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domingo, 14 de agosto de 2016

Paternidades: Pais para que? por Vera Iaconelli

          Neste mês nosso tema é "Paternidades". Estreamos com o texto de Vera Iaconelli.


PAIS PRA QUE? 

O termo “pais” encerra uma ambiguidade em português, podendo se referir tanto aos homens na função parental, quanto ao casal parental. Neste sentido, a pergunta do título, visa os dois sentidos, mãe/pai e pais, uma vez que um reflete diretamente no outro. 
Desde o século XV, com os problemas sociais decorrentes do descaso generalizado a que estavam submetidos bebês e crianças, que se busca uma forma de se dar conta desta população. Não havendo contracepção eficaz, o aborto colocava em risco, muito mais do que hoje, a vida da mulher e obviamente as gravidezes não respondiam necessariamente ao desejo dos pais. A massa de bebês e crianças, mortas, abandonadas e entregues aos cuidados de mães mercenárias vai se tornando um problema social que aflige a todos e onera o estado. Saídas como criá-los para se tornarem militares ou ocuparem as colônias vão esbarrando na necessidade de que os cuidados iniciais sejam suficientes para que estas crianças cheguem a idade adulta minimamente saudáveis.  Mas como sabemos, os cuidados que demandam bebês e crianças até chegaram a adquirir alguma autonomia são de tal magnitude que logo ficou claro quão oneroso seria para o estado se incumbir de tal tarefa. Feitas as contas, percebe-se que arregimentar a mulher nesta tarefa a partir do apelo da amamentação, quem melhor para cuidar do bebê do que aquele capaz de alimentá-la naturalmente?, é a solução com melhor relação custo benefícioi. A partir daí um alonga campanha encampada por cientistas, artistas e religiosos e que demoraria séculos para surtir seus efeitos de adesão das mulheres vai provando por “a+b que a mulher é a cuidadora insubstituível do bebê e da criança. Dentre suas incumbências estão a saúde física, psíquica, religiosa, intelectual e moral de cada criança. A cada uma destas responsabilidades impostas corresponde um profissional obsequioso de orientá-la e avaliá-la em seu fazer junto a criança (médico, psicólogo, padre, professor...). A contrapartida desta incumbência é um certo reconhecimento social nesta função. Uma mãe dedicada é uma boa mulher, piedosa, psiquicamente sã e moralmente louvável. O pai é o provedor e aquele que deixa espaço na agenda para que ela seja mais mãe do que mulher. Deixa tanto espaço que por vezes prefere buscar os préstimos de outras mulheres no que tange à sexualidade, que passa a estar maculada pelo imperativo reprodutor quanto se trata da esposa. 
Pano rápido e nos vemos no século XXI, época em que a amamentação não pode ser diretamente associada à sobrevivência dos bebês, a contracepção teve grandes avanços e o provedor se divide igualmente entre homens e mulheres. Caberia perguntar quem se incumbe do bebê hoje? Ainda, exclusivamente as mulheres. E quando não, trata-se do pai-arremedo, aquele que quando é bom pai é “quase” uma mãe, ou um “pãe”. 
A psicanálise também não deixa de ler a ausência da mãe como um prejuízo incontornável para o bebê e a ausência do pai como um clássico “declínio do patriarcado”. Saudosismos seculares à parte, cabe perguntar afinal, “pais pra que?”  
A constituição do sujeito implica que o recém-nascido receba do outro um desejo não anônimo para “chamar de seu”, que seja alvo de imensa dedicação e investimento narcísico, vulgarmente conhecido por amor; que herde um lugar no registro simbólico a partir de sua nomeação e que receba incansáveis cuidados e proteção ao longo de muitos anos. Tarefa incansável e árdua que implica em um entorno que sustente quem a realiza. O mesmo entorno que nos séculos precedentes vem cobrando as mulheres de realizá-la por sua conta e risco, usando o famoso “toma que o filho é seu”, e que nossa época passa a questionar. Se as condições de criação de sujeitos implicam em: desejo não anônimo, dedicação, amor, lugar simbólico, nomeação, cuidados e proteção, porque seria restrita às mulheres?  
Afinal, não é para isso que servem os pais?  
E ao Estado, que não se furta a fazer ingerências sobre o corpo feminino, arbitrando sobre contracepção, aborto e parto, batendo na tecla no feto-cidadão, também não caberia dar verdadeira consequência a esta posição assumindo integralmente os cidadãos nascidos sem estatus de filho que as gravidezes indesejadas impõem aos pais, mas acima de tudo à mulher? 
Muitas são as questões que se abrem em nossa época a partir das novas configurações parentais. A psicanálise não pode se furtar a enfrentá-las de forma aberta e reflexiva, assumindo sua vocação de estar “a altura de seu tempo”, como nos dizia Lacan, inspirado na direção ética proposta por Freud.  



[1] Para mais informações sobre este capítulo da história dos cuidados com a prole humana ocidental recomenda-se os já clássicos: 
ARIÈS, P. História social da criança e da família. 2. ed. Rio de Janeiro: LTC, 2006.
BADINTER, E. Um amor conquistado: o mito do amor materno. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.
DONZELOT, J. A polícia das famílias. 2. ed. Rio de Janeiro: Graal, 1986. 




Vera Iaconelli é mestre e doutora em psicologia pela Universidade de São Paulo. Coordenadora do Instituto Gerar de Psicologia Perinatal, onde realiza curso de formação, desenvolve pesquisa em psicologia perinatal e coordena a clínica social para gestantes e mães de bebês. membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae. Atua como psicanalista em clínica particular.

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