicodramatista, psicanalista e membro do Departamento de Psicanálise Pedro Mascarenhas - um dos coordenadores deste Psicodrama Público- para nos contar um pouco desta história.
Confira a seguir:



Para escrever sobre os Psicodramas Públicos no Centro Cultural São Paulo (CCSP), irei de início, compartilhar algumas perguntas recorrentes acumuladas no percurso destes quatorze anos, entre tentativas de respostas e formulações de novas perguntas:

1- O que significa fazer psicodrama gratuito em um espaço cultural público municipal? Há uma especificidade?
2- O que se entende por espaço cultural público?
3- Em que consiste um trabalho voltado para a cidadania?
4- Entre o psicodramático e o sóciodramático, qual o melhor enquadre para este trabalho? Poderíamos chamar de psico-sociodramático?
5- É melhor trabalharmos com temas predefinidos ou emergentes?
6- Como caracterizar a subjetividade que atravessa este trabalho?
7- Quem são os frequentadores habituais das sessões? Quais são suas motivações? É possível afirmar que os que frequentam assiduamente realizam um processo?
8- O que pode ser considerado psicoterápico nesse trabalho?
9- Como articular o público e o privado?

Sem pretensão de esgotar tais perguntas, tentarei fazer um percurso que passe por algumas destas interrogações.

O psicodrama público do CCSP realiza-se sempre aos sábados, desde agosto de 2013, como um desdobramento do Psicodrama da Ética, realizado no dia 21 de Março de 2001 e coordenado pela psicodramatista Marisa Greeb, ocasião em que foram realizados simultaneamente vários Psicodramas Públicos na cidade de São Paulo.

A partir daí, a convite da Sociedade Amigos do CCSP, Antônio Carlos Cesarino reuniu uma equipe para organizar os Psicodramas Públicos semanalmente.

Na verdade a história do Psicodrama Público é antiga e em seus primórdios era mesmo público, realizado em praças com crianças nos jardins de Augarte entre 1908 e 1911, com prostitutas entre 1913 e 1914 e com refugiados de guerra tiroleses no campo de Mittendorf em 1917, todos em Viena, cerca de cem anos atrás. J.L.Moreno, que nesta época era um estudante ligado aos sionistas vienenses, jamais rompeu com os ideais de sua juventude ao longo de sua vida e obra. Entre apostolado e idealismo, fazia tentativas de vida heroica e marcava sua utopia. Desenvolveu o Teatro da Espontaneidade e, em suas duas obras mais conhecidas - As palavras do pai (1920) e O Teatro da espontaneidade (1923) - registrou seus pensamentos desta época e alguns dos conceitos que posteriormente seriam sistematizados. Para Moreno “o experimento sociométrico acabaria por tornar-se total, não apenas em expansão e extensão, mas também em intensidade, marcando, assim, o início da sociometria política”, o que passou a ser conhecido como a utopia moreniana.

Tal utopia sempre esteve presente em nosso Psicodrama Público e nossa relação com ela é de militância quase religiosa, de paixão, podendo tanto nos inspirar, quanto nos cegar tornando-se um fundamentalismo. Como diferenciar? O trabalho com um grupo aberto contínuo e heterogêneo nos coloca frente a frente com pessoas e sofrimentos diversos. Nosso desafio é abrir um espaço de escuta e criação coletiva de projetos dramáticos singulares, independente de qualquer leitura psicopatológica. Na fala dos participantes, "venho aqui porque o psicodrama do Centro Cultural é como um buraco no muro de Berlim; é poder passar pelo buraco no muro”; “vir ao CCSP é um enorme alívio porque é o único lugar onde podemos tratar questões sem ter um rótulo de doente". No entanto, este trabalho inspirado na utopia moreniana, precisa se desdobrar numa política com P maiúsculo, caso contrário seguimos sendo um barco de motor potente, mas sem direção, consistência e consequências. Pensar sobre uma Política que poderia nos ajudar a seguir a utopia como inspiração, além de uma gestão deste espaço é uma questão controversa, como qualquer Política, mas necessária e obrigatória.

O psicodrama migrou dos psicodramas públicos das ruas para o delimitado espaço dos consultórios, salas de aula e de treinamento atuais. Um movimento de sobrevivência, necessário para o seu desenvolvimento, mas ao preço de diminuir seu impacto revolucionário. Tornou-se mais uma forma de psicoterapia, treinamento ou dispositivo grupal. Em seu texto "Jogo do Esconderijo” (1976) Betty Milan já formulava uma interpretação sobre a evolução da utopia e o processo de "privatização" do psicodrama.
Atualmente há uma ideia prevalente de que tudo precisa ser privatizado, saúde, educação, serviços, etc. sendo privado considerado mais eficiente e o público sujeito a corrupção. Estaria o Estado e a sociedade falidos e sem possibilidade de criação de espaços públicos para o exercício da cidadania? Sabemos o quão complexa é esta questão, atravessada pela ideologia de um mercado neoliberal com seus tentáculos em todas as áreas da vida, inclusive neste espaço do Psicodrama, o que nos exige reflexões e reposicionamentos permanentes.

Para Cesarino o mote inicial do Psicodrama Público seria caminhar na direção da compreensão do que seria cidadania, sem se esquecer de que ela pode ser limitada (ou até descartada) em função da organização da sociedade liberal (ou capitalista). Ou seja, sem nos esquecer de que as relações de mercado neste momento histórico são colocadas acima da cidadania.  O adjetivo público dado ao psicodrama por Moreno denota uma característica de grupo aberto não processual, não numerável, em que se trabalham temas de interesse público. Aqui o público é inseparável do psicodrama. Mas também podemos pensar o público como uma característica dos contextos grupal e social, pelo fato deste psicodrama se realizar numa instituição pública, ser gratuito e necessitar de uma série de entendimentos com a instituição. Neste caso seria um dos tipos de psicodrama. Como nomear os outros tipos? Psicodrama privado? 

Na verdade esta pergunta é para provocar um estranhamento e um convite ao debate. Os saberes estão sempre tendo que se haver com a sua privatização. O que se entende por público?

Embora pareça uma questão básica com respostas óbvias, o significado de público pode ser múltiplo e variável, de acordo com a época cultural e a necessidade de expressão.

