Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae

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São Paulo, SP, Brazil
O Blog do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae é um dos veículos de comunicação em que circulam informações, produção de conhecimento, experiências clínicas e de pesquisa de seus diferentes membros. A interlocução com o público, dentro e fora do Departamento, é uma maneira de disseminar a troca no campo da Psicanálise e possibilitar a ampliação do alcance das reflexões em pauta. Fazem parte da equipe do Blog: Adriana Elisabeth Dias, Ana Carolina Vasarhelyi, Fernanda Borges e Gisela Haddad.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Sobre o evento "O Departamento vai ao Cinema: Era o Hotel Cambridge", realizado em 21/10/17, confira hoje o texto de nossa colunista Maria Laurinda Ribeiro de Souza.

Era o Hotel Cambridge – um convite à Ocupação das ruas

Assisti a Era o Hotel Cambridge durante o evento promovido pelo Departamento de Psicanálise, no Espaço Itaú de Cinema, em 21.10.2017. Depois do filme, uma roda de conversa com mediação de Pedro Mascarenhas e Heidi Tabacof.  Além do público, a presença de Eliane Caffé (diretora do longa), Carla Caffé (diretora de arte), Carmen Silva (coordenadora do Movimento Sem Teto do Centro e figura marcante no filme), Julian Fuks (escritor e residente artístico da Ocupação), Soraia Bento (Coletivo escutando a cidade).
Pedro iniciou a conversa perguntando ao público sobre as impressões e ressonâncias provocadas pelo filme. Surgiram respostas, perguntas, comentários, silêncios. As falas apontaram para  a intensidade das cenas, para a diversidade de culturas coabitando o mesmo espaço, para o sentido dessas ocupações, a impossibilidade de fronteiras entre a realidade e a ficção, o lugar da poesia, da literatura... Julian contou um pouco de sua entrada nesse “hotel”, sua implicação com o vivido durante o tempo de convivência e a necessidade de um afastamento para poder escrever. Eliana e Alessandra Sapoznik (Coletivo escutando a cidade) marcaram, ao contrário, a impossibilidade de se afastarem. Um apelo veio em forma de convite à hospitalidade: é preciso que outros se impliquem, se solidarizem com os Movimentos Sociais e possam participar com seus conhecimentos e aptidões.  Fátima Vicente respondeu oferecendo o atendimento para crianças da Ocupação. O próprio evento já era uma resposta solidária do Departamento ao se abrir para outros espaços e convocar-nos para conhecer mais de perto a realidade dessa luta.
Para além da evidência imediata desse apelo – o atendimento à necessidades prementes –,  é sobre outro aspecto que quero demarcá-lo. Ele se liga à fala de Carmen Silva quando conta um pouco de sua história: a chegada à São Paulo, a expectativa de encontrar um lugar onde a vida lhe fosse mais favorável. Sua desilusão e desamparo. Uma narrativa onde se vislumbram as necessidades não atendidas e a solidão numa cidade inóspita e pouco receptiva. Mas há uma virada significativa em sua vida quando ela descobre e passa a fazer parte dos Movimentos que reivindicam moradia. Sua participação no filme, liderando as assembleias e as formas de ocupação, convocando para a conversa com a juíza e criando estratégias de resistência, organizando a “festa” da próxima ocupação, para que o despejo anunciado não os deixe sem teto novamente: “corra, corra, entre em sua casa, a casa é sua”, é a imagem de uma potência reconquistada. Aqui o que me impressiona, mais uma vez, é o valor do coletivo, do comum. E é a isso que o apelo anunciado nos convoca: a que retomemos os coletivos, o trânsito pelos espaços da cidade, a quebra dos isolamentos paranóides, a participação nas causas que reivindicam o bem comum, os direitos humanos fundamentais – saúde, educação, moradia, trabalho, liberdade de expressão.
Assisti ao filme uma segunda vez. De  novo me inquieto com as primeiras imagens: os prédios vazios, abandonados, pichados. Agora, elas estão contaminadas pela lembrança do final do longa – que havia provocado em mim o silêncio traumático – a reação violenta do Batalhão de Choque da Polícia Militar e a semelhança com cenas da rua vividas na época da ditadura civil-militar –, é como se o vazio dessas imagens me remetesse, novamente, ao risco de transitar pela cidade. Mas a narrativa sobre o sentido da Ocupação e as histórias que vão sendo construídas naquele coletivo tão diversificado modificam meu olhar e meus afetos.  Ao final do filme, um outro impacto: presto atenção na passagem dos créditos e me surpreendo: quanta gente participou desta produção! Ele próprio é um coletivo!  E, de fato, é assim que ele foi apresentado logo no início: um filme construído a partir de coletivos: os estudantes de arquitetura da Escola da Cidade, a Frente pela Luta por Moradia, o grupo de refugiados. Eliane afirmou que os não-atores co-escreveram o roteiro e que sem eles o filme não poderia ser feito.
Esses que fazem dos prédios vazios sua casa não o fazem porque são “invasores” ou “vagabundos que não querem trabalhar”. As ocupações não são invasões! São formas de luta, são resistências, potências de vida que não se deixam matar pela perversidade de um sistema que prega o empreendedorismo, que elimina direitos sociais, que propõe reformas trabalhistas e previdenciárias indignas e injustas.
É para essa realidade, escancarada nas ocupações, nos 14 milhões sem trabalho, no “genocídio” de crianças e adolescentes (em sua maioria pobres, pretos e da periferia) que é preciso insistir no olhar.  Quando este se volta para a censura nas exposições artísticas, para a proibição do reconhecimento das diversidades de gênero, para a conquista possível de mais propinas a fim de manter a impunidade pelos crimes cometidos e aprovar medidas que aumentam o desamparo da maior parte da população brasileira, é porque já passamos da hora de OCUPAR as ruas. O silêncio e a não-ação mortificam a alma.

Maria Laurinda Ribeiro de Souza é psicanalista e membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae.



quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Experiência do psicanalista Ricardo Gomides, com o texto "O outro em nós. Analisando o cotidiano através do acompanhamento terapêutico".

Dando continuidade aos textos sobre Acompanhamento Terapêutico, confira agora no blog a experiência do psicanalista Ricardo Gomides, com o texto "O outro em nós. Analisando o cotidiano através do acompanhamento terapêutico".