Os urbanistas se interessam muito pelo assunto e caracterizam o espaço público de maneira bastante variada: espaço de visibilidade pública; espaço de uso comum e posse coletiva pertencente ao poder público; espaço da possibilidade da ação política; lugar de representação e de expressão coletiva da sociedade. Destas caracterizações gostaria de focar no espaço público como condição da cidade democrática e lugar de intercâmbio de bens, de ideias, de afetos, de fantasias, de projetos, de sonhos. A produção deste espaço de intercâmbio é coletiva e ambígua, feita a partir de disputas, conflitos e articulações com movimentos de privatizações, cheias de idas e vindas. Um espaço conflituoso que nos coloca frente à questão de sua gestão participativa e de sua avaliação.

No espaço Público, assim caracterizado, o encontro com a alteridade deveria ser uma de suas características, talvez a central, a nossa possibilidade de outramento, nas palavras de Marisa Greeb. Para Cesarino o espaço público não é só um espaço de passagem, ele nos pertence e pode ser um espaço de encontro e convivência.

Como avaliamos o espaço do Psicodrama Público no CCSP?
O CCSP é um centro cultural que abriga um Psicodrama Público, ou seja, um espaço de cultura que abre uma possibilidade de construir uma compreensão do sofrimento humano.

Todo dispositivo cultural público tem como função acolher e fomentar  um espaço de resistência. Trata-se de um lugar público onde, além de se oferecer convivência, a vida deve ser potencializada numa vivência estética e transformadora. 

O CCSP é um espaço em que as pessoas se sentem à vontade e que permite abrigar diversas formas de expressão cultural contemporâneas. Sua biblioteca é a mais frequentada dos serviços públicos municipais. O público tanto do CCSP quanto do psicodrama é variável e abarca desde moradores da periferia de São Paulo, sem tetos, jovens artistas, grupos com algum tipo de handcap, pacientes de um hospital psiquiátrico próximo, pessoas que transitam pelo local. A estes se juntam, no caso do psicodrama, aos estudantes de psicologia, de psicodrama, sociologia, etc...

A dimensão pública deixa sua marca, seja na construção coletiva e inclusiva para o sofrimento nas diversas situações humanas da vida social e cultural, seja pela possibilidade de não reduzir o sofrimento humano aos códigos de diagnósticos ou aos saberes da ciência médica, psicológica, pedagógica, psicoterápica ou psicanalítica, que podem ser muito úteis, mas não cobrem a amplitude e a diversidade do humano ou como a sociedade se relaciona com o humano. 

O Psicodrama Público, sem ser uma psicoterapia no senso estrito, constrói um dispositivo que permite abordar e dar visibilidade aos sofrimentos humanos através de uma escuta polifônica e transversal. Uma abordagem baseada na construção coletiva e no intercâmbio que acolhe e inclui. Por ser uma prática que produz efeitos transformadores diversos nas pessoas, poder-se-ia dizer que se constitui em uma clínica, embora diferenciada, que se opõe de maneira frontal ao espaço clínico dominado pela lógica manicomial. E isso não acontece por ser um trabalho extramuros do manicômio, nem por atender pessoas egressas destes serviços, embora elas possam frequentar, já que é um espaço aberto. Mas por se utilizar de uma lógica oposta em sua episteme, método e prática, em que não isola ou segrega as pessoas em sofrimento e não se detém no olhar patologizante da experiência humana. E, embora não pertença a uma rede como os serviços públicos de saúde mental, pode-se dizer que faz um trabalho antimanicomial.  A utopia é moreniana, mas a ética e a Política é antimanicomial.
Há treze anos, no início do trabalho de Psicodrama Público no CCSP, a diversidade de direções que eram apresentadas era seu traço marcante; cada diretor exibia suas singularidades diretivas. Hoje esta diversidade permanece, mas aos poucos, questões formuladas pelos usuários e pelos diretores permitiram a construção de um espaço mais democrático e mais Público, no seu sentido amplo, como já abordamos. Assim estamos, em meio a este processo, às vezes ambíguo e nem sempre progressivo. Acolhermos a participação dos usuários na gestão deste processo é, sem dúvida, um desafio bastante pertinente aos tempos atuais. Uma gestão e avaliação participativa dos conflitos inerentes a este trabalho pelos próprios usuários juntos com os diretores talvez seja outro horizonte possível.

O Psicodrama Público recupera a concepção, entre a palavra psicológica, íntima e doméstica - oikos -, drama do eu-tu, e a palavra política, pública e coletiva - polis -, lugar da nossa tragédia.  Foi através da tragédia, no teatro, que, na antiguidade, os gregos articulavam a passagem do mito ao político.
Penso o Psicodrama Público como um dispositivo transformador. A palavra “dispositivo” se origina do grego "oikonomia", gestão do oikos, ou gestão da casa, assim como estamos gestando a nossa casa / grupo / sociedade. Agamben, acrescentando ao pensamento de Foucault novas concepções propõe que dispositivo seja qualquer coisa que tenha a capacidade de capturar, orientar, determinar, interceptar, modelar, controlar e assegurar os gestos, as condutas, as opiniões e os discursos dos seres humanos. O dispositivo atua no processo de subjetivação. Uso o termo dispositivo na direção proposta por Agamben e, mais especificamente, no sentido que Ana Maria Fernández o emprega, referindo-se a artifícios tecnológicos desenhados por nós nas intervenções institucionais e ou comunitárias... pensados como máquinas, que cria condições de possibilidade, que provoca ou põem em visibilidade e eventualmente em condições de enunciabilidade latências grupais, institucionais e ou comunitárias.

A subjetividade contemporânea chama a atenção para o processo de transformação do cidadão em consumidor.

Ter consciência sobre ser um cidadão dentro de um território nacional seria o objetivo a ser alcançado na modernidade industrializada. Na sociedade globalizada, sem fronteiras nacionais, dominada pelo desenvolvimento do capital internacional, o objetivo passa a ser a formação de consumidores cativos. Consumidor seria a posição determinante que trama a natureza do ser humano de nossa época.

Na sociedade de consumo o novo é melhor porque é novo e vivemos  paradoxalmente, sendo obrigados a ser novo e criativo a todo instante. Tudo se espera do objeto a ser consumido e nada do sujeito, transformado que está, nesta sociedade de consumo e espetáculo, a ser somente objeto de consumo ou consumidor. Não existem modificações do objeto pelo sujeito e vice-versa.

Os estados nacionais engendraram práticas cívicas e a consciência do cidadão. O mundo globalizado, supra nacional, engendrou práticas de consumo e de formação de imagem. Não basta consumir tem que parecer que consumiu para um outro que também consome. O consumo requer um espectador também consumidor que testemunhe o Reality show do consumo.

No Psicodrama Público do Centro Cultural uma de nossas questões tem sido a de tentar situar este trabalho não como mais um produto a ser consumido.

Uma questão me chamou a atenção em uma das avaliações realizadas com o grupo de participantes do psicodrama. Ao serem interrogados sobre suas preferências, tomando a distinção entre psicodrama e sociodrama, afirmaram a importância de sua participação efetiva no processo de trabalho, de não se sentirem ausentes ou meros espectadores no próprio processo de realização do trabalho, fosse ele psicodrama ou sociodrama.
Parece que aqui há uma confirmação de que o trabalho público valoriza o processo de fazer junto, deflacionando os consumidores.Um processo de co-existência, co-experiência e co-criação.(Moreno) Estar junto neste processo e poder criar coletivamente alternativas, seja para questões individuais ou vividas como problemas coletivos, criar um lugar, um território. Deixar de ser consumidor, objeto, anônimo. Transformar não-lugares desterritorializados em lugares próprios e singulares de criação.
Em várias ocasiões, tanto como diretor como membro da plateia me senti imerso numa atmosfera mágica e onírica junto ao grupo, sonhando junto. Esta seria para mim uma das características básicas do terapêutico, ou seja, atravessar e se deixar atravessar pelo sonho do outro, criar junto, condições de sonho onde ele não existe. Em outra linguagem, criar trama psíquica, ou o próprio psiquismo.

Ainda na diferenciação entre o público e o privado penso que o sonho é ao mesmo tempo o que há de mais privado e público. Sonhar junto, e depois contá-lo num grupo passa pela própria dobra entre o psico e o sócio.

Pedro Mascarenhas é psiquiatra, psicodramatista pela SOPSP e psicanalista. É membro do Departamento de Psicanálise do Sedes Sapientiae.

Referências bibliográficas:


quarta-feira, 19 de julho de 2017

Lançamento livro “O tempo e os medos. A parábola das estátuas pensantes” de Maria Silvia Bolguese

É com muita satisfação que o Blog do Departamento anuncia a primeira publicação da série de livros intitulada “Psicanálise Contemporânea”, coordenada e organizada por Flávio Ferraz, que a Editora Blucher passará a publicar. O lançamento do livro “O tempo e os medos. A parábola das estátuas pensantes” de Maria Silvia de Mesquita Bolguese aconteceu no dia 21 de junho último, na Livraria da Vila da Fradique Coutinho. Esta coleção, segundo Flávio, tem uma vocação pluralista de superação dos paradigmas das chamadas teorias psicanalíticas “de escola”. Assim, autores brasileiros e estrangeiros, estreantes e consagrados, trarão à luz seus textos para enriquecer o debate psicanalítico, norteados por princípios como:
 - consideração fundamental à cultura e às organizações sociais e familiares contemporâneas e aos modos de subjetivação que elas engendram;
- reflexão sobre as novas faces do mal-estar na cultura e do sofrimento psíquico e os imperativos da construção de uma teoria para a psicopatologia contemporânea;
- compromisso com a construção de uma metapsicologia e uma clínica que façam frente às novas exigências e que, ao mesmo tempo, se pautem pelo pluralismo no campo da psicanálise, em oposição ao dogmatismo e à adesão acrítica a teorias e instituições.










À convite do Blog do Departamento Maria Silvia Bolguese faz um pequeno resumo de seu livro “O tempo e os medos”

Os trechos apresentados na orelha e quarta capa do livro já indicam ao leitor uma boa maneira de entrar no universo no qual habitam essas páginas desse trabalho, que mescla fragmentos da clínica psicanalítica, reflexões sobre conceitos centrais da obra freudiana, além de autores da contemporaneidade, na imprescindível intersecção da teoria psicanalítica com autores da filosofia, sociologia e política.

"Sempre dolorosa e paradoxal é a relação do homem com o tempo. Tempo que se deseja controlar é o tempo que não se pode deter… Há cerca de trinta anos, o tema abordado neste livro seria de interesse de uma parcela bastante restrita da população, as pessoas da chamada terceira idade. No entanto, a partir da virada do século XXI, o envelhecimento se converteu gradual e progressivamente em preocupação de pessoas cada vez mais jovens. O flagrante aumento de preocupação com a manutenção da beleza e da juventude e a tomada do envelhecimento como uma das principais questões do homem contemporâneo merecem um exame detalhado, tanto das condições sociais quanto dos movimentos subjetivos, marcados pela lógica mercantilista. Quando o envelhecimento é vivido como adoecimento, vive-se ao mesmo tempo o medo da exclusão social e o horror diante do desamparo e da perda das referências afetivas." 

"A psicanálise tem algo a contribuir, do ponto de vista da produção de reflexões teóricas pertinentes e do ponto de vista da prática clínica, para o desvendamento dos difíceis dilemas atravessados pelo sujeito em sua jornada de deixar de ser jovem e envelhecer?”

O livro convida à reflexão, mas também à fundamental continuidade de um diálogo que necessita sempre prosseguir. Neste sentido, sempre será um pretexto para novas conversas e produções, em última instancia, sempre coletivas. Tal como enuncio nos agradecimentos, escrever está longe de ser uma tarefa solitária. Fiz-me acompanhar por tantas pessoas, tantas vozes. O mar de autores que me fez companhia é imenso. Dos clássicos aos contemporâneos, muitos autores - psicanalistas, filósofos, sociólogos, historiadores e outros - estiveram o tempo todo ao lado de minha escrivaninha, esparramados pelo chão, pelas estantes, ate mesmo sobre a cama… O trabalho que tanto vozes me deram: cantando, sussurrando, gritando, falando, todas ao mesmo tempo, foi de complexidade e de esforço. Tarefa árdua e exaustiva, mas, sem elas, seria impossível.
Tal como anunciam as fotos, o lançamento transcorreu nesse clima: muitos amigos, colegas, interlocutores antigos. Enfim, uma bonita celebração de uma etapa vencida que implica novas caminhadas.