A imersão na cultura gera efeitos surpreendentes. Com o tempo, podemos ser contagiados por gostos alheios, modos de agir estranhos a nossos hábitos e, não raro, até emitimos juízos com os quais não concordaríamos posteriormente. Os afetos investidos em amigos, colegas de trabalho ou familiares trazem a reboque possibilidades de identificações com outros valores, tornando a vida psíquica um trânsito singular de opiniões e posturas que passamos de um a outro como moeda destinada ao reconhecimento mútuo ou pertencimento grupal. Sem grande crítica, às vezes mantemo-nos na rede de trocas repetindo enunciados que se passam por nossos apenas enquanto os encaminhamos ao outro tal como nos chegou.
Quando os afetos tornam-se agudos e surgem polarizações maciças, penso que tal rede adquire uma viscosidade pregnante, fazendo circular posições que, em tempos brandos, jamais teriam lugar. Acredito que vivemos tempos assim, sem grande afastamento crítico e com certa imaturidade para lidar com a diferença divulgada profusamente nas mídias sociais. É possível aderirmos aos humores extremos levados por laivos identificatórios que marcam nossa permanência grupal por imersão. Se esta permanência é mantida por longo tempo, tal identificação inicialmente fraca pode gerar os efeitos de uma significativa transformação psíquica, tornando a presença do outro um traço de caráter permanente em nós, tal como sugerido por Freud (1923) em O Eu e o Id.  
Ainda que esse trânsito em meio à cultura seja sempre fluido, no mais das vezes não atentamos para os efeitos desta presença sobre nós. O exercício da crítica não é uma prática cotidiana e mesmo no espaço privilegiado da análise, por exemplo, geralmente temos assuntos mais urgentes para tratar do que esta influência. Dores da alma doem demais, urgem demais, redundantes como são.
Penso que um jeito de talvez nos atentarmos para esta presença seja pedir auxílio a um estrangeiro. Alguém de outra localidade, outro tempo, quase alheio ao nosso mundo para que, assim, possamos saber do nós onde não nos sabemos. A semelhança não é gratuita: penso em um analista da cultura, disponível para trabalhar no dia-a-dia. Alguém capaz de escutar o cotidiano com a justa medida de imersão e distância simultâneas.
Como os tempos culturais hoje ressoam a agressividade, incompreensão, intolerância, funcionalidade extrema, preconceito e indiferença, a tarefa é das mais urgentes – tão urgentes quanto tratar daquelas outras dores, aquelas que, por apego à subjetividade, custamos a creditar suas origens também ao mundo que nos cerca. E onde encontrar um analista assim disponível, para nos escutar e curar em ato, na ordem do dia, bem quando a cultura nos tomar e nos fizer outros, alheios à nossa crítica? Como recorrer a esta escuta quando tal imersão fizer de nós algo pior do que conseguimos sozinhos?
Bem, o melhor que encontrei tem nome e às vezes me atende quando dele vou cuidar: o louco. É fazendo acompanhamento terapêutico (AT), esta clínica realizada no cotidiano, que tenho encontrado um analisador dos melhores. Junto aos meus pacientes, trago-os um pouco para cá, retirando-os muitas vezes da distância abissal que se encontram deste nosso mundo. O cárcere silencioso de uma posição de nulidade familiar tem seus efeitos. A história incontável de um filho que nunca nasceu, porque o pai teria ordenado um aborto, reverbera tolhendo os passos, ainda sob a guarda deste mesmo pai. Escutar estas histórias, encontrando no mundo guarida para elas é tarefa de acompanhantes terapêuticos. Estes agentes clínicos que cuidam dando ouvidos e corpo às falas, posto que é em movimento, pela cidade, que criamos saídas para o claustro objetivo-subjetivo. Neste exemplo, o pai, aquele que mora em casa e no delírio, torna-se menor, menos investido, na medida inversa de quanto maior se fizer o mundo compartilhado por acompanhante, paciente e a cidade ao redor.
Acredito que uma das mais valiosas contrapartidas obtidas no AT é ingressarmos em um mundo sob ligeira suspensão enquanto trabalhamos. Não há como ser de outra forma, pois, se histórias de desterro ganham voz e companhia em meio ao social, desprotegidos de qualquer setting, a realidade mesma se alterará à nossa volta, sob o impacto da voz alquebrada que acolhemos. Os pacientes saem de abismos e coabitam este mundo. Eu, sob tal transferência, também sou retirado um pouco desta nossa terra – terra de trilhos, nos quais corremos ágeis, apressados, exaustos e míopes.
Certa vez, a analista de quem tenho falado aqui, fez uma interpretação simples e marcante, como convém às boas. Ela, psicótica como só, discorria sobre a perseguição familiar e as más intenções de seus pais para com ela e o filho não nascido. Assunto que eu escutava na padaria, enquanto almoçávamos no bairro dos Jardins.
Lembro-me bem e todos sabem do que estou falando.  As mesas lotadas, a impaciência no ar, o ambiente repleto de funcionários de escritórios ou lojas, aguardando a chance de usar o tíquete-alimentação antes de voltar ao trabalho. Eu e minha paciente, compartilhando o alheamento da psicose, almoçávamos servidos pelo banquete do delírio. A refeição estava ótima.
Eis que ela resolve cumprimentar o cozinheiro. Algo tão bem feito quanto aquele purê de batatas devia ser reconhecido. Neste ponto começa a inversão. Capturado pela cultura, preso à pressa estampada no rosto das pessoas, ligado ainda à corda do relógio que nos transforma em cucos, não pude compreender a proposta de minha analista. Questionei: “Não, não dá. Aqui o cozinheiro não é o chef, é o cozinheiro mesmo, atrás do fogão, mexendo panelas. Estamos em uma padaria na hora do almoço. Não dá para chamar o cozinheiro”.
Ela, impassível às minhas ligações culturais alienantes, insistiu, dizendo ao garçom o que queria. Achei que nada aconteceria e segui minha refeição, mais atento à sua história do que aos movimentos com os quais ela interpretaria aquele fragmento de cultura.
Passados alguns minutos, chega à mesa o cozinheiro vindo de algum lugar nos fundos. Chega com a típica roupa branca-encardida de trabalho. Retira docilmente a proteção dos cabelos, cruza braços e mãos atrás do corpo, dobrando-se de maneira servil. Assustado, pergunta se o tínhamos chamado e se havia algo errado. Temia uma bronca, certamente.  
Calorosa, minha analista toca no braço dele, fazendo-lhe um carinho enquanto dizia: “Não, meu amor, não tem nada errado. Eu só te chamei para te agradecer. Para dizer que a comida está ótima e que você está cuidando muito bem da gente. Muito obrigada pelo carinho que você colocou aqui, tá? Está uma delícia a sua comida”.
O moço ficou sem palavras. Talvez fosse a primeira vez que o tivessem chamado à mesa, especialmente para um elogio tão sincero e direto. Alguém reconheceu no sabor da comida o carinho de um trabalho. Além disso, devolveu-lhe um traço importante de sua ocupação: ele, na cozinha, cuidava de todos nós ali, que havíamos nos deslocado para receber o alimento que ele havia preparado. Com o choque, o moço não conseguia se mover. Apenas depois dela pegar sua mão e dar aqueles dois tapinhas carinhosos e finais é que ele entendeu que podia voltar à cozinha.
Eu, de minha parte, também me dera conta de quão chocante é alguém sair da lógica impermeável da funcionalidade contínua – esta lógica que faz dos espaços de vida extensões de trabalho e consumo que devem funcionar sem interrupções. A organização dos espaços e das relações é marcada pelo distanciamento operacional: eu entro, consumo, pago, vou embora. Sem perceber, minha fala servia à manutenção deste papel operacional. Do outro lado, quem trabalha estaria ali para servir de modo eficiente. O salão deve girar o mais rápido possível. É assim que se dança em um restaurante no horário de expediente. O carinho, o reconhecimento, o vínculo emocional entre pessoas, por mais fortuito que seja o encontro, não deveria ocorrer.
Fiquei envergonhado com a presença da cultura a me suspender pelos ombros, deixando-me seco como a uma camisa estirada no cabide de uma lavanderia, movendo-me impessoalmente nesta ordem fluida e maquinal, como se estivéssemos todos embalados em plástico.  
Eu, um acompanhante terapêutico já experiente, que sei da lógica manicomial que constrói muros em todos os lugares, segregando e silenciando a diferença; eu, crítico a esse respeito, me vi dissolvido no ambiente, tomado pelo vínculo com uma ordem que ultrapassa meu corpo, habita-me inadvertidamente, fazendo-me estranho a mim.
Agradeci à minha analista por desconsiderar os apelos que fiz em nome da ordem funcional. Agradeci por ela me lembrar a importância de deter o curso veloz do tempo para lançar ao outro a mão larga e quente de um reconhecimento. Vi no espanto daquele moço o inusitado de um acontecimento. Imagino o sorriso em seu rosto em qualquer hora do dia, lembrando-se do afago agradecido de uma pessoa. Fantasio os efeitos que um gesto assim pode ter deixado em seus sonhos. Suspeito que algo desta natureza esteja em falta no curso dos dias atuais, quando nos tornamos impassíveis diante do outro, emitindo juízos que atropelam a cordialidade e nos fazem esquecer a comunidade de que todos fazemos parte.
Urge um analista que nos faça lembrar de duas presenças possíveis em nós: a silenciosa e imperativa ordem funcional que nos torna violentos e indiferentes aos demais; a possibilidade sempre aberta de atentarmos para isso, dando corpo à gentileza de que somos capazes, tornando o trato com o outro matéria de reconhecimento mútuo. Quem sabe assim, possamos dar à vida espaços mais afáveis de convivência.


Ricardo Gomides é psicólogo, psicanalista, acompanhante terapêutico. Doutor em Psicologia e membro-aspirante do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae.




segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Acompanhamento Terapêutico no Envelhecimento: uma clínica política

Nesta semana, o blog publica dois textos sobre o trabalho de Acompanhamento Terapêutico. Confira agora a experiência da psicanalista Camila Morais, com o texto "Acompanhamento Terapêutico no Envelhecimento: Uma Clínica política".