Maria Silvia Mesquita Bolguese é psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Sedes Sapientiae, doutora em Psicologia Social pela PUC SP, pós- doutoranda pela USP, autora do livro Depressão & doença nervosa moderna (Via Lettera, 2004) 

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Conto “Janaína Alves”

O Blog do Departamento inaugura uma nova categoria de publicação com um time de colunistas que passará a postar produções próprias.  Nossa colunista Maria Laurinda Ribeiro de Souza, membro do Departamento de Psicanálise publica seu conto “Janaína Alves”. Confiram:

  
JANAÍNA ALVES

Quinhentos e dezessete anos levando milhões do berço
ao túmulo sem lhes dar a mínima chance de olhar em volta
e refletir minimamente sobre o que estamos fazendo por aqui”
(Antonio Prata, FSP, 10.6.2017).

Segundo o Atlas da Violência de 2017, um jovem de 21 anos, idade de maior incidência de homicídios, e com menos de 7 anos de estudo tem 16,9 vezes mais chances de ter uma morte violenta do que o que chega ao ensino superior, e 147% maior se for preto ou pardo.  As vítimas de suicídio e homicídio em nosso país têm cor, gênero, idade e território definidos.

8.05.2017. Em manchete sobre a explosão de crimes no Rio de Janeiro, a Folha de São Paulo publicou a foto de Janaína Alves, mãe de um adolescente de 15 anos , Jhonata, baleado no morro do Borel. A expressão de dor  no rosto dessa mãe e a indignação diante das cenas de violência diariamente cometidas neste país são o mote deste escrito. Efeito de minha solidariedade ao luto dessas mães.  

 I.
Janaína Alves.  Esse seu nome. Perdeu o filho. Morte matada.
Pedi-lhe conversa. Aceitou. Mãos cruzadas sobre as pernas. Bermuda rasgada. Blusa suja, manchas de sangue. Olhar  turvo. Falou.
Escreve ai seu moço. O senhor perguntou. Vou contar. Disseram foi bala perdida. Foi não. Foi da polícia mesmo. Aconteceu com outros. Mas não podia ser com ele, com meu menino. Só quinze anos. Só quinze anos, seu moço.
De manhã meu  menino levantou cedo. Deu-me beijo rápido. Cabelo molhado. Sinto ainda o rosto molhado do cabelo dele. O senhor vê, seu moço,  meu rosto molhado? Não, não é lágrima não. Não choro mais.
Pegou a bicicleta.  Primeiro dia na vendinha do seu Zé.  Os amigos disseram pra não ir, que era furada. Tinha outros jeitos de ganhar dinheiro, mais fácil.
Tomara ele goste do serviço, pensei. Deixe de rondar perdido com a bicicleta. Vá ele ficar como o filho da Dinaura. Virar aviãozinho de traficante. Deus o livre. Não sabia eu o que ia  acontecer.
Naquele dia não prestei  atenção devida no meu filho. Queria volta atrás. Ir até o portão. Ver, mais uma vez, ele descendo a ladeira. A lama sujando a roda da bicicleta.  Num vejo mais.
Hoje, mesmo, faz já um mês, mas hoje mesmo, hoje mesmo seu moço, desci a escada e fiquei olhando. Vi um menino na bicicleta. Queria tanto fosse ele.
Voltei pra dentro. Arrumei os pratos. Sempre ponho o dele. Sei não. Pode estar por ai, olhando a gente.  Meu marido finge não ver. Pensa ser loucura de mãe. Diz que o tempo cura. Será que cura?  Quero cura não, quero meu menino.
Passo o dia dentro de casa. Não ligo mais o rádio. Vez em quando olho a janela. Estranho o movimento de fora. Antes não me incomodava. Também gostava do barulho, das conversseiras, dos meninos fazendo guerra, dos cachorros latindo, das motos carregando sacolas e gente. Hoje olho e não ouço nada. É tudo parado, vazio... Fiquei assim,  olhar furado feito assum preto.
Roubaram a luz dosoios meu. Meu menino gostava dessa música. Sabia assoviar ela. Era lindo quando ele cantava. Foi meu pai que ensinou pra ele. Meu pai era violeiro. Vivia no sertão. Quando vinha gostava de ensinar  música pro meu menino.
Quantos anos eu tenho? Tenho trinta seu moço. Tive ele com quinze. Vida dura, mas fiquei feliz de ter meu menino. O pai dele ficou junto. Trabalhei até ele nascer. Depois a patroa não quis mais. Fiz de tudo. Levava ele junto quando podia. Às vezes as vizinhas tomavam conta dele pra mim. Custei achar vaga na creche. Ele gostava de  lá. Lembro dele correndo com os meninos, aprendendo a escrever as letras.
Foi tudo tão rápido seu moço. Ele saiu cedo e foi assim, não vi mais os olhos do meu menino. Foi tiro perdido. Foi não, foi tiro  direto, foi tiro pro meu menino. Tiraram ele de mim.
A noite é o pior.  Acendo vela pra ele. Dizem que ilumina o caminho. Tenho medo do escuro. A luz é pra mim. No escuro não vejo nada. Penso nele assim, perdido,  no escuro. Quero não.

II.

A noite assombrou a casa de Janaína. Os pesadelos com o corpo do filho estendido no chão atormentaram seu sono. Mãe e filho  agarrados. Unidos num gesto de dor e denúncia.
            O marido levantou-se cedo. Tentou, em vão, retira-la da cama.  Encolhida,  prostrada, ficou assim... A mão às vezes, tocava o rosto molhado pelo cabelo do filho. Quis  encontrar no espelho a umidade do rosto.
Olhou pela janela tentando, mais uma vez ,vê-lo sair com a bicicleta. Um vento forte levantou as folhas do chão. A bicicleta e o filho  voaram no ciclone das folhas.  Apoiou-se nas paredes. Tirou a blusa manchada de sangue e alisou-a sobre a cama. Permanecera com ela, colada ao corpo, desde o dia do crime. Acariciou-a como se fosse o corpo do filho. As lágrimas reapareceram.  
Buscou no armário o vestido usado no dia dos 15 anos do menino. É só um bolinho, ela dissera. Fora mais que isso. Vestiu–se, olhou novamente a janela.  E viu. Viu a sombra do menino fechando o portão. Correu para a porta e encontrou uma mala. Sim. Encontrou. Pois não houve estranheza  ou surpresa.  Não se perguntou o que era aquilo ou porque a mala estava ali. Nada.  Simples assim.   Estava lá esperando e a mala chegou até ela.
Desceu a rua enlameada com a mala na mão. Parou na curva onde vira o filho morto.  Fez um gesto de despedida e seguiu viagem.
Para onde? Não se perguntou. Apenas seguiu. Sabia que a mala lhe diria o destino.  Na rodoviária pegou o primeiro ônibus. Não lhe pediram passagem. Agarrou-se à mala, como quem carrega um filho no colo. Acomodou-se no banco do fundo. Fechou os olhos. Adormeceu.
Foi longo o caminho. Era o entardecer quando o ônibus chegou à parada final. Entrou no primeiro bar e pediu um lanche. A mala apoiada nos pés.
Na saída do bar seguiu pela estrada de pedra. Estreita. Irregular. Às vezes os sapatos metiam-se nas fendas das pedras e ela precisava abaixar-se para ajudar os pés a retomarem o caminho. Mas seguiu sempre em frente. Terminada a estrada havia uma viela. O chão coberto de musgo. As plantas desordenadas ameaçavam fechar a trilha estranhando a presença daquela mulher carregando uma mala como quem carrega um filho.
A noite chegou. Pela primeira vez, desde a morte do menino, não teve medo do escuro. No final da trilha avistou o mar. Tirou os sapatos. Sentiu a areia escorrendo pelos pés. Caminhou  dando a volta no contorno da praia.  Cansou-se. Abraçada à mala deitou-se  e adormeceu. Não precisou de velas. Sabia que ela, o menino e a mala estavam ali.


III.

- Moça. Moça. Acorda moça.   O mar está subindo! Esta mala é sua?   É sua a mala?
- Olha o mar. Olha o mar. Está subindo. Acorda!
Janaína abriu os olhos. Demorou a entender onde estava.  As palavras chegavam a ela embaralhadas com o som das ondas. A espuma estourando a seus pés.
            Agarrou a mala e o menino. Abraçou-os como  quem recebe o filho de volta.
- Filho, filho. Jhonata querido, jhonata...
O menino assustou-se.  Empurrou-a, desfazendo o abraço e saiu correndo.  Na curva do mar, ainda inquieto, virou-se. Viu a mulher agarrando a mala como quem carrega um filho no colo. Fez um aceno e sumiu.
Janaína, imobilizada, agarrada à mala, seguiu-o com o olhar. As ondas salpicaram-lhe o rosto.
Não se sabe mais o que são lágrimas e o que é a água do mar.
Chorou até que o mar se recolheu deixando apenas a areia molhada. Ela também se recolheu.  Descalça, retomou o caminho de volta.
Desta vez, as plantas da viela abriram-lhe caminho. Recolheram-se. Na estrada não se incomodou com o chão duro das pedras.  Seguiu sempre em frente.
Filho, filho.  Jhonata querido, Jhonata.  O nome do menino dava voltas dentro dela.  Crescia e estourava no peito. Chamava o filho e segurava  com mais força a mala. Não fosse perde-la também.
Às vezes, um ou outro passante olhava aquela figura triste e se comovia com as dores da própria vida.  Ninguém ousou se aproximar.  
Caminhou pela estrada até o final do dia.  O cansaço veio junto com a calmaria.  Aquietou-se. Os pés estavam feridos mas  ela não sentia mais dor.  Só queria chegar. Sabia que estava perto.

IV.

Escureceu.
A lua, escondida pelas nuvens, deixava apenas um rastro nublado sobre as pedras da estrada.
Janaína continuou. 
A mala não tinha mais peso ou volume. Fazia parte daquela mão estendida.
            Um relâmpago  anunciou a chuva desbastando o céu. Janaína apressou o passo.
            Quanto tempo caminhou assim?  Não se sabe dizer. 
            A água parou de escorrer pelos seus pés e a noite fez-se mais clara.
Janaína levantou a cabeça e viu, ao lado da lua, apenas uma estrela. Sorriu. Sim, pela primeira vez depois da morte do menino, ela sorriu.  Um sorriso triste, é verdade, mas ela se deu conta dele.
Lembrou-se da estória dos três reis levando presentes para o menino Jesus. Tantas vezes a mãe a contara.  Eles simplesmente seguiram a estrela e chegaram até o lugar onde o menino estava.  
Lembrou-se dos pequenos presépios feitos na sua vida de menina pobre: um cestinho de palha, um vidro com papel azul fazendo as vezes de um lago, um papel marrom amassado imitando as pedras da gruta, um bonequinho de pano  deitado no cestinho, coberto com resto de tecidos.  Uma vaquinha de madeira, um bezerrinho, uma estrela dourada pendurada no teto da gruta.
As lembranças tornaram leve seu caminhar.  Deixou-se guiar pela estrela.
Sentiu a água novamente molhando os pés. Estava sobre uma ponte.
O rio, cheio,  corria e criava ondas que subiam e atravessavam a pequena ponte de madeira.
Janaína parou no meio da ponte. Apoiou-se na mureta feita com troncos de árvores e ficou ali olhando a água correr e os galhos desaparecendo na curva do rio. O dia amanhecia.
Pousou a mala sobre a água. Com tanta ternura como se estivesse cobrindo o menino jesus em seu berço. Abriu a mão e deixou-a ir.  Esperou que desaparecesse junto com as folhas do rio.
Dos olhos,  lágrimas doces escorreram até o canto da boca.
Levantou-se e partiu.