Acompanhamento Terapêutico no Envelhecimento: uma clínica política
                                                                                                                    Camila Morais


O Acompanhamento terapêutico (AT), pratica clínica de origem latino-americana, surgiu no campo da saúde mental a partir da necessidade de produção de novos dispositivos de tratamento visando o enlaçamento da loucura ao contexto social. Esta é uma modalidade de atendimento clínico que ocorre fora do setting tradicional (consultório), tendo a rua, a casa do acompanhado e outros tantos espaços públicos e privados que fazem parte do cotidiano, como erritórios para suas intervenções.
No Brasil, depois do golpe militar de 1964, vivemos sob a ditadura por cerca de 20 anos. Este acontecimento rompeu com um processo de abertura que vinha ocorrendo no campo da saúde mental, quando as comunidades terapêuticas surgiram no país. O fechamento destes espaços fez com que restasse aos profissionais da área, uma única alternativa em momentos de intensificação do sofrimento dos pacientes em crise: a internação nos hospitais psiquiátricos.
No final da década de 70, ocorreu uma forte mobilização dos profissionais da saúde mental e dos familiares de pacientes com transtornos mentais, culminando no movimento da luta antimanicomial, marcado pela defesa dos direitos humanos e do resgate da cidadania. Ligado a esta mobilização, surgiu o movimento de Reforma Psiquiátrica que denunciava os manicômios como instituições de violência e propunha novas formas de tratamento em uma rede de serviços de base territorial e comunitária. O AT surgiu neste contexto colocando a loucura na cidade e subvertendo a lógica asilar do isolamento.
Com cerca de 40 anos de existência, esta prática ampliou seu alcance para outros campos além da saúde mental, entre eles, o campo do envelhecimento. Loucura e velhice tem percursos que se articulam historicamente pela via da exclusão, da marginalização e do silenciamento. Segregação que toma forma, em muitos períodos, por meio da institucionalização em um modelo asilar. Durante os últimos dois séculos, o envelhecimento foi um tema marginal no campo das questões sociais e da saúde mental. O advento da modernidade, consolidado com a revolução industrial e o desenvolvimento do capitalismo, tem como paradigma o valor calcado na produção e geração de riqueza. O velho como aquele que não tem mais capacidade produtiva acaba marginalizado, torna-se objeto da caridade social e sua imagem fica atrelada à ideia de doença, pobreza e ócio.
Estamos passando por um período de transição alavancada pela questão demográfica que encara o envelhecimento como uma preocupação social. A velhice ganha visibilidade, ainda que como um problema a ser resolvido. Surgem outras imagens para a velhice; ideais tais como o da velhice ativa que produzem outras exclusões, mas abrem a possibilidade de um lugar em contraposição ao não lugar anterior.
Em nosso país, as lutas de diversos movimentos sociais obtiveram importantes conquistas, como o sancionamento de políticas públicas direcionadas aos idosos que proporcionam a criação de diferentes dispositivos institucionais, não somente asilares, entre outros direitos fundamentais. O idoso segue resgatando o lugar de cidadão, de ator social em um campo onde ainda estão presentes muitas lógicas de exclusão produzidas historicamente no bojo de um conjunto de valores culturais que atravessam o campo subjetivo de forma singular.
O Acompanhamento Terapêutico no envelhecimento passou a constituir um modo de atuação com contornos mais claros a partir da associação de interessados neste campo e na clínica do envelhecimento em meados de 2006. Desde então, o Núcleo de AT no Envelhecimento da Ger-Ações: Pesquisas e Ações em Gerontologia vem se dedicando a pensar as particularidades da prática do acompanhante terapêutico (at) neste campo, contribuindo com produção teórica, eventos científicos, encontros de transmissão de saberes, espaço de trocas clínicas, entre outros. Neste texto falo em nome deste grupo e do trabalho coletivo que temos construído ao longo destes anos.
Em nossa cultura, a violência da exclusão se apresenta de diversas maneiras no cotidiano: nas relações de cuidado, quando o idoso se submete ao outro temendo o abandono; quando um equipamento de saúde trata o que seria um direito como se fosse um privilégio e discrimina; quando na mesa de jantar da família o idoso não encontra interlocutores, entre tantas outras situações. O acompanhante terapêutico testemunha essas variadas formas de violência da exclusão contra o idoso, as quais, muitas vezes, se manifestam de forma silenciosa.
No campo do AT no envelhecimento, a ética que norteia a nossa clínica está intimamente entrelaçada com a ética da Psicanálise. Nos dispomos a escutar o sujeito na radicalidade da experiência de estar junto, a qual literalmente se dá no lado a lado, possibilitando ao acompanhado a apropriação de si e de sua história. Assim como a Psicanálise, o Acompanhamento Terapêutico surge como uma prática subversiva no campo da saúde mental. Tanto no contexto da loucura, quanto no do envelhecimento, o AT se mostra como um dispositivo que vai contra o instituído e que busca subverter as lógicas de exclusão produzidas e, por vezes, arraigadas no social, por meio de valores culturais que atravessam o campo subjetivo.
Uma dimensão ética fundamental desta clínica política no campo do envelhecimento, é a busca por abrir espaço de existência plena ao sujeito, através da escuta de sua história de vida, desejos, anseios e necessidades. Esta escuta, aliada a uma potência criativa e flexível, abre espaço para ressignificações e possibilita ao acompanhado novos modos de relação. 
Justamente por estes dois aspectos, o de uma prática subversiva e o de um dispositivo que vai contra o instituído, que podemos considerar que o AT carrega a importante dimensão de uma clínica política. O acompanhante terapêutico é a figura articuladora desta relação, no exercício daquilo que é uma de suas marcas, o posicionar-se no entre, ocupando territórios de fronteiras.
Por fim, gostaria de ressaltar que é fundamental que tenhamos um posicionamento crítico a respeito da velhice e do processo de envelhecimento, a partir de uma compreensão sobre como as situações sociais, políticas e econômicas reverberam na produção da subjetividade. Podemos fazer uma clínica de acordo com os princípios do poder dominante ou uma clínica cujo projeto é a sustentação de novas formas de existência e de subjetivação. Nos dias atuais, com a volta de tantos discursos conservadores, higienistas e excludentes, podemos considerar que a clínica que vai contra o instituído, assim como a clínica do AT, se coloca como uma prática de resistência.



Camila Morais: Psicanalista, Terapeuta Ocupacional e Acompanhante Terapêutica. Mestranda em Psicologia Clínica pelo IPUSP. Coordenadora do Curso de Formação em Acompanhamento Terapêutico Cont.AT.o. Membro da Ger-Ações, na qual faz parte do Núcleo de AT e da coordenação do Curso de Psicogerontologia.




quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Seção de cine resenhas sobre o filme Mãe do diretor Darren Aronofsky

“Mãe!”, de Darren Aronofsky
Sérgio Telles

O espectador sente um crescente incômodo durante a exibição de “Mãe!” (2017), último filme do premiado diretor Darren Aronofsky, autor do bem sucedido “Cisne Negro” (2010). Talvez por não conseguir enquadrá-lo de imediato em nenhuma das categorias às quais está habituado. Seria esse um filme realista ou surrealista? Seria um filme de suspense, um drama psicológico, um policial, uma grande farsa? Tampouco consegue ele se identificar com as situações e personagens, o que o deixa confuso e perdido.

Vemos um casal, formado por um homem maduro e sua jovem mulher, morando numa grande casa antiga que ela está restaurando sozinha, algo que de imediato soa estranho, pouco verossímil. A casa se situa na clareira de uma mata, cercada de árvores por todos os lados. Ele é um conhecido poeta que procura a reclusão visando reencontrar a inspiração, vencer o bloqueio que o impede de escrever. Ela zela pela casa e pelo conforto do marido. Mas logo eles começam a receber visitas inesperadas de desconhecidos que se transformam em hóspedes, à revelia da dona da casa, mas com a total beneplácito do proprietário, para a perplexidade dela e dos espectadores. O incessante e crescente afluxo de visitantes instala o caos na casa, até a explosão que a destrói, provocada pela mulher.