Maria Laurinda é psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, professora do Curso de Psicanálise Teoria e Clínica, autora dos livros “Violência”( 2005) e “Vertentes da Psicanálise”(2017) ambos da Coleção Clínica Psicanalítica, ed. Casa do Psicólogo.

terça-feira, 20 de junho de 2017

Fundação do Departamento de Psicossomática Psicanalítica do Instituto Sedes Sapientiae

O Blog do Departamento convidou as colegas Aline Camargo e Cristiane Curi Abud para dar notícias sobre a Fundação do Departamento de Psicossomática Psicanalítica do Instituto Sedes Sapientiae


 



No dia 17 de maio de 2017 aconteceu a fundação do Departamento de Psicossomática Psicanalítica. Há muito se aguardava a constituição de um grupo forte e atuante de alunos e ex-alunos que enfrentasse a empreitada da criação do Departamento, cujo embrião foi o curso de Formação de Psicossomática Psicanalítica – corpo e clínica contemporânea, especialização oferecido pelo Instituto Sedes Sapientiae. O curso de Formação completará 25 anos em 2018, esteve sempre presente nas múltiplas atividades do Instituto. Possui uma ampla produção científica em termos de simpósios, livros, participação em congressos, e já realizava ao longo desses anos diversos intercâmbios no Instituto com outros cursos, departamentos e com a sua Clínica Psicológica.

Na continuidade da história do Departamento, em 2000 deu-se a criação do Projeto de Atendimento e Pesquisa em Psicossomática Psicanalítica, fundado por colegas que fizeram o curso de Formação. O Projeto atua na Clínica do Sedes e pode ser considerado um outro embrião para o Departamento que hora aconteceu. Voltado ao atendimento de casos de grande complexidade psicossomática, o Projeto vem realizando além dos atendimentos, pesquisa e produção científica apresentada em jornadas e publicações. Entre suas produções se destaca um livro de casos clínicos lançado em 2015 cujo foco é a especificidade dessa clínica que vêm desenvolvendo.

O curso de Expansão Cultural: Introdução à Psicossomática Psicanalítica. Uma visão teórico-clínica, coordenado pela colega Sônia Maria Rio Neves, com a participação de alguns colegas do Projeto também contribuiu para que se chegasse a formação do Departamento na medida em que, desde seu início, em 2002, vem apresentando a Psicossomática Psicanalítica de forma introdutória e despertando o interesse de muitos alunos para dar continuidade a este estudo no curso de Formação.

Assim, o sonho da criação deste departamento vem sendo artesanalmente construído ao longo destes 24 anos. A comissão criada pelos alunos há dois anos deixou-se tocar, muito sensivelmente, por esse sonho compartilhado e tratou de fazer dele uma realização, a realização do Departamento de Psicossomática Psicanalítica do Instituto Sedes Sapientiae. Como bem lembrou Rubens R. Volich na sua fala durante a cerimônia, “o sonho de um é apenas um sonho. O sonho de muitos é realização”.

Este foi um momento histórico da psicossomática psicanalítica brasileira pela importância que o Instituto Sedes tem no campo da psicanálise, Instituto este que sempre acolheu e estimulou nossas atividades e foi muito receptivo a todo o processo de constituição do Departamento.

A cerimônia coordenada por Vanessa Lazaratto, membro da Comissão para formação do Departamento, foi aberta pela participação da colega Maria Auxiliadora Arantes em nome da diretoria do Instituto. Ela lembrou em sua fala que esteve como docente do curso por muitos anos desde o início. Na sequência falaram os coordenadores do curso de formação Rubens R.Volich e Maria Luiza Ghirardi, seguidos por Denise Moreira que falou em nome do Projeto. Helen Spanopoulos apresentou a história do grupo fundador, sua trajetória e o intenso trabalho exigido nessa elaboração. Fruto de encontros semanais, foi elaborado pelo grupo o regimento do Departamento a partir do material deixado por movimentos anteriores de tentativa de fundação deste. Tentativas estas que não foram a termo, dada a dificuldade para quebrar resistências institucionais que naturalmente se impõe quando se trata de instituir o novo. Foi necessária a maturação dos embriões somada à força da comissão para tornar possível a instituição do Departamento de Psicossomática Psicanalítica.

Contando com a presença de colegas e amigos de diversos setores do Sedes, a assembleia terminou com as falas destes dando as boas vindas ao Departamento e com a leitura dos carinhosos e-mails enviados por aqueles que não puderam estar presente.

Seguiu-se um animado coquetel de confraternização no qual celebramos a conquista junto aos colegas de outros cursos e Departamentos, com destaque para a expressiva participação de membros do Departamento de Psicanálise.

Para além da história o evento foi festivo e celebrou a consolidação desse sonho coletivo.

Mais informações através do e-mail psicossomaticapsicanalitica@sedes.org.br

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Livro: VERTENTES DA PSICANÁLISE - O Hospital. A violência. A Clínica e a Escrita

Maria Laurinda R. de Souza faz um pequeno resumo sobre seu recém-lançado livro da Coleção Clinica Psicanalítica organizada por Flavio Ferraz




VERTENTES DA PSICANÁLISE

O Hospital. A violência. A Clínica e a Escrita

Este livro é o registro de um percurso itinerante. Reúne textos que circulam por diferentes temas e lugares institucionais:

. O Hospital como espaço terapêutico.
. As referências para os projetos de saúde mental a partir da década de 70. 
. As marcas da cultura na constituição da subjetividade.
. As múltiplas manifestações da violência - seus excessos e banalização. . . As condições do trabalho no mundo contemporâneo.
. A delicadeza da clínica.
. As inquietações e o prazer da escuta e da escrita. 

Se fosse possível criar um neologismo a diversidade desses temas e lugares ocuparia o espaço de uma única palavra já que, entre todos, há uma imbricação e um atravessamento mais ou menos explícito. Daí a idéia de Vertentes da Psicanálise - pois se trata do relato de experiências vertidas e construídas com  as referências desse campo.

Quando terminei o livro sobre a Violência, em 2005, tinha um novo projeto: escrever sobre a amizade. A amizade e a solidariedade como contrapontos à violência, ao desamparo e à apatia. O convite amigo de Flávio Ferraz para realizar esta coletânea modificou o projeto inicial, mas, ao final, a releitura dos textos escolhidos,  tornou evidente essa polaridade em muitos deles.

Como, por exemplo, nos textos sobre o hospital onde o conflito entre o ódio e o amor se faz explicitamente presente. Ou nas análises sobre a violência onde se enuncia a necessidade de alternativas como o espaço do sonho, da palavra e da criação e o dever,  enquanto cidadãos, de lutar pela defesa da res pública, da ética e da justiça.

Ou, ainda, na singeleza com que uma criança fala de seus medos e ensaia novas maneiras de criar marcas nos outros e suportar seu desamparo. Ou me convoca à escrita da clínica ao fazer, em um de seus desenhos, um gesto de autoria, transformando um rabisco na assinatura do nome próprio.

A escrita pode, então, ser pensada como uma tentativa de deixar marcas nos outros; um desejo de criar laços, de promover encontros e, paradoxalmente, de separar-se, de seguir por outros caminhos. É, como disse Clarice Lispector (2010), um gesto de delicadeza: “Nem tudo que escrevo resulta numa realização, resulta numa tentativa. O que também é um prazer. Pois nem em tudo eu quero pegar. Às vezes quero apenas tocar. Depois o que toco às vezes floresce e os outros podem pegar com as duas mãos” (p.23 1

Este livro é também um ato de gratidão ao legado recebido dos autores que, com seus escritos, me encantaram, inquietaram e me ajudaram na construção e reconhecimento do meu lugar de analista. É, enfim, um registro das marcas deixadas em mim pelos que, com sua presença atenta, me escutaram e pelos que, desde um outro lugar, me concederam o privilégio e a possibilidade de escutá-los.

Meu desejo é que ele floresça e que alguns outros possam pegá-lo com as duas mãos.

M. Laurinda R. Souza é psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Sedes Sapientiae, professora do Curso de Psicanálise e autora do livro Violência (2005) da Coleção Clínica Psicanalítica










1 Lispector, C. Crônicas para jovens de escrita e vida. RJ: Rocco, 2010.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Coleção Clínica Psicanalítica

A Coleção Clínica Psicanalítica, organizada pelo psicanalista Flávio Ferraz, lança mais um título: Sublimação e Unheimliche. Nele, a psicanalista Alessandra Martins Parente trata dos dois conceitos que dão nome ao livro por meio de um retorno à obra de Sigmund Freud, e estabelecendo algumas relações entre esta e a filosofia de Walter Benjamin. A matéria é tratada a partir de uma perspectiva histórica, que coloca essas duas noções da psicanálise em sintonia com os períodos em que foram inventadas pelo mestre de Viena.





            Em Sublimação e Unheimliche, Alessandra Martins Parente dá dois passos em direção ao mapeamento, que pretende fazer, das categorias estéticas, existentes na obra freudiana. Segundo a psicanalista, que se dedica atualmente à pesquisa do estrangeiro em Freud, terceira e última dessas categorias, o conceito de sublimação tem sido usado de duas formas equivocadas na atualidade. Uma delas tem sido a de adotar o termo para tratar de aspectos muito distantes daqueles abordados por Freud sob tal nomenclatura. O maior exemplo dessa estratégia é, sem dúvida, o de Jacques Lacan em seu Seminário 7 – A ética da psicanálise. Ali, diz a psicanalista, observa-se um modo completamente inédito de tratar psicanaliticamente questões relacionadas à criação das obras de arte e da cultura, mas que pouco tem a ver com aquilo que o pai da psicanálise efetivamente dizia. A outra maneira é ainda mais problemática: trata-se de seu uso hoje da mesma maneira como o concebeu Freud, ainda no final do século XIX, começo do século XX. Para Alessandra Parente, essa estratégia é delicada por ser anacrônica e pouco interessante para pensar os processos psíquicos que se revertem em obras da cultura nos dias atuais. Faltava, declara, o esforço de situar historicamente o conceito, já que pensar os processos psíquicos e sociais, pelos quais se dão as formações das obras da cultura, exige uma contínua crítica histórica e política.
Observando o contexto da Viena fin-de-siècle, a autora pôde perceber os meandros do conceito de sublimação e o espírito melancólico que o envolve. Ao contrário de outras manifestações psíquicas, como os sonhos ou os sintomas, o processo sublimatório acaba por envolver os restos que resistem ao status quo com uma camada que apazigua seus efeitos subversivos. Isso ficou claro, diz Alessandra Parente, com a análise tanto da atmosfera do Império Austro-húngaro, como de obras específicas do período estudado. Uma delas foi O Édipo e a esfinge de Hugo von Hofmannsthal, vista pelo prisma das análises benjaminianas sobre o drama barroco alemão. Esse modelo sublimatório foi identificado ainda em algumas facetas do romantismo alemão, na análise de obras de Gustav Klimt e em As afinidades eletivas de Goethe, lida criticamente por Walter Benjamin. O próprio estilo freudiano traz, pelo menos até a Primeira Guerra, esse molde sublimatório carregado de alguns traços melancólicos.
                Diferente desse perfil é aquele que se desenha no fenômeno unheimlich. A psicanalista lembra da anedota, bastante conhecida, de que dentre os textos freudianos dedicados à metapsicologia, e escritos durante a Primeira Guerra, haveria um sobre a sublimação, que teria sido destruído pelo pai da psicanálise. Sua hipótese é de que, com a guerra, Freud teria percebido os limites da sublimação e, em 1919, teria recuperado as esquecidas páginas esboçadas por ele sobre o Unheimliche. Teria feito isso, alega a autora, ao notar que este paradigma seria mais coerente com os aspectos formais da cultura pós-guerra. Aqui a psicanalista dedica-se a pensar como emergem os processos psíquico-sociais existentes na concepção formal de obras da cultura, ligadas à categoria de Unheimliche. Em sua visão, eles só podem aparecer no interior da temporalidade própria à psicanálise – a Nachträglichkeit –, que teria uma relação estreita com a filosofia benjaminiana da história. Nesse momento, os processos psíquicos capazes de configurar a cultura trazem também um traço do pânico, pois há um desamparo, inerente aos terrores deixados pela guerra, que exige outros caminhos psíquicos e sociais. Nesse ponto, a autora persegue, como antes, a materialidade correspondente à categoria agora abordada, resgatando aqui outro prisma do romantismo alemão – o de E. T. A. Hoffmann –, as obras de Egon Schiele e outra peça de Hugo von Hofmannsthal – A torre.