As situações bizarras, as reações desconcertantes do personagem principal, o poeta, tudo impõe ao espectador o trabalho de interpretação. Como entender sua infinita tolerância e complacência, sua ilimitada hospitalidade que não leva em conta os apelos da mulher? Estaria ele louco? E quem são aquelas pessoas, o que elas querem, o que significa tudo aquilo? A própria casa aos poucos mostra peculiaridades surpreendentes, as paredes parecem respirar, têm feridas, cicatrizes, responde como um corpo orgânico vivo reagindo às intempéries. 

A confusão permanece até o fim, quando num bom exemplo do que nós psicanalistas chamamos de “compreensão a posteriori” ou “posteridade” (em francês “après-coup” ou “Nachtraglichkeit”, em alemão), de repente entendemos tudo, as peças do quebra-cabeça até então misturadas se encaixam e o quadro se apresenta em sua evidência última e definitiva.

Aquilo que até então nos parecia uma obra manqué, mal executada, bisonha, um passo em falso de Aronofsky, que é seu roteirista e diretor, entendemos ser uma escolha deliberada, uma narrativa na qual situações e personagens não facilitam a identificação costumeira dos espectadores, algo arriscado que poderia fazer fracassar o projeto e que fica caracterizado especialmente pelo uso frequente da câmera fechada no rosto da atriz, artifício que gera no espectador uma sensação claustrofóbica, de estar fechado num espaço pequeno, de não ter a visão do todo, de não conhecer o contexto geral – como de fato ocorre, desde que o espectador não entende bem o que está acontecendo, tal como acontece com a personagem, cercada de estranhos que a ignoram ou desconsideram.

Quando compreendemos, ficamos rendidos pela ousadia de Aronofsky em enfrentar um tema tão abrangente, empreendimento que poderia ser excessivamente pretensioso, mas no qual, no frigir dos ovos, saiu-se muito bem. Ele cria uma espécie de cosmogonia, na qual representa a relação de Deus com os homens em sua versão judaico-cristã. Nela alinhava dois episódios decisivos do Primeiro e do Segundo Testamento: a chegada de Adão e Eva com seus filhos Caim e Abel, e o nascimento de Cristo com seu subsequente sacrifício que deu origem ao sacramento da comunhão, no qual é ingerido pelos seguidores.

Para tanto, Aronofsky mostra as incongruências das relações entre os homens e a divindade.  Enquanto a mulher vive ansiosa buscando uma relação de exclusividade com ele (deus) e em zelar por sua propriedade, ele se interessa por todos e é indiferente à propriedade, a casa está aberta e todos tem livre acesso a ela. Mas este é também um deus autocentrado, narcisista, que goza ao ser adorado por suas criações, indiferente ao destino individual de cada um e impassível frente aos desvarios da humanidade, como os que ocorrem de forma alegórica na própria casa, sem que ele procure impedi-los - o aparecimento dos rituais religiosos e o fanatismo que deles decorre, levando a manifestações de violência como nas guerras, na segregação, nos campos de concentração, nas massas ensandecidas à procura de um pai que as guie e console. Um deus que, em sua posição desumana ou sobre-humana, permite o sacrifício do filho e deixa que a multidão o devore e, quando a mulher – mãe! – reclama, ele diz apenas que daquela tragédia poderá nascer algo valioso.

No diálogo final, o escritor -  Deus - diz que só sabe criar, só pode fazer isso. E de fato, contrapondo-se à destrutividade dos homens, que se matam e eliminam mesmo aquilo que consideram o mais sagrado, só resta a infinita criatividade divina, estabelecendo com isso o ciclo infindável de criação e destruição que se observa não só entre os homens, mas no próprio universo,  conceito muito bem construído no filme, na medida em que ficam equiparados o começo e o fim.

Uma outra alegoria possível da casa, viva e pulsante, é o nosso planeta Terra. A proposta do diretor não deve ser vista como apenas mais um produto politicamente correto. É muito mais uma reflexão sobre a condição humana, a procura de um deus pai que garanta que nossa própria destrutividade não prevalecerá, que ela será contraposta pela criatividade que precisamos acreditar que está em deus, quando, na verdade, ela está também em nós. O próprio título do filme “Mãe!”, um tanto enigmático, indicaria isso. Remete evidentemente a Maria, a que dá luz ao filho de Deus para que os homens o destruam e posteriormente o comam no maior dos sacramentos do cristianismo, mas também, de maneira mais abrangente, representa a própria criatividade. A mãe é um grande símbolo da criatividade humana. 


Sergio Telles é psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Sedes Sapientiae e autor dos livros O psicanalista vai ao cinema volumes I, II e III, entre outros.    

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Ainda sobre as manifestações de repúdio à chamada "Cura Gay"

AINDA SOBRE AS MANIFESTAÇÕES DE REPÚDIO À CHAMADA "CURA GAY".

Cristina Petry

Como amplamente divulgado, a decisão do juiz Waldemar Cláudio de Carvalho da 14ª Vara de Justiça do Distrito Federal em 15/9/2017, através de uma liminar que suspende parte de uma resolução do Conselho Federal de Psicologia (CFP - Res.: 001/1999) em que está proibido expressamente que psicólogos exerçam “qualquer ação que favoreça a patologização de comportamentos ou práticas homoeróticas” e veta “eventos e serviços que proponham tratamento e cura das homossexualidades”, provocou uma intensa onda de manifestações de repúdio nas mídias existentes e nas rodas de conversas, justamente pelas já conhecidas possíveis e abomináveis consequências deste ato, como por exemplo: sentimentos de inadequação, rejeição social, bullying, depressão, suicídios, internações compulsórias de adolescentes, medicalização desnecessária, entre outros. 

Nós, profissionais da saúde, sempre nos propusemos a atender casos de homossexualidades pelos efeitos de sofrimento que isto pode causar no Sujeito, na medida em que ele nos procura espontaneamente; porém, não se trata de reverter a homossexualidade, mas sim de tratar as angústias que podem advir de problemáticas geradas, acima de tudo, por conta do preconceito e intolerância sofrido por estas pessoas, cujas identidades de gênero e/ou orientação sexual elas mesmas têm de aprender a lidar. 

Por outro lado, uma onda que vem se destacando pela brutalidade desmedida expressa nos preconceitos postos em ato, defende a repressão do que, em última instância, trata-se de a sexualidade humana. Tema que desde os primórdios acabava por ficar relegado ao silêncio. 

Freud já afirmava em 1935 que não considerava a homossexualidade uma doença e que não confiava numa possível reversão da mesma. Embora a Organização Mundial da Saúde tenha retirado a homossexualidade da lista de doenças somente em 1990, o próprio Conselho Federal de Psicologia a havia retirado em 1985 da lista de transtornos mentais, assim como o Conselho Federal de Medicina no mesmo ano desclassificou a homossexualidade de ser um “desvio e transtorno mental”. Já a Associação Americana de Psicologia o havia feito desde 1975 e a Associação Americana de Psiquiatria desde 1973. 

Entendemos que o Juiz de Direito, ao tomar uma decisão, deve levar em conta o que é expresso nos autos e na Lei; parece ser desta maneira que Waldemar C. de Carvalho justificou a sua liminar. No entanto, sabemos que esta determinação é passível de interpretações variadas e pode vir a oferecer brechas para que haja propaganda enganosa de cura, internações compulsórias e instigar o acirramento de preconceitos, além de as mais variáveis atitudes agressivas provenientes da intolerância. Portanto, é preciso que o CFP recorra da ação, providência que já está em andamento, e é preciso também que todos os colegas da área, que lidam no seu cotidiano com pessoas atingidas por esta resolução, se manifestem a respeito. 

Existe um viés nessa discussão que vai além desses seus efeitos no social, pois embora haja uma tendência a realizar interface entre as áreas, o debate entre o que se entende ser as estruturas de poder, ou seja, religião, política e ciência, parece não avançar no diálogo e na compreensão do que é inerente às necessidades humanas. A religião, por tratar de dogmas, desconsidera as mais diversas comprovações científicas; permanece alienada no seu papel puramente doutrinário, porém usando cada vez mais dos meios políticos para exercer a sua influência. Conforme avalia o diretor do CFP, Pedro Bicalho, o que está em jogo é o Estado democrático de direitos nesse processo crescente de judicialização do cotidiano. 