É importante notar, ainda, que o livro traz, do começo ao fim, um delicado viés feminista. Essa perspectiva surge na medida em que seus questionamentos apontam para os limites do patriarcado, no qual estavam fundados os pilares da cultura tanto no Império Austro-húngaro, como na ideologia nacionalista que buscava justificar uma guerra imperialista, cujas consequências terríveis reverberam ainda hoje.

Alessandra Martins Parente é psicanalista e pós-doutoranda pela FFLCH-USP.

domingo, 1 de janeiro de 2017

O texto mais lido de 2016 no nosso blog: Pais para que? de Vera Iaconelli



PAIS PRA QUE? 

O termo “pais” encerra uma ambiguidade em português, podendo se referir tanto aos homens na função parental, quanto ao casal parental. Neste sentido, a pergunta do título, visa os dois sentidos, mãe/pai e pais, uma vez que um reflete diretamente no outro. 
Desde o século XV, com os problemas sociais decorrentes do descaso generalizado a que estavam submetidos bebês e crianças, que se busca uma forma de se dar conta desta população. Não havendo contracepção eficaz, o aborto colocava em risco, muito mais do que hoje, a vida da mulher e obviamente as gravidezes não respondiam necessariamente ao desejo dos pais. A massa de bebês e crianças, mortas, abandonadas e entregues aos cuidados de mães mercenárias vai se tornando um problema social que aflige a todos e onera o estado. Saídas como criá-los para se tornarem militares ou ocuparem as colônias vão esbarrando na necessidade de que os cuidados iniciais sejam suficientes para que estas crianças cheguem a idade adulta minimamente saudáveis.  Mas como sabemos, os cuidados que demandam bebês e crianças até chegaram a adquirir alguma autonomia são de tal magnitude que logo ficou claro quão oneroso seria para o estado se incumbir de tal tarefa. Feitas as contas, percebe-se que arregimentar a mulher nesta tarefa a partir do apelo da amamentação, quem melhor para cuidar do bebê do que aquele capaz de alimentá-la naturalmente?, é a solução com melhor relação custo benefícioi. A partir daí um alonga campanha encampada por cientistas, artistas e religiosos e que demoraria séculos para surtir seus efeitos de adesão das mulheres vai provando por “a+b que a mulher é a cuidadora insubstituível do bebê e da criança. Dentre suas incumbências estão a saúde física, psíquica, religiosa, intelectual e moral de cada criança. A cada uma destas responsabilidades impostas corresponde um profissional obsequioso de orientá-la e avaliá-la em seu fazer junto a criança (médico, psicólogo, padre, professor...). A contrapartida desta incumbência é um certo reconhecimento social nesta função. Uma mãe dedicada é uma boa mulher, piedosa, psiquicamente sã e moralmente louvável. O pai é o provedor e aquele que deixa espaço na agenda para que ela seja mais mãe do que mulher. Deixa tanto espaço que por vezes prefere buscar os préstimos de outras mulheres no que tange à sexualidade, que passa a estar maculada pelo imperativo reprodutor quanto se trata da esposa. 
Pano rápido e nos vemos no século XXI, época em que a amamentação não pode ser diretamente associada à sobrevivência dos bebês, a contracepção teve grandes avanços e o provedor se divide igualmente entre homens e mulheres. Caberia perguntar quem se incumbe do bebê hoje? Ainda, exclusivamente as mulheres. E quando não, trata-se do pai-arremedo, aquele que quando é bom pai é “quase” uma mãe, ou um “pãe”. 
A psicanálise também não deixa de ler a ausência da mãe como um prejuízo incontornável para o bebê e a ausência do pai como um clássico “declínio do patriarcado”. Saudosismos seculares à parte, cabe perguntar afinal, “pais pra que?”  
A constituição do sujeito implica que o recém-nascido receba do outro um desejo não anônimo para “chamar de seu”, que seja alvo de imensa dedicação e investimento narcísico, vulgarmente conhecido por amor; que herde um lugar no registro simbólico a partir de sua nomeação e que receba incansáveis cuidados e proteção ao longo de muitos anos. Tarefa incansável e árdua que implica em um entorno que sustente quem a realiza. O mesmo entorno que nos séculos precedentes vem cobrando as mulheres de realizá-la por sua conta e risco, usando o famoso “toma que o filho é seu”, e que nossa época passa a questionar. Se as condições de criação de sujeitos implicam em: desejo não anônimo, dedicação, amor, lugar simbólico, nomeação, cuidados e proteção, porque seria restrita às mulheres?  
Afinal, não é para isso que servem os pais?  
E ao Estado, que não se furta a fazer ingerências sobre o corpo feminino, arbitrando sobre contracepção, aborto e parto, batendo na tecla no feto-cidadão, também não caberia dar verdadeira consequência a esta posição assumindo integralmente os cidadãos nascidos sem estatus de filho que as gravidezes indesejadas impõem aos pais, mas acima de tudo à mulher? 
Muitas são as questões que se abrem em nossa época a partir das novas configurações parentais. A psicanálise não pode se furtar a enfrentá-las de forma aberta e reflexiva, assumindo sua vocação de estar “a altura de seu tempo”, como nos dizia Lacan, inspirado na direção ética proposta por Freud.  



[1] Para mais informações sobre este capítulo da história dos cuidados com a prole humana ocidental recomenda-se os já clássicos: 
ARIÈS, P. História social da criança e da família. 2. ed. Rio de Janeiro: LTC, 2006.
BADINTER, E. Um amor conquistado: o mito do amor maternoRio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.
DONZELOT, J. A polícia das famílias. 2. ed. Rio de Janeiro: Graal, 1986. 




Vera Iaconelli é mestre e doutora em psicologia pela Universidade de São Paulo. Coordenadora do Instituto Gerar de Psicologia Perinatal, onde realiza curso de formação, desenvolve pesquisa em psicologia perinatal e coordena a clínica social para gestantes e mães de bebês. membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae. Atua como psicanalista em clínica particular.