A psicóloga e evangélica Rozangela Alves Justino, que já em 2009 sofreu um processo de censura pública pelo Conselho Federal de Psicologia por tratar a homossexualidade como distúrbio, cuja ação prega o que ficou conhecido como a “cura gay”, não aponta nesse processo que move junto a outros contra o CFP, evidências científicas de que isto seja possível. No entanto, parece ser possível haver interesses escusos na sua nomeação como assessora do deputado Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ) - ligado ao pastor evangélico Silas Malafaia que, segundo dados apontados pelo cientista social Leonardo Rossato, é dono de diversas clínicas de recuperação...


Cristina Petry é psicóloga clínica e psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, da Comissão de Admissão, do grupo de trabalho que elaborou e implantou o antigo Núcleo de Referência às Psicoses da Clínica Psicológica, da equipe clínica de Projetos da Clínica Psicológica do Sedes Sapientiae e do Convênio Sedes/CETESB onde prestou serviços como psicóloga autônoma contratada. Participa dos grupos de Leitura e Pesquisa: Anorexias e Bulimias, Novas Configurações Familiares, e Casos Clínicos de Freud acompanhados de comentários de Lacan.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Breve homenagem à obra de Wagner Schwarz

Breve homenagem a Wagner Schwarz

Alessandra Affortunati Martins Parente






Na década de 60, Lygia Clark e Hélio Oiticica embarcaram em experimentações artísticas revolucionárias. Retirando a primazia do olhar sobre os outros sentidos, criaram obras nas quais estavam presentes sonoridades e aromas. Também tinham parte nas diferentes peças a sensibilidade tátil e a participação corporal dos visitantes – a ideia era evidenciar como estes não eram meros espectadores, mas integravam os trabalhos artísticos. Obras construtivas de vanguarda transformaram-se em objetos destituídos dos limites do quadro. Materializar o que se mantinha no registro virtual significava profanar a arte moderna, reduzida aos moldes que a sacralizavam. Salto que atravessava molduras, detentoras de representações sublimadas, para atingir os mais diversos fluxos do corpo. Em suma: um rasgo de invólucros limitantes para conquistar amplitudes sensoriais imprevisíveis. Penetrar, manusear e vestir obras eram gestos que arrancavam da arte sua posição elevada ou transcendente para aloca-la nas mãos e nos corpos de qualquer um.

Epígono de Oiticica e Clark, Wagner Schwarz desdobra em performance o que antes era objeto de arte. O artista já se ocupava dos Transobjetos de Lygia Clark quando visitou uma exposição em Paris. Lá defrontou-se com um dos Bichos (1960) da artista envolvido por uma caixa de acrílico. Em sua performance, inspirada na série Bichos, Schwarz traz à cena a carne daqueles objetos artísticos – seu próprio corpo. Disponibiliza-o para manuseio, como Lygia Clark fez com seus Bichos. O corpo intensifica a obra de Clark e outras fronteiras rígidas do campo artístico se dissolvem. No encontro entre artista e espectador, promovido pela performance, surgem questões como: Quais os limites entre cultura e natureza? De quem é, afinal, o corpo que costumo considerar meu? Qual é o perfil exato da figura humana? Ali a matéria corpórea do artista assume formas múltiplas. O que se observa são inúmeros desenhos, cujas linhas são traçadas pelo visitante ao manipular a carne do artista. Esses contornos inéditos, que se apresentam durante a performance, dilatam estruturas físicas, presas a normatividades sufocantes. Vídeos na internet são capazes de mostrar a beleza de La Bête – a delicadeza dessas linhas corpóreas que esboçam figuras inesperadas.

Com formação extensa em dança e diversas obras performáticas no currículo, Schwarz oferece seu corpo para esgarçar as fronteiras da linguagem. O artista carioca não se restringe a um único gênero artístico. Seus percursos literários carregam essa experiência corpórea da dança e da performance. Em seus textos, as palavras também respiram conforme o movimento – a escrita é trabalho corpóreo, como já definia Lygia Clark.

Língua incompreensível, porém, àqueles que vociferam pedófilo, safado, sujo, porco, pervertido, vagabundo. Na frente do MAM-SP ou da exposição Queermuseu estão os mesmos sujeitos defensores da moral e dos bons costumes. Importante notar, como muitos internautas já salientaram, que a preocupação não é de fato com as crianças “abusadas” nos museus. Fosse isso, teríamos manifestações Brasil afora em lugares nos quais efetivamente ocorreu violência sexual. Um único exemplo é capaz de ilustrar o disparate dos argumentos desses manifestantes. No dia 15/08/2017 houve uma denúncia contra agentes socioeducativos da Fundação Casa de Parada de Taipas que teriam cometido atos de violência sexual contra meninas que cumprem pena ali (https://goo.gl/rtvdvG ). Nenhum desses manifestantes esteve lá.

É ingenuidade insistir na velha tecla iluminista e considerar que falta aos censores de plantão o banho esclarecedor do conhecimento. É preciso reconhecer: há um projeto intelectual entre os conservadores. Ele é contrário aos direitos humanos universais e à civilização global. Uma agenda antidemocrática, capaz de sufocar as conquistas pós-68, parece ser o que dá o tom aos discursos mais reacionários. Símbolos, valores, representações culturais emergem nessas vozes. O que existe, por conseguinte, é uma batalha simbólica e discursiva, movida sobretudo por afetos e valores arraigados. Gritar em frente ao MAM ou ao Santander Cultural é parte dessa briga simbólica, cujas consequências efetivas não são nada desprezíveis.


Como psicanalistas, cabe-nos a tarefa de explicitar as camadas mais recônditas dos afetos envolvidos nessa disputa, defendendo a liberdade sexual e de expressão, bem como a igualdade de condições para uma vida digna entre todos os cidadãos. Não temos mais tempo a perder. Mãos à obra.


Alessandra Affortunati Martins Parente é psicanalista e pós-doutoranda (FFLCH-USP).


* imagem de La Bête de Wagner Schwarz:http //www.miguelarcanjoprado.com/2016/04/06/que-bom-que-houve-essa-abertura-diz-wagner-schwartz-no-festival-de-curitiba/
** imagem de Bichos de Lygia Clark: http://www.revistacliche.com.br/wp-content/uploads/2013/05/2855.jpg

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Queermuseu, MAM e o que será da vez do MASP? Fascismo e fanatismo à brasileira - Maria Silvia Bolguese

Arte, cidadania e política são temas que nos últimos meses estão em destaque e tem gerado grandes polêmicas, provocado censura (encerramento de exposições, de peças de teatro, protestos cerceadores em frente a museus), mas também manifestações a favor da liberdade de expressão (nas redes sociais e em outros meios de comunicação). O Blog publica esta semana dois textos sobre esse assunto. Confiram hoje o ótimo texto da psicanalista e colunista do Blog Maria Silvia Bolguese, membro do nosso Departamento: Queermuseu, MAM e o que será da vez do Masp? Fascismo e fanatismo à brasileira.

Queermuseu, MAM e o que será da vez do MASP?
Fascismo e fanatismo à brasileira.

Maria Silvia Bolguese


O site Gospel Prime exibe a manchete: “Exposição coloca imagens de Jesus ao lado de pedofilia e zoofilia.” Na matéria, em que aparece ‘queermuseu’ traduzido por museu transviado e o banco que abrigava a exposição ganha a alcunha de ‘Satãder’, é lançada uma petição de ‘Repúdio à exposição blasfema’, e uma acusação é feita ao movimento LGBT por supostamente usar a bandeira da intolerância para escarnecer, atacar e vilipendiar aquilo que outros consideram sagrado e, ao mesmo tempo, não tolerar nenhum tipo de crítica.

Mesmo mencionando a posição do presidente do banco, que afirmara que a exposição intitulada ‘Queer museu – Cartografias da diferença na América Latina’, estava ancorada no princípio da diversidade e no respeito à livre expressão artística, o que se conclui no breve texto é que a perversão, a pedofilia e a zoofilia são novamente colocadas no mesmo balaio e, o que é mais grave, como comportamentos inerentes ou inescapáveis à população LGBT.

A exposição buscava, por meios artísticos, colocar em destaque e abrir um debate sobre as grandes questões do mundo contemporâneo, como afirmou a própria instituição bancária que a abrigava, mas uma parcela da população, insuflada por movimentos nitidamente conservadores e grupos ‘ditos’ evangélicos, mas que comungam na verdade com a ideologia da ultra direita, insurgiu-se violentamente contra a exposição e contra o seu conteúdo que objetivava destacar questões relativas à sexualidade e à religiosidade na contemporaneidade. Com a curadoria de Gaudêncio Fidelis, a Queermuseu era composta por mais de 270 obras que percorrem o período histórico de meados do século XX até os dias de hoje. A iniciativa explora a diversidade de expressão de gênero e a diferença na arte e na cultura.

Claro que a polêmica não ficou apenas no plano das argumentações e contra argumentações, pois alguns grupos passaram a frequentar a exposição ou ‘dar plantões’ na porta da exposição com cartazes que alertavam que os artistas estariam fazendo a apologia à degradação humana, às orgias, ao lesbianismo, à zoofilia, à pedofilia, além de difundir blasfêmias e ofensas sérias à fé cristã. Porém, as coisas não ficaram apenas na manifestação de ideias, pois esses grupos conservadores passaram rapidamente para ofensas e xingamentos ao público que visitava a exposição e, mais assustador ainda, chegaram a cometer agressões físicas contra as pessoas que tentassem fazer qualquer tipo de ponderação.

Dias depois, na internet, vários textos de representantes destes grupos, além de vídeos, alertavam para o ‘mal’ propagado pela ‘ideologia ou teoria de gênero’, chamada de ‘teoria Queer’, que partiria das maçãs podres da população, os ‘adoradores do diabo’, agindo como a serpente no Éden.

Como é de conhecimento geral, a exposição foi fechada, não sem um pedido de desculpas da instituição bancária que, obviamente, cuidou apenas e tão somente de preservar o seu lugar ao sol em uma sociedade na qual a intolerância e o ódio passaram a ser vistos como ‘naturais’. Era preciso exorcizar os demônios, expulsar o estrangeiro, eliminar as diferenças.

Cerca de duas semanas depois, um grupo de vinte pessoas capitaneado ironicamente por um ator de filmes pornográficos, foi para a porta do Museu de Arte Moderna de São Paulo, no Ibirapuera, vociferar e agredir, nos mesmos moldes, as pessoas que ali circulavam e onde acontecia uma performance na qual um artista permanecia deitado nu sobre um tablado. Havia aviso de nudez na entrada da sala e o conteúdo não era erótico. Em um dado momento, uma criança acompanhada da mãe, tocou os pés e a canela do homem, o que gerou intensa ‘indignação’ nos manifestantes. Desta vez, o tumulto foi maior e bem mais agressivo, passando os manifestantes a xingarem o público em geral de pedófilos, depravados e coisas piores. Os cartazes do grupo traziam dizeres como: ‘pedofilia é crime sim’ e ‘estão erotizando nossos filhos’. Outros protestos se seguiram, sempre sob o som do hino nacional, em clima ufanista, e os manifestantes ensandecidos pediam: ‘prendam os criminosos’.

Por que tanta violência e tanto ódio? Por que a aversão a expressões da cultura e da arte que colocam em xeque a visão dominante sobre a sexualidade humana e a religião? Por que grupos de natureza política se colocam como arautos da moralidade e da ordem e gritam por intervenções policialescas e militares? Estes grupos agem violentamente e clamam por mais violência para defender seus nebulosos territórios. Estamos diante certamente do fascismo e do eixo central que o sustenta, o fanatismo. Fascismo e fanatismo à brasileira, desvelando uma enorme fenda aberta em uma sociedade, na qual os sujeitos vagam em profundo desamparo. As mediações começam a desaparecer, estamos vivendo em um universo primário, quase barbárie.

Nas sociedades fascistas, como nos adverte Amós Oz, instala-se uma guerra que passa a ser travada entre grupos fanáticos, convencidos que seus fins ‘santificam’ os meios. O fanatismo é muito mais antigo do que o Islã, o cristianismo e o judaísmo: ‘ele é mais antigo do que toda a ideologia que existe no mundo, seria um fundamento fixo na natureza dos seres humanos. ’ (Amós Oz. “Caro fanático” In: Mais de uma luz. São Paulo: Companhia das Letras, 2017).

Oz adverte que quanto mais difíceis e complexas se tornam as questões da humanidade, tanto mais cresce a avidez por respostas simples, respostas de uma única sentença, respostas que apontem sem hesitação os culpados por todos os nossos sofrimentos, respostas que nos assegurem de que, uma vez que eliminemos e exterminemos os malvados, imediatamente todos os nossos tormentos desaparecerão. A culpa, então, é sempre do outro, do estrangeiro, do diferente, daquilo que, se nos habita, não queremos de modo algum ter notícias.

O que se pode verificar nas situações acima é um tipo de manifestação que se ancora em pensamentos arcaicos: ‘Não venham me esfregar na cara a sinistralidade que me habita, denunciar meu mundo de desejos silenciados, minha sexualidade sempre tão subversiva’. Sobretudo, ‘não venham me aterrorizar com o fantasma que me aterroriza desde a origem, o desamparo, e ‘não coloquem em questão meus dogmas mais fundamentalistas, Deus e o dinheiro’.

Seguindo um pouco mais o pensamento de Oz, ele conta de um curioso transtorno psíquico, cuja denominação médica é “síndrome de Jerusalém”: as pessoas respiram o ar da montanha ‘límpido como o vinho’ e imediatamente se levantam e vão atear fogo numa mesquita ou explodir uma igreja ou profanar uma sinagoga, matar hereges e crentes, varrer o mal do mundo. Em geral, porém, os portadores desta síndrome se contentam em despir suas roupas, escalar uma rocha e começar a profetizar. O problema é que talvez só uns poucos acreditem nesses profetizadores, mas apesar disso, eles são muitos, de todos os matizes do arco-íris.

Nesse sentido, importante marcar que o fanatismo é sempre fascista, justamente pela avidez exacerbada por soluções simples e contundentes, pela salvação ‘de um só golpe’. O tributo a Hitler, a Stalin, ao militarismo japonês cruel e violento parece já ter retornado. A vacinação parcial que a humanidade recebeu depois do horror do holocausto e das politicas stalinistas de extermínio, denuncia Oz, está se esgotando: “ódio, fanatismo, aversão ao outro e ao diferente, brutalidade revolucionária, o fervor em ‘esmagar definitivamente todos os malvados mediante um banho de sangue’, tudo isso está ressurgindo”.

A bem da verdade, e concordo com Oz, é preciso dizer que existem tipos menos evidentes de fanatismos, mas eles estão à nossa volta: ‘de antitabagistas fanáticos aos chamados pacifistas que divergem violentamente de quem vislumbra caminhos diferentes para a paz.’ Contudo, nem todo aquele que defende sua concepções aguçadas e rígidas a plena voz deverá ser acusado de tender ao fanatismo. Diz Oz: “não é o volume de sua voz que o definirá como um fanático, mas principalmente sua tolerância ou a falta dela com as vozes discordantes”.

Conformismo, caminhada cega por um rumo preestabelecido, obediência sem pensar e sem objetar, a tão disseminada ânsia de pertencer a um grupo humano compacto e sólido, esses também são componentes da alma do fanático. Não há sociedade fascista sem a sua sustentação por indivíduos fanáticos. Fascismo e fanatismo se alimentam mutuamente. O fanático necessita de um líder fascista (ou religioso) para seguir vivendo dentro de um sistema que se assenta na naturalização simplista das condições de existência, aparentemente protegido de seu desamparo. E o líder fascista (ou religioso) necessita da multidão de fanáticos para defendê-lo e propagar suas ideias/crenças.

Propagação do medo, exacerbação do terror e das angústias, horror ao desamparo e busca desenfreada de inclusão e pertencimento social são pilares de sustentação do sistema capitalista neoliberal, que espalha sua hegemonia pelo mundo à custa da infantilização das massas. O fanático não tolera diferenças entre as pessoas, aspira ardentemente mudar o outro, abrir seus olhos. Desde sempre e para sempre, prossegue Oz, o fanático corre para agarrar o outro pelo pescoço para redimi-lo, porque gosta dele. É uma espécie de ódio violento, justificado pelo amor ao outro, para ajudá-lo a alcançar sua redenção.

O motivo pelo qual o fanático está muito mais interessado no outro do que nele próprio é que geralmente não tem nenhum “próprio”, ou quase nenhum. O fanático vive alienado de seus desejos próprios, de suas angústias e de seus horrores. Ele combate basicamente os hereges e os ‘pervertidos’. ‘Não me venham desvelar meus desejos incontrolados, não me venham aterrorizar com o desamparo inerente e inescapável’.

Vivemos tempos sombrios e essa frase já se tornou um clichê. Não é difícil compreender, assim, porque a psicanálise não se converteu em um anacronismo, mais de um século depois de sua invenção. O homem ainda segue buscando escapar de sua negatividade e destrutividade, de sua sinistralidade, do estranhamento inominável que experimenta diante de sua face mais obscura, ao mesmo tempo familiar; segue recusando os impulsos sexuais sempre desviantes e subversivos, não amoldáveis mansamente pela moral sexual vigente. A ideologia que sustenta a sociedade capitalista neoliberal, funcionando sob uma democracia falseada - democracia é um estado de constante exceção, nos ensina Benjamim –, ameaça a todos de expulsão, exclusão e desamparo, e a qualquer um, que pela diferença, diversidade ou questionamento profundo, se coloque como elemento de instabilidade da ordem social. Tradição, família e propriedade seguem sendo os pilares a sustentar um sistema profundamente injusto e desigual.

Finalizo, perguntando: o que será do MASP e sua próxima exposição “Histórias da Sexualidade”? Como se sabe, a exposição que estava no Guggenheim em Nova York não escapou da censura e recriminações violentas, levando o museu a retirar três das obras mais polêmicas entre as setenta que integram a exposição. Boatos sobre curadores terem sido ameaçados de morte e também de promessas de retaliação econômica contra o museu passaram a circular. Em São Paulo, o MASP, que tem essa exposição na agenda há quase três anos, se vê obrigado a tomar medidas preventivas contra a violência e a intolerância.

O fascismo está em marcha. É preciso que denunciemos a plena voz. O desafio será encontrar caminhos para que as diferenças e divergências voltem a conviver e a dialogar. Como?


Maria Silvia Bolguese é psicanalista, membro e professora do curso de Psicanálise do Departamento de Psicanálise do Sedes Sapientiae, e colunista do Blog do Departamento. É autora dos livros “Depressão & doença nervosa” (Via Lettera, 2004) e “O tempo e os medos. A parábola das estátuas pensantes” (Blucher, 2017) 

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Resenha do livro "Psicanálise Entrevista" com Mara Selaibe

O Blog do Departamento achou oportuno publicar uma pequena resenha do livro Psicanalise Entrevista (org. Mara Selaibe, Andréa Carvalho. São Paulo: Estação Liberdade, 2014 e 2015) citado por Renato Mezan no evento Psicanalise Contemporanea ocorrido no dia 19 de agosto de 2017 no Sedes Sapientiae. Confira o texto de Mara Selaibe, uma das organizadoras dos dois volumes deste livro.






A propósito do evento Psicanálise Contemporânea recém-ocorrido no Departamento de Psicanálise do Sedes Sapientiae, o BLOG considerou que este seria um bom momento e uma nova oportunidade para tratar do livro citado por Renato Mezan naquela manhã: Psicanálise entrevista (org. Mara Selaibe, Andréa Carvalho. São Paulo: Estação Liberdade, 2014 e 2015).

Green, Pontalis, Laplanche, Jean Oury, Mannoni, Bollas, Roudinesco, Joyce McDougall, Kernberg, Emílio Rodriguè, Marcelo Viñar, Chaim Katz, Joel Birman, Silvia Alonso, Miriam Chnaiderman estão reunidos nesta obra, juntamente a outros psicanalistas brasileiros e estrangeiros e também a pensadores como Sérgio Paulo Rouanet e Zygmunt Bauman. Os 2 volumes conjugam 35 psicanalistas entrevistados ao longo de 25 anos, pela equipe de entrevistas da Revista Percurso. São autores cujas obras constituem o que se costuma chamar com justeza de psicanálise contemporânea.

A leitura sequencial dessas entrevistas permite ao leitor uma visada dos diferentes psicanalíticos remetidos à obra freudiana num diálogo por vezes vociferante, por vezes belicoso e sempre estruturante do território pelo qual exercemos nosso ofício. Esses abalos sísmicos devem ser percebidos e considerados sempre como promissores de entendimentos àqueles que se propõem a conhecer essa história que não é de passado, e, sim, de modos de pensar e realizar o exercício psicanalítico, atualizando-o de maneira incessante.

Para essa empreitada, Renato Mezan produziu uma Introdução cuidadosa (vol 1), estabelecendo relações que conferem ao material uma riqueza necessária de ser ressaltada a fim de que não se passe ao largo dela nas eventuais pesquisas mais específicas que cada um pode querer fazer no livro. Porque os volumes contam também com dois índices: onomástico (vol 1) e remissivo (vol 2). Ambos se remetem aos dois volumes. De tal modo que o leitor pode buscar as referências de seu interesse sem qualquer dificuldade. Assim, imaginem qual a fartura ao se buscar, por exemplo, o conceito de transferência e ser brindado com nada menos do que 47 (!) indicações de páginas onde ele se encontra trabalhado pelos entrevistados!

Na outra extremidade da obra há um Posfácio, de autoria de Jô Gondar. Ela nos indaga sobre como prosseguir com toda essa herança. São reflexões acuradas que insistem em nos remeter a perguntas que jamais serão respondidas, mas que precisam ser refeitas e sustentadas para que a psicanálise siga adiante.

As duas Apresentações escritas por Andréa Carvalho e por mim buscam situar o leitor no nascedouro do projeto desses livros e das razões que nos levaram a organizá-lo durante três anos. Por fim, o projeto gráfico e editorial é de primeiro time, elegante mesmo! Temos orgulho do resultado e muito gosto em saber que tantos terão incluído o Psicanálise entrevista nos seus processos de formação continuada na psicanálise.

Mara Selaibe é psicanalista e membro do Departamento de Psicanálise do Sedes Sapientiae


segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Evento sobre Psicanálise Contemporânea.

Realizado pelo Departamento de Psicanálise e organizado por Christiana Freire, Gisele Senne de Moraes e Natalia Gola, aconteceu no último dia 19 de agosto no Sedes Sapientiae, o evento sobre Psicanálise Contemporânea.

À convite da organização, o Blog do Departamento produziu um texto em que comenta de forma resumida a fala dos palestrantes.

Em sua primeira parte, o evento contou com os psicanalistas Fernando Urribarri e Renato Mezan  falando sobre o “A Geração pós- Lacan”.

Com o intuito de historiar a psicanálise em geral e a psicanálise francesa em particular, o psicanalista argentino Fernando Urribarri iniciou sua fala comentando que nós, psicanalistas sul americanos, estaríamos em uma posição privilegiada ao reconhecer a unidade do movimento pós-lacaniano e seus muitos e brilhantes psicanalistas que contribuíram de forma importante para a psicanálise contemporânea. Um convite a nos apropriarmos deste legado, longe das paixões alienantes ou das militâncias. Cita a importância do Sedes Sapintiae como sede de uma psicanálise freudiana e pluralista.

Na história da psicanálise contemporânea – particularmente nos anos sessenta - seria preciso reconhecer o valor de Lacan, o mais brilhante, criativo e sedutor dos psicanalistas de sua época (e seu projeto de retorno a Freud), e por isso uma referência para se analisar as contribuições de seus conterrâneos ainda que fosse “com Lacan”, “contra Lacan” ou “além de Lacan”. Conrad Stein, Andre Green, Gui Rosolato, Serge Leclair, Jean Laplanche, Jean-Bertrand Pontalis, Joyce MacDougall, Didier Anzier, Piera Aulagnier, Cornelius Castoriades, Julia Kristeva são alguns deste “dream team” francês, que após terem tido a oportunidade de conhecer e debater as ideias de Lacan criam a partir dos anos setenta, uma consistente, fecunda e criativa rede de ex-lacanianos em que espaços novos como as revistas de psicanálise ou debates entre autores permitem a circulação de seus textos e ideias.

Ainda que estas revistas e trocas se extingam nos anos noventa, Urribarri nos lembra de que este legado produziu uma possibilidade de se pensar a psicanálise contemporânea e cabe às gerações seguintes decantar esta nova matriz, levando em conta o contexto histórico e seus novos paradigmas e o fato de que a verdade última é da clínica psicanalítica, quem decide sobre a funcionalidade dos conceitos.

Como exímio historiador da psicanálise, Renato Mezan recupera sua autoria do prefácio para os dois volumes de Psicanálise entrevista (ambos organizados por Mara Selaibe e Andréa Carvalho, Editora Estação Liberdade, São Paulo, 2014/2015)  que em suas 751 páginas apresenta 35 entrevistas das quais um time de importantes psicanalistas, muitos deles franceses, revelam a multiplicidade de linhas teóricas, criações e rupturas dos institutos de formação, e de certa forma historiam os principais fatos do movimento psicanalítico, suas crises e disputas, mas principalmente o intercâmbio entre as heranças dos grandes mestres a partir de Freud, em um diálogo fecundo entre seus discípulos, dissidentes e divulgadores, traçando um panorama fascinante da psicanálise nos últimos sessenta anos. Na  difícil tarefa de organizar os autores para o prefácio, acabou utilizando um critério por grupos de pertença: anos 50, 60, e 70.

Mas lembra do fato de que esta fértil produção da psicanálise, que também produziu uma comunidade de referências, transferências, rivalidades e solidariedades, precisava ser pensada levando em conta o período do pós-guerra. Recupera os anos 20-30 e autores como Fenichel, Reich, Karen Horn, Sachs, Melanie Klein que falaram em nome próprio e vaticina sobre a possibilidade de haver uma espiral, um ciclo em que na história da psicanálise acontece uma ruptura a cada 30 anos, nascendo daí uma nova e produtiva leva de autores.

Na segunda parte do evento, Fernando Urribari e Decio Gurfunkel dividiram a mesa para falar sobre “A clínica do negativo”.

Urribarri afirmou que a psicanálise contemporânea se caracteriza por um novo objeto de pesquisa (o par analítico), pela complexidade do trabalho psíquico do analista que passa a ser marcado pela heterogeneidade, e pela assunção na clínica de um novo objetivo de tratamento, o de transformar o manifesto em pré-consciente.

Se na psicanálise freudiana o paciente paradigmático é o neurótico, na psicanálise pós-freudiana o psicótico, na psicanálise contemporânea são os pacientes difíceis, o que leva as pesquisas em psicanálise se voltar para os limites do analisável. A questão se o paciente é ou não analisável é, de certo modo, reformulada, e a analisabilidade passa a ser uma questão singular de cada par analítico – analista/analisando. O objeto de pesquisa psicanalítica passa a ser a terceiridade, o campo que se constitui na análise entre o paciente e o analista, ou, se preferirmos, o espaço potencial criado pela dupla analítica a partir do enquadre analítico no qual os movimentos de simbolização se tornam possíveis.

A atenção se volta para o enquadre analítico cuja função básica passa a ser a de representação e o objetivo da análise passa a ser acompanhar o movimento de representação sob as condições deste enquadre. O enquadre, portanto, passa a ser aquilo que garante a simbolização.

São os pacientes como o antianalisando de Joyce Macdougall ou aqueles que sofrem de angústias da série em branco (psicose branca, luto em branco) descritos por Green que produzem essas mudanças no campo da pesquisa psicanalítica e na técnica.

Do ponto de vista técnico, a escuta e o trabalho psíquico do analista se tornam bem mais complexos e o trabalho representativo se dará a partir do eixo da transferência e da contratransferência. A escuta se dá de forma heterogênea (como veremos abaixo) e a contratransferência se coloca como um novo território, o território imaginativo, que exige um complexo trabalho de perlaboração do analista que poderá levar à intervenção analítica. Um trabalho apoiado na ideia de enquadre interno do analista e que envolve um processo terciário do analista. De maneira mais sistemática, podemos dizer que as mudanças na técnica se organizam em torno de 5 eixos:

   1)   Escutar e entender o paciente (escutar o discurso manifesto em si, o processo secundário). Urribari brinca: se o paciente diz que ele estacionou o carro na porta a primeira coisa que temos que fazer é escutar e entender que ele estacionou o carro na porta!

   2)   Imaginarizar: movimento de ligação no qual o analista imaginariza o que está acontecendo a partir do discurso do paciente.

    3)   Associar: corresponde ao movimento de desligamento do processo secundário do paciente no qual o analista associa e escuta seu próprio movimento de associação

  4) Arquivar: o analista funciona como arquivista do pré-consciente da história transferencial

    5)   Intervir: o analista propõe com muita prudência o que talvez seja o trabalho com a contratransferência.

Finalmente, essas mudanças redefinem o objetivo da clínica psicanalítica contemporânea, que passa a ser não mais o de tornar consciente o inconsciente, mas sim fazer dizível e pensável aquilo que está manifesto ou, em outras palavras, permitir a construção do pré-consciente do paciente.

Décio Gurfinkel trouxe para discussão o tema do negativo na clínica, articulando as questões do sono branco e as depressões.

Retomando as pesquisas de relações de objeto através da história da psicanálise, ressalta o foco dado pela psicanálise contemporânea ao elo de ligação entre self e objeto para além da discussão sobre o problema do self e do objeto. Sendo assim, as questões de ligação e desligamento passam a interessar. Esse tipo de pesquisa fertiliza o pensamento clínico de Green, que vai colocar o trabalho de simbolização em primeiro plano, definindo-o como um trabalho resultante de um movimento dinâmico de disjunção e conjunção de representações.

Podemos aproximar o trabalho do negativo dos movimentos disjuntivos, de separação ou diferenciação que se apresentam de três maneiras: um negativo universal, como no recalque primário, uma negativação desse momento inicial, próprio da concepção do aparelho psíquico; o negativo patológico onde não há possibilidade de conjunção, ou de síntese, como na dúvida da neurose obsessiva; uma negatividade mais radical dos casos limite, onde há uma impossibilidade de trabalho na reunião dos elementos cindidos.

A simbolização envolve um movimento dialético de:
1 - afirmação,
2 - negação,
3 - síntese, criação do terceiro.

Esse modelo de simbolização tem a ver com o processo de criação de objetos ou de construção, nessa síntese que serve de reunião dos elementos divididos. O trabalho de simbolização é apresentado como um movimento dinâmico de divisão de seus elementos originais, e sua posterior conjunção ou ligação, criando um terceiro elemento.

Décio propõe pensar as articulações entre sono branco (sono sem sonhos) e as depressões. Para isso recoloca as questões próprias do sono/sonho, como numa reciclagem da teoria dos sonhos na clínica e acrescenta que talvez na atualidade não seja mais possível falarmos de uma teoria do sonho sem uma teoria do sono.

Embora na Interpretação dos sonhos Freud fale do desejo de dormir, da luta da vida psíquica que, por um lado busca se manifestar e de outro busca o adormecimento, produzindo a dinâmica do sono/sonho ou a luta entre o apagamento e a busca de emergência, o sono é um tema B. Mas no sono, o eu da vigília deve ser colocado de fora para que outra forma de expressão psíquica possa acontecer, experiência que é fundamental para a criatividade humana.

O colapso do sonhar seria uma negatividade radical, quando a falta de simbolização toma conta da cena.

Décio pergunta: Existem pessoas que não sonham? Para Freud, a ausência de sonho é efeito do recalcamento. Mas será sempre assim?

Aponta para a ligação entre a falta de sonho e adoecimento psíquico, na esteira de Marty que levanta a ligação entre a falta de sono e adoecimento somático. Este, por sua vez, levanta a hipótese de uma falha do funcionamento onírico como uma falha do funcionamento pré-consciente. Fala das produções de sonhos operatórios, sonhos crus, e como estes nos informam sobre algo que se passa na clínica. Não são sonhos de desejo, como aparecem nas clínicas das neuroses.

Nesses casos, estimular, recuperar, reconstituir a experiência onírica faz parte do trabalho clínico. Propõe que o sono/sonho não deva ser olhado apenas pelo seu conteúdo, e sim como experiência de uma função psíquica.


Equipe do Blog: Adriana ElizabethDias, Ana Carolina Varsarhelyi de Paula Santos, Fernanda Borges, Gisela Haddad